Os eleitores se fortalecem como arautos da moralidade e da boa fé. Talvez essas até estejam presentes em muitos deles, porém, são insuficientes para reorientar os rumos de qualquer coletividade. Um certo político local dizia que, “em época de eleição, o eleitor fica entojado”. Pois é, as razões do eleitor também são questionáveis.
Creio que, e é tão somente uma crença, nada se muda se certas condições não forem preenchidas. Nesse sentido, promover a mudança é identificar e preencher condições, o que é nada fácil. Mas, ainda no campo das convicções abertas às revisões, acredito que, na esteira de Merleau-Ponty quando diz que as “revoluções são verdadeiras como movimentos e falsas como regimes”, mudar não se resume a negar o presente, mas encontrar nele elementos que, rearranjados, permitam a manifestação do novo. É complexo? Talvez. É real? Não sei.
O que quero dizer? Em resumo, ou encontramos no presente as fissuras que permitem ver e subtrair os elementos para uma nova ordem, ou sucumbiremos na própria mediocridade.
É preciso colocar os gatos sobre tetos de zinco quente, pois se não é possível distingui-los pela aparência, que saibamos, ao menos, diferenciá-los pelo estilo e dimensão do salto. Como pulam e quanto pulam. E se isso não for possível, é preciso desembaçar a vista para um olhar reflexo: quem sabe na imagem vista não encontraremos um pardacento felino.
Apagaram-se as luzes ou todos os gatos tornaram-se pardos? Estamos diante de um problema físico ou biológico? Ótico ou genético? Ou será social?
Salvo erro meu de percepção sensorial ou intelectual, a cotidianidade atual imerge as consciências em um dinâmico fluxo desorientador. Ou seja, a posse da informação, quando existe, não é garantia de interpretação coerente do mundo. O que isso significa? Talvez que a sociedade da informação se organiza de modo a induzir as inteligências pouco atentas e pouco lógicas à reprodução de um discurso “cartilhesco” de análise indiferenciativa. O que isso quer dizer? Esclareço uma vez mais. A coerência das interpretações é buscada na repetição “ad nausea” de “filosofias de botequins”, como se a verdade dela brotasse.
Qual a conseqüência disso? Todos os gatos tornam-se pardos. Tudo é visto como a manifestação do mesmo. A história é convertida em signo da reprodução. Tudo o que é cíclico ganha força. Tudo se torna igual para os espíritos preocupados em responder apressadamente, afinal de contas, convencer-se com as próprias respostas recobra um sentido para o mundo e reconforta.
Mas são essas mentes afoitas que arremessam o pensamento a formas ingênuas de compreensão. O fatalismo, o messianismo e o individualismo seriam algumas de suas manifestações. O fatalismo ao neutralizar a utopia, o messianismo ao imobilizar na espera e o individualismo ao reduzir na miopia.
Se o exemplo serve para esclarecer, aqui vai um.
Em período eleitoral é comum ouvirmos dos eleitores que os políticos são todos iguais, que nada irá mudar, que os interesses particulares sempre se sobreporão aos demais, que antes da eleição é uma coisa e depois outra, que o despreparo dos candidatos não os habilita ao exercício do cargo, que não gosta de política por estas e outras razões, ... enfim, que todos os gatos são pardos. O discurso uniforme e uniformizador dissemina-se como crença e engessa a razão, imobiliza o pensamento e impede que a criatividade racional atue como fonte de solução positiva para os problemas.
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