Estar em vigília diuturna, qual sentinela, sugestiona o quadro que traz, em primeiro plano e na parte superior, as torres do Congresso Nacional (onde funcionam os anexos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal) com reflexos em cores invertidas na metade inferior da tela. O mesmo jogo de inversões acontece com os semi-círculos que se transformam em olhos no âmago do poder. Ao fundo, o verde-amarelo do pavilhão nacional dão a costura do verdadeiro interesse de políticos e povo.
É o próprio artista que afirma: “O povo brasileiro é pacífico. Temos que reivindicar, exigir, gritar contra os maus políticos e eles têm que se conscientizar de que estão a trabalho para o bem estar da população. Fala-se muito em crescimento econômico, mas eles estão preocupados em gerar mais impostos, enquanto o povo recebe migalhas em troca: na saúde, na educação, na segurança... Nas próximas eleições temos que exigir a reforma política e tributária, elegermos políticos limpos e cobrarmos uma distribuição mais justa das riquezas geradas no Brasil.”
Sobre como encara a própria arte, diz: “Agradeço a Deus por ter me dado este dom e vou retribuir fazendo com que parte da minha arte seja um caminho para que tenhamos um Brasil mais justo”.
A série “’Músicos”, no anverso do artista-crítico, mostra um crítico da própria arte em busca de uma nova estética. As linhas geometrizadas, a predominância do vermelho e do azul, a decomposição de objetos e instrumentistas, as pautas musicais recortando instrumentistas e instrumentos numa alusão à música como o encontro da criatividade com a técnica e o destaque para braços e mãos são alguns elementos que podem ser encontrados no estilo que já valeu a Jorge o reconhecimento em salões, mostras e galerias no Brasil e no exterior.
No final da primeira década deste início de século, Jorge Azeredo se coloca como expoente da arte contemporânea valeparaibana e um promissor nome da arte nacional.
Jorge Azeredo nasceu em Aparecida-SP, no ano de 1972. Filho de comerciantes, desde menino mostrou, através do desenho, que a sua seara seria diferente da de seus pais. Seu contato tardio com as telas e as tintas – começou a pintar aos 32 anos – favoreceu o nascimento de uma arte madura e reflexiva que lhe valeu vários prêmios logo com os seus primeiros ensaios.
J. Azeredo – com assina – é contido nas palavras, entretanto, é um eloqüente tribuno das telas ao usar a linguagem das cores. Seu discurso é silencioso e seus códigos são visuais. Fala palavras para ver.
Seus matizes são inconfundíveis e suas composições, em tons pastéis ou em cores vivas, oscilam entre a sensualidade das curvas e a geometria angular de um cubismo sintético de cores vibrantes, guiados por uma opção tropicalista que orienta o conjunto da obra.
Em parte de seus quadros, vê-se um pintor que atribui a origem das desigualdades, fonte de injustiças, à inépcia de uma casta política avessa às transformações na estrutura do poder. Em outra, vê-se a preocupação, tão somente estética, de mostrar a beleza no equilíbrio das formas e das cores.
Nos vieses de suas distintas experiências encontram-se o alinhavo da brasilidade. Suas pinceladas multicoloridas exploram aspectos da cultura cabocla de um Brasil diverso, onde a beleza contracena com a ética.
A crítica social de Jorge tinge-se das cores da indignação mostrando um país de antípodas com o foco invariavelmente posto no centro das decisões políticas do Brasil. Desferindo duras pinceladas de censura, o Congresso Nacional é ícone de sua predileção, como se pode observar na tela “Congresso“ na qual o artista, após utilizar-se da estilização do legislativo nacional, no centro do quadro, estabelece as coordenadas que dividem o Brasil em rico e pobre, opulento e miserável, saciado e faminto. Talvez, um nome sugestivo para a obra fosse: “Congresso Binacional”, evidenciando a intenção do autor de colocar a (ir)responsabilidade política pelas mazelas de nossa sociedade. O branco como mediatriz parece representar, a um só tempo, a neutralidade necessária dos poderes constituídos, oferecendo condições formais para que a equidade real se estabeleça, e a paz como advinda da conquista de uma sociedade menos desigual. Importante perceber que as demais cores da bandeira nacional ocupam os espaços estabelecidos como quadrantes. Seria o paradoxo de um Brasil dividido ou unido pelo exercício do poder político aqui figurado como Congresso?
Outro quadro a conduzir na mesma linha de interpretação é “Olho no lance”, apenas que desta vez o artista faz um criativo chamamento ao povo: ou cada cidadão assume a plena responsabilidade pelos destinos da nação ou o fado que nos aguarda não diferirá do presente que vivemos.
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