Com os livros didáticos e material escolar ocorria a mesma coisa. O consultório ficava numa das salas da escolinha. Tinha até cadeira de dentista, antiga, mas tinha. O dentista chama-se dr. Rubens, infelizmente não lembro seu sobrenome, mas do médico, sim: dr. Gentil Pacheco. Grandes figuras humanas que, pelo menos uma vez por mês, sacrificavam seu fim de semana para atender aquela população sofrida e carente. Fora tudo isso, por várias vezes, meu pai organizou festas juninas no sítio. É o ponto onde queria chegar. Lembro que além da família, eram convidados amigos e parentes, mas não muita gente. A festa era mesmo do pessoal que morava pelas redondezas. Nessas ocasiões, o sítio, todo embandeirado, ficava lotado. Após a missa, começavam os festejos e brincadeiras. Corridas de saco, corridas de limão-na-colher, corridas de andar de quatro com um copo d’água nas costas, esconde-esconde e polícia e ladrão, entre outras. O pau de sebo era a brincadeira mais concorrida, com muito sebo misturado com areia e terra, muito tombo e muita risada. Os comes e bebes eram oferecidos, em parte, por meus pais, amigos e parentes e, em parte, por algumas famílias locais que traziam sua contribuição, um doce, um bolo, frutas, mel, ovos ou verduras. Havia também quermesse, com sorteios e premiações, fogueira, quadrilha, soltação de rojões e busca-pés, isso sem falar nas estrelas do espetáculo, grupos de moçambiqueiros, jongueiros e congueiros que de vez em quando apareciam. Impossível esquecer aquelas danças e cantorias, desconhecidas na cidade grande, apresentadas na frente da capelinha com verdade, alegria, arte e muita fé. De certo modo, o sítio, principalmente de meados da década de 50 até o fim da década de 60, acabou virando um centro comunitário e, também, pode-se dizer, uma espécie de centro de cultura. Foi um privilégio extraordinário, para mim e meus irmãos, assim como, tenho certeza, para muitos primos e amigos, passar as férias, e quase todos os fins de semana no sítio Santo Antonio, lugar onde compreendi, de um lado e desde cedo, como é absurdamente dura a vida do povo e, por outro lado, como, paradoxalmente, é bela, vital e esperançosa a sua cultura.
* Ricardo Azevedo é escritor e ilustrador com vários livros publicados, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e pesquisador na área da cultura popular. Site: www.ricardoazevedo.com.br
Aroldo de Azevedo, nascido em Lorena, 1910, e falecido em São Paulo, 1974, destacou-se por seu trabalho como geógrafo. Foi um dos pioneiros dos estudos da geografia no Brasil, professor livre-docente de geografia na Universidade de São Paulo, com vários e vários livros e artigos publicados. Certamente algumas gerações estudaram em seus livros didáticos publicados pela Companhia Editora Nacional. Uma faceta menos conhecida de meu pai foi seu amor pelo povo e pela cultura do povo. Durante a pesquisa para o doutorado, que resultou na tese “Subúrbios orientais de São Paulo”, apresentada em 1945, ele andou viajando pelo entorno da cidade de São Paulo e ficou encantado com os lugares que visitou. Mais tarde, em 1950, comprou um sítio ao qual deu o nome de Sítio Santo Antonio. O sítio ainda existe e fica na estrada do Corredor, entre Arujá e Itaquaquecetuba, na hoje chamada zona leste, dentro da Grande São Paulo. Era uma propriedade relativamente pequena, cerca de 5 alqueires, parte dos quais foi vendida mais tarde. No começo da década de 50, o lugar era um fim de mundo, zona rural mesmo, habitada por famílias caipiras autônomas que sobreviviam da própria roça e de pequenos serviços, algumas poucas famílias de japoneses plantadores de verduras, muitos nem falavam português, e uma ou outra olaria. Havia ainda a venda do seu Albertinho e só. O resto era mato, um matagal danado, cheio de cobras e aranhas, tatus, veados, porcos-espinhos, preguiças, cotias, pacas e preás, sem falar na infinidade de pássaros e também de carrapatos. Isso a cerca de 40 km de São Paulo. Íamos de carro até Arujá, pela Dutra recém inaugurada e com pista única, e pegávamos a estrada, na época de terra batida, que vai dar em Itaquaquecetuba. No meio do percurso, à direita, saía a estradinha do Corredor, de terra e muito estreita, uma buraqueira cercada de mato por todos os lados. Quando chovia, a estrada alagava e ficava intransitável. Luz elétrica por ali, nem pensar. Durante anos, a iluminação do sítio foi feita com lamparinas e lampiões. A água era tirada de um poço. O fogão, à lenha. Pois bem, lentamente e com recursos próprios, ou seja, com dificuldades, meu pai plantou árvores, arrumou o jardim e construiu não só nossa casa e uma casa de caseiro, como também uma capela e, num terreno separado, a cerca de cem metros da casa principal, um prédio pequeno mas jeitoso que ofereceu à Prefeitura de Itaquaquecetuba para ser utilizado como escola. Além da sala de aula, o prédio, cercado de muros baixos, tinhas duas salinhas internas, dois banheiros e um bom pátio. É preciso dizer que as crianças da região não estudavam pois não havia escola por ali. Só sei que a coisa funcionou. Inaugurada em 1955, a Escolinha do Corredor, do tipo rural e multi-seriada, proporcionou, durante 20 anos ou mais, o ensino fundamental a muitas e muitas crianças que, sem ela, teriam ficado sem estudo pois as escolas mais próximas ficavam em Arujá e Itaquá, muito longe e sem condução regular. A merenda das crianças era feita diariamente pela mulher do nosso caseiro e suas filhas, com ingredientes fornecidos pela prefeitura. Durante as férias, os estudantes que não tinham o que comer em casa apareciam no sítio. Deu-se um jeito de preparar um lanche, fora do período escolar, para que elas pudessem se alimentar. Domingo sim, domingo não, meu pai levava um padre de São Paulo para rezar missa na capela. Logo cedo, chamadas pelo sino, as famílias com roupa de domingo, à cavalo, de carroça, de bicicleta, a maioria à pé, apareciam para assistir a missa. Muita gente foi batizada, fez primeira comunhão e se casou na capelinha do Sítio Santo Antonio. Além disso, uma vez por mês, nos fins de semana e alternadamente, meu pai trazia de São Paulo médico e dentista que, sem qualquer remuneração, atendiam o pessoal que habitava as redondezas. Naturalmente, as consultas não eram cobradas e os remédios dados de graça, em geral amostras grátis obtidas com médicos conhecidos, amigos, parentes e gente que se interessava em colaborar.
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