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Nº 31 | Janeiro/ fevereiro de 2010
Letras Vale.

Como era verde o meu Vale | Daniela Prado

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“Na minha infância e nos primórdios da adolescência, embora me fosse geralmente controlada pela vigilância paterna a leitura de romances, tive a meu favor a circunstância de minha avó os ter lido apaixonadamente na mocidade...” (p. 3).

No entanto, as histórias que mais surpreendiam e despertavam a curiosidade do menino eram os enredos tecidos pela própria existência da avó, cuja infância, segundo o autor, não fora feliz:

“o germe da literatura estava no romanesco das histórias verídicas que ela me contava, em tantos episódios que vira ou presenciara.” (p. 4).

Entre as histórias que podem ser destacadas neste artigo, Brito refere-se, por exemplo, à infância de Nhá Marica na fazenda do pai, onde crescera em meio aos escravos. Um hábito que se repetia toda noite na fazenda onde a avó fora criada era a reunião dos membros da família e dos escravos para rezar o terço na sala de jantar – “todos ajoelhados murmuravam, com o máximo respeito, os padre-nossos e as ave-marias” (p. 16). Ressaltoessa passagem pelo que tem de tradicional e familiar para quem conhece o interior, e sobretudo o Vale do Paraíba.

Além dos hábitos religiosos da avó, o memorialista lembra ainda as histórias de assombrações, nas quais a “menina da roça” (p. 17) não podia deixar de acreditar. Um exemplo típico e ao mesmo tempo divertido citado por Brito é a história do saci, vivenciada pela avó na mesma fazenda:

“Outra noite, reunia-se o pessoal para o terço, quando notaram no terreiro um crioulinho que saltava no escuro, recusando-se a entrar. Foi o feitor chamá-lo asperamente:
- Entra, moleque sem-vergonha, já pra reza!...
E deu-lhe na cabeça com uma cuia que por acaso tinha na mão. Qual não seria o seu espanto ao sentir que a cuia afundava na cabeça do moleque, como se esta fosse oca? Enquanto o vulto, esperneando (e naturalmente pondo fogo pelas ventas), desaparecia no escuro.” (17).

Daniela Prado é doutoranda em Literatura pela Universidade de São Paulo.

Para ler o texto completo, baixe a versão em pdf clicando na imagem abaixo.

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Brito Broca é muito lembrado e conhecido como o grande cronista da vida literária brasileira. Vide, como exemplo, seu premiado livro A vida literária no Brasil – 1900, vencedor de quatro prêmios quando de sua publicação, em 1957, e até hoje uma referência para os pesquisadores. Além disso, publicou inúmeros artigos nos diversos periódicos para os quais colaborou ao longo de sua carreira jornalística, iniciada ainda muito jovem na pacata Guaratinguetá da década de vinte. Após a morte prematura, em 1961, muitos de seus textos, antes esparsos, começaram a ser reunidos e organizados em livros pelo amigo Alexandre Eulálio, que também se foi prematuramente. Grande parte do acervo do cronista encontra-se na Coleção Brito Broca, do Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio, no Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP.

O presente artigo, no entanto, irá abordar não o cronista literário, mas o memorialista, o contador de histórias que se manifesta nas Memórias de Brito Broca, publicadas em 1968, sete anos após sua morte, pela Livraria José Olympio Editora, no mesmo dia em que se encerrava, em Guaratinguetá, cidade natal do nosso personagem, a “IV Semana Brito Broca”, evento instituído em sua homenagem.

Estas Memórias foram organizadas por seu conterrâneo Francisco de Assis Barbosa, que assina a introdução – intitulada “Um D. Quixote das Letras” – e as notas, além de ser o responsável pelo estabelecimento do texto. É composta ainda por um testemunho – ou “crônica de saudade”, como bem define a editora –, do crítico Otto Maria Carpeaux publicado no jornal O Estado de São Paulo em 26 de agosto de 1961, lamentando a perda do amigo.

A obra é dividida em 3 partes: “Quando havia província”; “Anos de aprendizagem” e “Na Revolução de 32”. É também ilustrada por fotos raras: seus pais e avós, a cidade de Guaratinguetá e o próprio Brito aparecem nas imagens.
A primeira parte, “Quando havia província”, já havia sido publicada em vida pelo autor, na Revista do Livro. É a parte mais extensa e concentra as memórias de infância de Brito em Guaratinguetá. Com efeito, o título do primeiro volume das reminiscências que Brito vinha publicando de forma esparsa – “livro cíclico” nas palavras de Alexandre Eulálio – seria Quando havia província.

A segunda e a terceira partes, intituladas respectivamente “Anos de aprendizagem” e “Na Revolução de 32”, são compostas por crônicas e artigos de caráter autobiográfico que já haviam saído na imprensa.

O capítulo de abertura do livro chama-se “O vício impune”, e também já tinha aparecido, com modificações, no Jornal de Letras do Rio de Janeiro, em 1959, e em A Gazeta, de São Paulo, em 1958. O título do capítulo alude à literatura, vício que irá ocupar toda a existência de Brito Broca. Não é por acaso que Francisco de Assis Barbosa tenha escolhido, à guisa de primeiro capítulo, um texto que, malgrado o rompimento da ordem cronológica e que mostra um Brito já alfabetizado, prioriza a motivação vital do crítico: a paixão pela literatura. É interessante observar que, apesar de ser notadamente um capítulo ilustrativo da ligação de Brito com a literatura, revela também seu apego a uma personagem marcante e, por isso mesmo, muito importante em sua formação: a avó. Nhá Marica, como era mais conhecida, foi talvez sua principal incentivadora no campo das letras e é citada desde a primeira página das Memórias:

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