No meu romance Barões e Escravos do café – a vida privada no Vale do Paraíba, que tem por tema o café, a escravidão e o abolicionismo, vários cafeicultores, reunidos numa confeitaria, queixam-se dos negócios que não vão bem e culpam os abolicionistas por suas dificuldades; alguém do grupo então cita outros problemas que estão causando sua ruína, entre eles a simpatia da herdeira do trono pela causa abolicionista. Ao mesmo tempo, na mesma confeitaria, em mesa diferente, as primas da noiva de Joaquim Nabuco comentam o namoro da prima, preocupadas porque a moça está namorando um abolicionista e ateu. Na conversa tem-se um resumo da biografia de Nabuco e de suas idéias, de forma natural, como até hoje primas e amigas comentam o namorado de uma delas. Em outro trecho, o viajante francês Charles Ribeyrolles, em visita ao barão de Campo Belo, conversa com o anfitrião sobre os males da escravidão e faz comparações com a vida, também penosa, de um operário europeu em plena revolução industrial. O filho do barão, recém-chegado de São Paulo onde terminara o curso universitário, entra na conversa e narra o que se diz na universidade a respeito de escravidão, inferioridade do negro e abolicionismo. Visões diferentes de um mesmo tema, em linguagem coloquial como a de todo diálogo.
Em um dos capítulos iniciais do mesmo livro, um tropeiro chega com a notícia de que o alferes simpático que andara construindo uma estrada nas redondezas fora preso porque pretendia fazer uma revolução para expulsar do Brasil os portugueses. Para eles, Tiradentes não passava do alferes simpático que havia sido seu vizinho. E com esse Tiradentes é mais fácil os leitores se conectarem.
Temos no Brasil excelentes historiadores, a produção histórica vem crescendo em quantidade e qualidade. Mas são, em sua maioria, obras de e para historiadores, nada que o público geral se anime a enfrentar.
* Sônia Sant'Anna é graduada em Letras pela Universidade Católica de Belo Horizonte, autora de vários romances históricos e tradutora. Pelo seu primeiro livro (Memórias de um Bandeirante, Global Editora) recebeu o Prêmio Adolfo Aizen da União Brasileira de Escritores.
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Romances históricos geralmente são obras de ficção a que os fatos e personagens históricos servem como pano de fundo; por isso, creio que os que escrevo poderiam mais apropriadamente ser classificados como História romanceada, isto é, narram fatos históricos documentados, empregando técnica narrativa de romance. As histórias que conto, se fictícias, seriam bons temas para romances. Então, por que não contá-las dessa forma, mais atraente para o leitor pouco interessado em estudar História?
Não sou historiadora, e meu interesse pela História começou na infância, com as histórias da História que meu pai me contava; isso me levou a ler romances históricos para adolescentes. Como esses eram geralmente obra de autores estrangeiros, entre eles Sir Walter Scott, James Fenimore Cooper, Alexandre Dumas, interessei-me muito mais pela História da Europa e dos Estados Unidos. Foi a leitura de Robin Hood, em uma adaptação de Monteiro Lobato, que me levou a ler uma Historia da Inglaterra, só para saber se aqueles heróis que me haviam conquistado haviam mesmo existido. E passei à História da França por causa dos Três Mosqueteiros. No Brasil, para público infanto-juvenil, que eu me lembre, havia apenas As Aventuras de Tibicuera, de Érico Veríssimo.
Li sobre Pocahontas, mas de Paraguaçu, a Pocahontas brasileira, só soube pelos livros escolares – sem qualquer sabor de aventura. Eu conhecia os sioux e moicanos, porque estavam nos livros de aventura, nas histórias em quadrinhos e no cinema. Mas livro algum me falava sobre os rebeldes caiapós. Creio que, com raras exceções, isso ainda impera entre as crianças de hoje, que, no Dia do Índio, se enfeitam segundo o figurino dos nativos da América do Norte.
Passada a fase juvenil, aos 16 anos, ao ler Paulo Setúbal, passei a me interessar mais pela História do Brasil. Meu interesse pelas Missões Jesuíticas e a colonização do RG, por exemplo, se iniciou um pouco mais tarde, com a leitura do Arquipélago, de Érico Veríssimo.
Segundo uma pesquisa, depois da matemática, a História é a disciplina mais rejeitada pelos escolares, pois, da forma como é geralmente apresentada, não passa de uma lista de nomes e datas a decorar e de fatos que parecem ter sido protagonizados por estátuas de bronze, e não vividos por gente de carne e osso. Com o preconceito formado, a ojeriza permanece pela vida afora. E sem conhecer um pouco de História não se podem compreender os acontecimentos presentes, pois tudo tem suas causas num passado recente ou remoto.
O fundamental é compreender os acontecimentos; quando necessário, qualquer enciclopédia ou a Internet podem fornecer em minutos o nome de um rei ou general, a data de algum acontecimento, ou onde se travou determinada batalha. Por isso, em meus romances os acontecimentos históricos são quase sempre tratados em forma de diálogos informais entre os personagens. O que permite mostrar, sem uma longa dissertação acadêmica, como pensavam as pessoas da época e por que agiam dessa ou daquela forma. Do mesmo modo pelo qual numa reunião social de hoje se falaria sobre a guerra no Iraque ou a eleição nos Estados Unidos, a crise econômica que ameaça o mundo ocidental, as razões da violência nas grandes cidades...
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