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Nº 31 | Janeiro/ fevereiro de 2010
Grafias

Uma mulher chamada Ana Maria | Maurílio Reis

O tempo passou, e, um dia, a mulher veio agradecer a Dona Ana, pois havia recebido uma proposta de trabalho em outra cidade e ia se mudar. Ainda me lembro do semblante de felicidade de Dona Ana e de ver verter lágrimas em seu rosto quando recebia cartas daquela mulher que tanto ajudara e que, promovida, reconhecia nela a mãe que não havia tido.

Um dia, descerra-se o pano, e o espetáculo acaba.
A vida deixa de ser terrena. Aqui, só a saudade fica, e quem não a conhece, não sabe o que é amar de verdade.

As despedidas foram aos borbotões cada qual a sua maneira. Todos ali presentes tinham uma história para contar desta magnânima mulher chamada Ana.

Vinda ao mundo para servir, não conhecia a palavra não, nunca a pronunciou a um pobre que precisasse. Já dizia sua filha Aparecida: “Daqui desta casa ninguém sai com as mãos abanando, não é mamãe?”

Em seu velório não couberam tantas coroas de flores , pois havia tantas pessoas que foram lhe prestar as últimas homenagens, gente simples, gente importante, gente humilde, gente pobre, da qual ela mais gostava. Dizia que os pobres são a menina dos olhos de Deus, e isto ficou gravado em nossos corações vicentinos.

Mas entre todas as despedidas, a que mais me marcou foi a daquela pobre mulher. Chegou com seus quatro filhos muito bem arrumados e saudáveis, e ela muito bem vestida, parecia ter rejuvenescido. Adentrando o salão, ficou bem pertinho de Dona Ana, debruçou sobre ela e a abraçou, lembrando de quando pela primeira vez na vida foi abraçada e acolhida por alguém... ali ela chorou, todas as suas lágrimas como nunca havia chorado... aquele choro de gratidão eterna, aquele choro lânguido entrecortado, aquele choro em que o coração se aperta e um nó na garganta nos faz perder o ar.

Depois de alguns momentos, levantou-se e disse bem alto e em bom som: “Esta mulher é uma santa, matou a minha fome e a de meus filhos muitas vezes...”
O dia estava ensolarado, uma tarde quente, mas de repente uma chuva caiu e um lindo arco-íris surgiu parecendo relembrar a aliança de Deus com os homens.

Do céu caiam grossos pingos de chuva amarelos, como se fossem moedas de ouro, as moedas de Dona Ana, que pagaram o alimento de muitos pobres e miseráveis.

Conto classificado em terceiro lugar no concurso Aconteceu em Aparecida - edição 2009.

Parecia ter mais idade, pois as agruras da vida sulcaram sua face e a fizeram parecer bem mais velha que seus pouco mais de trinta anos.

Com um de seus quatro filhos no colo, mendigava pelas ruas carregando em seus ombros o peso da humilhação e do desprezo.

Abandonada pelos pais e por todos ainda adolescente, fez das marquises dos prédios e dos viadutos um lugar para chamar de lar. Aqueles olhos grandes e amarelos pareciam pedir mais que comida, pareciam pedir afeto que nunca conhecera. Enganada pelos homens, cafajestes de plantão, engravidava a cada promessa feita. Sem ninguém para a defender, nem chorar suas mágoas ou ainda ouvir suas lamúrias, foi assim, construindo seu mundo de tristezas e dissabores; só vivia pelas crianças que ainda lhe davam algum sentido na vida, desesperava-se quando ouvia falar do Conselho Tutelar, que poderia levar seus filhos.

Mas um dia, caminhando pelas ruas, bateu à porta de uma casa bonita com um pequeno jardim na sacada, florzinhas pequeninas que pareciam lhe sorrir.

 Era uma grande porta de madeira e nela esculpida um toureiro em posição de vitória, mas nas mãos desse toureiro não havia espada, e sim uma grande palma em flor: é a casa do Seu Célio e da Dona Ana.

Seu Célio, um homem esguio e longilíneo, atendeu a porta e de lá mesmo exclamou: “Minha nega, é para você... e, como uma grande luz, apareceu Dona Ana, com um sorriso largo, de muitos amigos, olhos pequenos e profundos, uma tez alva e delicada, um rubor de alegria na face. Passos vagarosos, porém firmes e resolutos. Com suas mãos de fada acolheu aquela mulher com um abraço carinhoso como o de uma mãe que há tempos não vê a filha, abraço de acolhimento e de refúgio.

Não era possível receber de pronto tanto afeto, não era possível se sentir tão segura em tão efêmero tempo. Um abraço tênue, mas com tamanha intensidade que aquela mulher quis repousar naquele regaço e dali nunca mais sair.
Diante de tanta mansidão e candura, não conseguiu falar, apenas chorava, chorava e balbuciava palavras de agradecimento... já pressentia que havia encontrado seu porto seguro.

Aquela mulher de aparência frágil era a fortaleza, o esteio daquela casa grande e cheia de vida.

Sem mais delongas, Dona Ana acolheu a pobre mulher e alimentou seus filhos que pareciam estar fazendo a sua última refeição, tão famintos que se encontravam.

Aconselhando e falando de Deus, foi mostrando para aquela mulher que a vida é bela e que vale a pena viver.
Sempre com a ajuda de Dona Ana, a pobre mulher foi melhorando de situação, soerguendo aos poucos em dignidade, adquirindo confiança, conquistando conforto.
Com a influência de Dona Ana, através da Sociedade de São Vicente de Paulo, que existe em Aparecida há mais de cem anos, conseguiu para ela um bom emprego e um lugar para alojar seus filhos.

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