Ouve um ruído no interior da tapera, com um pedaço de coberta ao ombro, o seu sobrinho mais velho vai se achegando:
“O Nor, vorta a dormi. É cedo ainda rapaiz”.
“Perdi o sono. Sabe Tio? Hoje sonhei com a minha mãe.”
“E ela? Tava dando risada ou chorando?
“O! Tio, quar a diferença se chorando ou rindo? Do memo jeito ela não tá mais aqui.”
“Fio, mãe quando morre vai pro céu, ocê não sabia disso? E lá de longe, sentada nas nuvi ou nas estrela ela fica oiando os fios. Mãe não tem forga não. A sua mãe antes de parti ela pediu prá mim oiá ocêis. Mãe quando aparece chorando em sonho pros fios é sinar que os seus fios tá sendo martratado ou mar encaminhado na vida.”
“Tio, não fique preocupado não, a mãe tava rindo é de sobra. Tio, posso sentá no rabo do fogão prá mim esquentá?
E o seu tio, com o coração aos pulos, todo feliz ao saber do sonho…
“Craro! Senta aqui enquanto preparo o café.”
Jorge Souza é autor do livro Crônicas do Itapema
Chico Lamão acordou de madrugada, acendeu a lamparina, descalço caminhou lentamente pelo chão de terra batida, foi até ao outro quarto, vizinho ao seu, levantou a lamparina a altura dos olhos para enxergar melhor e na penumbra viu os seus dois sobrinhos dormindo numa cama improvisada por sobre um giral. O menor, de olhos azuis, magrinho, estava descoberto. Apoiou a lamparina no caixote na cabeceira da cama e o cobriu. Ao cobri-lo viu a claridade da lua entrando por um buraco da parede de barro. O tucho de pano que vedava o buraco caíra. Com muito cuidado, evitando fazer qualquer ruído, o tapou novamente com o pedaço de trapo.
Agora, mais confortado voltou para a cozinha, deixando a lamparina por sobre uma mesinha com louças velhas, encardidas de carvão. Abriu a porta da cozinha e caminhou até o poço. Um ventinho sorrateiro entrou pela porta quase apagando a chama da lamparina. Foi até o poço apanhar água para fazer o café, a lua ainda estava forte, o clarão iluminava a trilha que vinha da casa até o poço. Ao passar pelo pé de mexerica fedidinha, desabotoou a calça e deu uma gostosa mijada, a urina quente ao atingir o solo deixou subir uma fumaça que rapidamente dispersou no meio da madrugada. Lá na distante barroca do Dito Cunha ecoou um canto de curiango.
Voltou com água trazida numa moringa. Havia cinzas no fogão à lenha e junto às cinzas havia brasa, foi fácil reavivar o fogo, apanhou num canto da cozinha alguns gravetos de taquara, bem sequinha e colocou os pauzinhos de tal maneira para que não abafasse a brasa, deu alguns assopros com a boca, depois abanou com uma velha tampa de panela, toda amassada. Rápido o fogo acendera. Colocou a água numa caneca de alumínio um pouco encardida de carvão e levou ao fogo para esquentar. Enquanto esperava a água ferver foi montando o cuador de pano de coloração amarelo escuro com um cabo de ferro todo enegrecido que estava fincado na parede de barro.
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