Era fácil, sabia o que dizer. Pedi. Demorou para falar. Sentiu o sangue esquentar seu rosto. As panelinhas esparramadas no chão. Pediu? A menina, cabeça baixa: Não. Envergonhada, ouviu a mãe sorrir. Viu a mãe fechar as revistas e chamá-la. Pegou sua mão. Medo. Entraram na barbearia. Seu Mané se despedia do homem barbeado, cheirando à mesma colônia do pai. A mãe cumprimenta o barbeiro, conta, se desculpa, ri... Coisa de criança. Como é fácil para ela falar! Seu Mané sorri, entende, a tranquiliza. Faz um leve agrado na cabeça da menina, oferece as revistas, outras, quantas quiser. São bons vizinhos, não há problema. A mãe agradece, diz que levará as duas e que devolverá no dia seguinte. Saem da barbearia. No corredor da casa, entre os dois canteiros, a mãe estaca e se abaixa. Olhos nos olhos da menina. Atrás delas, as marias-sem-vergonha sorriem vermelhas e cores-de-rosa. Por que pegou as revistas? O tom suave da voz encoraja a menina. Porque tive vergonha de pedir. A mãe: e não teve vergonha de levar sem pedir? O sangue de novo queimando o rosto. Não sabia responder. As palavras, sempre as palavras... Não faça mais isso. Do jeito que souber, peça. Outra coisa não compensa. A vergonha será muito maior depois. Entendeu. Alguma coisa se mexeu dentro dela. Mudou de lugar. Clanc. Encaixou-se. A mãe levantou-se e entrou na casa. A revista aberta sobre as pernas, comenta as figuras que vê. Pelé não quer mais jogar futebol, inauguração de uma ponte pelo presidente general, novo terremoto na China. No chão, a menina ouve enquanto oferece comida à boneca. Mãe alimentando filha.
Eliana Maciel é graduada em Letras e professora de Língua Portuguesa.
Tarde quente. Na sala, a menina, ajoelhada no chão, brinca sobre a mesa de centro. As pequenas panelas de plástico coloridas sobre o fogãozinho de lata. Ao seu lado, a mãe e a irmã. A primeira costura à mão, a segunda lê. De tempos em tempos, a mãe se abana e reclama. Que calor! O sofá azul plastificado não ajuda. Os joelhos da menina doem, as pernas começam a adormecer. Senta-se, estica as pernas, sente as pequenas ferroadas, é melhor não mexer. A mãe termina a costura e corta a linha com os dentes. Pergunta: vamos olhar uma revista? Pede à menina para emprestar revista do seu Mané Barbeiro. A menina o conhece. É vizinho deles, aluga o quarto da frente da antiga casa da avó. Já esteve lá com seu pai algumas vezes. Seu Mané tem bigodes, é careca e usa boina quando está na rua. Gostava de vê-lo fazer a barba do pai... a toalha branca desdobrada com um alvoroço de sacudidas e colocada sob o pescoço. A pequena bacia, o pincel e a espuma, que dá ao pai outra aparência. Seria assim o Papai Noel? A conversa dos dois crescendo, amiga. A navalha sendo afiada, com ritmo e gosto. A navalha adentrando a espuma, fazendo caminhos. O cheiro da colônia. Por fim, o pai barbeado, bonito, cheiroso. A mãe pede a revista, ela obedece. Não sabe o que dirá. Anima-se: será que a barbearia está fechada? Sai de casa, dá uns passos, o portão. À direita, a porta da sala da espera. Aberta. No cabideiro, a boina e um chapéu. Vozes na sala ao lado, porta fechada. Seu Mané barbeia alguém. As cadeiras de napa bordô vazias. O olhar da menina para a mesa de centro: as revistas O Cruzeiro e Manchete, novas, pretendidas pela mãe. Senta-se, espera, o que dirá quando ele abrir a porta? Minha mãe pediu... O senhor poderia... Queria emprestar... Não acha jeito, torce as mãos suadas. Torce para que a barba demore para ser feita. Torce para encontrar as palavras. Do outro lado da porta, a conversa tranquila dos homens. As revistas sobre a mesa cheirando a papel novo. A menina as segura. Olha as capas coloridas, as fotos, as letras. Aperta-as no peito. Num impulso, levanta-se... tão fácil... chega em casa... tão fácil... estende os braços, entrega as revistas à mãe... tão fácil! Senta-se no chão de tacos e recomeça a brincar. As panelinhas na mão e a cabeça desassossegada. A mãe e a irmã viram as páginas, contemplativas. A mãe: pediu para o Seu Mané?
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