Paranaense nascido num distrito de Londrina chamado Bela Vista do Paraíso em 16 de janeiro de 1956, Odair Gonçalves considera-se aparecidense nato, pois sua família transferiu-se para Aparecida antes que ele completasse dois anos de idade. O filho do senhor Claresmindo Gonçalves e de dona Bernardina Maciel fixou raízes na cidade e dela não mais saiu. Estudou, fez amigos, trabalhou como feirante no comércio ambulante como feirante no comércio ambulante, freqüentou o “bar do nenê”, rebelou-se contra as injustiças da ordem capitalista, constituiu família e, hoje, vive do fundamento de sua arte, em Aparecida.
A opção pela arte é tardia na vida deste declarado admirador de Che Guevara que considera-se em fase de criação e aprimoramento de uma técnica que não sabe bem como definir.
É impressionante como seus personagens, feitos de material rústico de pouca possibilidade plástica, são expressivos. Odair Gonçalves consegue imprimir movimento e emoção em suas peças. Em algumas delas o movimento real é obtido pelo uso de diferentes tipos de peças contendo rolamentos.
Uma “bailarina” que dança em movimentos circulares e um “rockeiro” que movimenta os olhos em quaisquer direções compõem cenário com um “cangaceiro” que pode sacar uma “peixeira” a um “Quixote” que pode dispor de sua lança e seu escudo.
Os personagens criados por Odair são sempre emblemáticos. Ao explorar figuras históricas ou literárias, o artista, consciente ou inconscientemente, geralmente, apresenta imagens fortes. A beleza de um corcel resistindo a um cowboy demonstra o vigor da força física; um cangaceiro ou um Huno mostram a força da cultura que identifica; e um Dom Quixote ou um Visconde de Sabugosa materializam a força poética dos sonhos e fantasias.
Assim segue a faina deste “poeta do fogo” que, no seu dia a dia de serralheiro e artista, intercala o útil e o belo mudando o conceito do que é lixo, pois, em seu caso, sobra é matéria-prima de beleza.
* Alexandre Marcos Lourenço Barbosa é organizador e autor de vários livros e ganhador do Prêmio Eugênia Sereno, do Instituto de Estudos Valeparaibanos nos anos de 2007 e 2008.
...E Prometeu, o previdente, contrariando a vontade de Zeus, deu à criatura por ele feita do barro, o elemento indispensável à vida sobre a Terra: o fogo. Pagou sua ousadia com o eterno sofrimento no Cáucaso. Os grilhões de seu destino, forjados pelo coxo Hefestos, nasceram do fogo. O grande artífice do Olimpo brincava com fogo. Com ele engenhou palácios, cetro e raios para o “Deus dos deuses”, e, a pedido do próprio Zeus, uma mulher, Pandora, a partir de uma pedra.
Fênix, outra imagem significativa ligada ao fogo, é uma encantadora ave que se consome em chamas para renascer das próprias cinzas. O fogo que aniquila é gerador.
No pensamento do nobre Heráclito de Éfeso, o fogo é expressão da contínua mutabilidade dos seres, principio primeiro da realidade.
Não sem razão, Gaston Bachelard afirma ser a chama “um dos maiores operadores de imagens”. Diante dela, o que se percebe é nada comparado ao que se imagina. A imagem da chama contém um símbolo de poesia, diz ele.
E é diante da chama que Odair Gonçalves exercita sua imaginação poética. Suas metáforas nascem, conforme suas palavras, “de pura transpiração. É preciso, literalmente, queimar a cara para fazer uma arte como a minha”.
Popularmente conhecido como “Japa”, o artista Odair Gonçalves coloca-se como “um serralheiro que, de repente, se revelou um artista”, uma definição usualmente feita em apresentações de seu trabalho pelo seu ex-professor de Artes e primeiro incentivador, Guido Machado Braga.
Apesar de reconhecer a influência do escultor espanhol Roberto Gabriel Crivellé, (artista radicado em São Paulo desde 1960), considera-se um autodidata que começou a aprender a lidar com solda elétrica, a partir de um manual, em 1990.
Seu primeiro ensaio artístico, de 1999, foi um Visconde de Sabugosa a partir de um grande parafuso. O trabalho mereceu elogios. Em seguida, um cowboy. Não tardaram a vir outras esculturas, mais trabalhadas e criativas. Escapamentos, pedaços de tela, arames retorcidos, catracas de bicicletas, engrenagens e peças de automóveis, pedaços de correntes, mais parafusos, soldas e... muita inspiração, tornaram-se, pelas mãos calosas deste artífice, “São Francisco de Assis”, “anjo”, “cangaceiro”, “bailarina”, “cavalo”, “Dom Quixote”, “palhaço”, “rei”, “Maria Bonita”, “Nossa Senhora Aparecida”, “pescadores” e vários outros personagens que preenchem um cenário de realismo fantástico permitido pela sua arte.
Com a produção vieram as mostras, os salões de artes plásticas e alguns prêmios. O primeiro deles foi uma menção honrosa no Primeiro Salão de Artes Plásticas de Lorena, em 2001, com as esculturas “Cavaleiro da Esperança I e II”.
Outros trabalhos conheceram igual destino, mas um, em especial, ganhou grande admiração popular: Dom Quixote, o engenhoso fidalgo da Mancha. Muitos se encantaram com as variações do cavaleiro errante e mais de trinta peças endereçaram-se a acervos particulares.
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