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Nº 31 | Janeiro/ fevereiro de 2010
Arquitetura

Lorena e as Palmeiras Imperiais | Roseli Maria Martins D’Elboux*

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Pelo Edital da Junta do Comércio datado de 27 de julho de 1809, estariam dispensados de impostos e inclusive do serviço militar aqueles que conseguissem trazer para o Rio de Janeiro sementes ou mudas de espécies vegetais com potencial econômico. Foi assim que a palmeira-imperial chegou às mãos de D. João, por intermédio do chefe de divisão da marinha portuguesa, Luiz d’Abreu Vieira e Silva.

A fragata Princesa do Brasil havia naufragado no Oceano Índico. Capturados pelos franceses, Vieira e Silva e sua tripulação foram levados para a Ilha de França, atual Ilha Maurício. Lá, após negocial sua volta  para o Brasil, puderam fretar o veleiro La Ville d’Autun e nele embarcar, sem que os franceses soubessem, vinte caixotes com sementes de plantas exóticas retiradas do Jardin de Pamplemousse. No Rio de Janeiro, desembarcaram sementes de noz moscada, cânfora, manga, lichia, abacate, cravo-da-índia e algumas plantas ornamentais, entre elas a palmeira-imperial.

* Roseli Maria Martins D’Elboux é Arquiteta e Urbanista (1985) e Mestre em Arquitetura e Urbanismo (2005) pela Universidade de São Paulo. Desde 2008 é doutoranda na mesma instituição. Atualmente é Professora Assistente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, professora licenciada do FIAM-FAAM Centro Universitário e é sócia-gerente da D+D Arquitetura e Comunicação Ltda. Publicou Manifestações neoclássicas no Vale do Paraíba: Lorena e as palmeiras-imperiais (Annablume, 2008) e vários artigos em periódicos e em anais de eventos. Participou do desenvolvimento de 51 projetos técnicos. Recebeu três prêmios. Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase nos seguintes temas: arquitetura paisagística, arquitetura, urbanismo, paisagem urbana e história do urbanismo e do paisagismo.

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Lorena foi importante ponto de inflexão de rotas e caminhos entre São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro nos períodos colonial e imperial, característica presente ainda hoje e em função da qual talvez a cidade tenha se constituído em importante elo entre o Rio de Janeiro e São Paulo quanto à introdução e difusão do uso das palmeiras-imperiais na capital paulista.

Quando falamos em palmeiras-imperiais, referimo-nos a uma espécie em particular: a Roystonea oleracea (N. J. Jacquin) O. F. Cook, muito utilizada no século XIX e mesmo no século XX como símbolo da presença do poder constituído nos logradouros públicos das cidades brasileiras.
Freqüentemente confundida com a palmeira-real (Oreodoxa regia Kunth), cujo tronco possui a base alargada, bojuda, a palmeira-imperial distingue-se da anterior pelo seu tronco uniforme, com quase o mesmo diâmetro em toda a sua extensão, por volta de 62 cm, desde a base até o volumoso palmito, acima do qual surgem surgem suas folhas. Ao contrário do que muitos acreditam, a espécie é exótica, nativa do Caribe e do norte da Venezuela, tendo realizado curioso percurso para chegar ao Rio de Janeiro, no início do século XIX, mais precisamente em 1809, quando o então Príncipe Regente D. João foi presenteado com algumas sementes da palmeira.

Durante o século XVIII tornou-se prática comum entre as nações europeias que possuíam colônias no ultramar o traslado de espécies para “jardins de aclimatação”, com o objetivo de se conhecer melhor as várias espécies tropicais nativas das colônias, visando a eventual exploração comercial das mesmas. Isso ocorreu, por exemplo, com o chá, a cochonilha e a lichia, oriundos da China, a manga e a noz-moscada, vindas da Índia e o abacate, oriundo da América Central. A França mantinha dois jardins de aclimatação, o Gabrielle, na Guiana e o Pamplemousse na Ilha de França. Foi para lá que, junto com o abacate e outras espécies nativas das Américas e Caribe, sementes de palmeira-imperial foram enviadas e plantadas, para posterior estudo e envio para a Europa. Nessa mesma rede de intercâmbio vegetal, sementes de café foram levadas desde o Oriente Médio para a América.

Portugal também ansiava por novos produtos para exploração comercial, de modo que foram instituídos vários jardins e hortos botânicos na colônia brasileira: Rio de Janeiro (1772), São Paulo (1779), Belém do Pará (1796) e, após 1802, os hortos de Salvador e de Ouro Preto. Ao final do século XVIII, várias iniciativas oficiais foram tomadas a fim de que se transferisse e aclimatasse o maior número possível de espécies.

Já em 1808, logo após a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, foi estabelecido um jardim de aclimatação ao lado da Lagoa Rodrigo de Freitas, através de decreto emitido em 13 de junho daquele ano. Esse foi o início do atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

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