"logo no dia da sua chegada, a radical mudança de atitude porque passou o emérito escritor; fato este intimamente ligado à história de seu grande livro. Na mesma atitude de toda a viagem, agora, na sala do hotel – conta ainda Carvalho Rosas – Euclides permanece um tanto arredio, falando pouco e dando a impressão de uma criatura azeda, enfastiado de tudo quanto o cerca. É que em um dos bolsos do seu casaco traz ele uma carta de Laemmert & Cia., ainda fechada, dentro da qual estaria, segundo ele pensava, o sucesso ou aniquilamento de toda aquela celebração de anos, "Os Sertões". Retira-se para o quarto e vê na mesma a grata afirmativa de que sua monumental obra seria impressa e publicada. Volta à sala transformado, todo comunicativo, amável prosador, espírito otimista e radiante. O Hotel Teixeira, em Cunha, não só teve a honra de hospedar o insigne Euclides da Cunha, como ainda singular privilégio de com uma de suas modestas alcovas formar fundo de cena nesse quadro inesquecível, em que pálido, nervoso e angustiado, o grande escritor, vencendo por fim sua hesitação, ainda trêmulo, rasga o envelope da editora para dentro dele encontrar no nascedouro de um dourado amanhecer, não o sucesso, a sensação de um escrito feliz..." (Teixeira, 2002, p. 88 – 89 )
Francisco Sodero Toledo é historiador, escritor, Mestre em Educação e diretor do portal www.valedoparaiba.com. Autor e co-autor de mais de uma dezena de livros, dentre eles Em Busca das Razíes (1988) e Estrada Real: Caminho Novo da Piedade (2009).
Quando Euclydes da Cunha deixou São José do Rio Pardo, no mês de maio de 1901, tinha terminado duas grandes obras: a famosa ponte sobre o rio do mesmo nome e o livro sobre Canudos. A ponte inaugurada no dia 18 do mesmo mês, com grande festa, além da sua grande utilidade, tornou-se um dos cartões postais da cidade. O livro seguiria com o escritor a procura de uma editora.
A obra era baseada nas correspondências de “Monte Santo” e de “Canudos”, publicadas no jornal “O Estado de São Paulo”, entre os dias 18 de agosto e 26 de outubro de 1897. Um trabalho de um escritor determinado, uma idéia fixa, quase mesmo uma obsessão.
Ao chegar em Lorena no final do ano de 1901 trazia consigo o cargo e os encargos do chefe do II Distrito, os originais do livro concluído e a preocupação com a sua revisão e impressão. Durante o ano de 1902 viveu preocupado e atormentado com este propósito. Não deixou de transparecer para os que o conheciam em Lorena ou na região as suas preocupações com a edição da obra. É conhecida a observação de um seu contemporâneo que afirmou:
“Certa tarde fui à casa de Euclides da Cunha; entrei, sentei-me na sala de visitas, contígua ao escritório. Ele, que se achava neste, escrevendo, me diz: – Espere um pouco. Já vou aí. Transcorridos uns dez minutos, interrompe o silêncio e diz: – Escute o que achei... E lê como sempre, um fragmento recém-aperfeiçoado de “Os Sertões”. Finda a leitura, exclama à visita de meu parecer entusiasta: “Ainda vou ganhar uma estátua com este livro”! Por essa época, Euclides da Cunha parecia estar debaixo da obsessão de “Os Sertões”, na fase de lapidação, pois em chegando a casa, ainda que viesse de longa viagem, não ia estar com a família. Dirigia-se primeiramente aos manuscritos e provas tipográficas da obra genial. A alguém que com brandura lho admoestou, respondeu: “Agora, em primeiro lugar, o meu livro”. ( In Fabiano, 2002, p. 293)
Em outra ocasião estando em Cunha para o trabalho de vistoria de obras no município deixou transparecer a sua íntima preocupação com o andamento das tratativas com vistas à publicação da obra. Quem nos conta as recordações sobre o engenheiro-escritor é Paulo Teixeira, em excelente artigo sobre a estadia de Euclydes na cidade. Escreve ele:
Obra de Euclides: Os Sertões - Edição histórica de Os Sertões, em versão ilustrada e alusiva aos cem anos de morte de Euclides da Cunha. Lançada em 2009, pela Ediouro.
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