Sem dúvida, a revolução tecnológica permite vislumbrar um quadro de maior tempo para o ócio, mas é preciso cuidado para não cambiarmos os grilhões. Sairmos das amarras do trabalho para cairmos nas amarras do lazer.
Isto pode ser evitado se o ócio for criativo. E tal capacidade criativa resulta de processos formativos permitidos por uma educação refinada que concilie cultura geral com capacidade de trato e elaboração do conhecimento.
Somente assim uma simbiose histórica é possível. Uma troca entre passado e futuro na qual participamos como herdeiros e responsáveis doadores. Não basta (e aqui há um tom moral) que sejamos meros usufrutuários das benesses permitidas pela sofisticação técnica, pois somente a construção e a revisão do pensamento, da ação e das coisas compensa o desgaste do usufruto.
E recorrendo uma vez mais a Russel: se a moralidade do trabalho é a moralidade dos escravos e o mundo moderno não precisa de escravidão humana, se o uso acertado do lazer depende de Civilização e Educação, se somente um ascetismo insensato justifica o excesso de trabalho, se “a boa índole é a única entre todas as qualidades morais a de que mais precisa o mundo, e a boa índole é o resultado do sossego e da segurança, e não de uma vida de luta insana”, então é preciso recuperarmos a sensatez para vencer o grande desafio da vida que é o de atravessar um deserto sem secar.
Talvez seja este parte do segredo de um diferenciado modo de ser contemporâneo.
Game over?
Nos dias de hoje, com freqüência cada vez maior, a sociedade do entretenimento em que tenta se constituir a atual ordem econômica triunfante banaliza a vida circunscrevendo-a nos limites de um game. Nela, tudo vira jogo. Em nome da leveza, nada de temas densos. Tudo se faz inconsistência. Em nome do lazer, nada de discursos áridos. Tudo pela diversão pura. Em nome do prazer, a virtualidade incorpórea dos jogos simulando coisas, pessoas e papéis.
E neste universo de simulações – contemporâneos contos de fadas – estabelece-se uma nova forma de controle psicossocial congruente aos valores individualistas sobre os quais se assenta nossa primitiva moralidade. Em um mundo fugaz no qual a nossa própria vida é de nós fugidia, a virtualidade transforma-se em um recurso para manter o controle. Os comandos eletrônicos, ainda predominantemente digitais, passam a sensação e a ilusão de domínio em uma seara de senhores distantes. Donos de uma autonomia sinestésica, nossos cliques e gestos mostram bem os liames de uma consciência seqüestrada, tornando-nos alienígenas em nosso próprio território psíquico.
As ações acabam por ser tão induzidas quanto as vontades e a sutileza dos ditames (não de repente, consumimos boa parte de nosso tempo conectados) faz passar como despercebida a grave restrição de liberdade a que somos submetidos. Não se trata apenas de sermos homens e mulheres de nosso tempo – o que justificaria ser o que somos –, mas da negação de uma compreensão inteligente dos processos que nos conduzem.
O respeitado matemático, lógico e filósofo inglês Bertrand Russel, Prêmio Nobel de Literatura em 1950, no seu livro O Elogio do lazer (edição brasileira de 1957), já alertava sobre a importância da redução da jornada de trabalho e utilização do tempo livre de forma civilizatória, ou seja, de modo a aperfeiçoar a condição geral da humanidade. O excesso de trabalho e o culto da eficiência, prossegue o matemático-filósofo, representam uma condenação à nossa civilização. Tal argumento não deixa de ser um arrazoado atual, visto que informação e conhecimento não são bens per se e sim relativos aos efeitos que produzem.
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