O Vale do Paraíba foi uma das primeiras regiões no interior do Brasil a ser desbravada e explorada pelos portugueses, em busca de índios e metais preciosos. João Ramalho, Brás Cubas, João Pereira de Souza Botafogo, André de Leão, Martim Corrêa de Sá, Fernão Dias Paes, Lourenço Castanho Velho e outros sertanistas, percorreram os sertões do Rio Paraíba, embrenhando-se pelos vales e grotas, abrindo caminhos, plantando roças e assinalando a presença portuguesa nos confins de Minas. Oficialmente, o Vale do Paraíba começou a ser povoado a partir de 1628, ano em que o capitão-mor João de Moura Fogaça, em nome da Condessa de Vimieiro, donatária da Capitania de Itanhaém, concedeu a Jacques Félix e seus filhos “datas de terras” no sertão do Rio Paraíba, entre Pindamonhangaba e Tremembé. Em 1636, Francisco da Rocha, capitão-mor de Itanhaém, por provisão de 20 de janeiro, concedeu licença a Jacques Félix para que “penetrasse os sertões de Taubaté...”.
José Luiz Pasin foi historiador, professor, ambientalista, autor de vários livros e artigos sobre o Vale do Paraíba e um dos idealizadores e fundadores do Instituto de Estudos Valeparaibanos.
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Fortificaram-se os portugueses no planalto de Piratininga, fundando a Vila de Santo André da Borda do Campo, cuja guarda e administração foi entregue a João Ramalho. Em 1554, os jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, fundaram no planalto, o Colégio de São Paulo dos Campos de Piratininga. Os índios dos Vale do Paraíba, confederados com os tamoios de Ubatuba e Cabo Frio, inimigos dos portugueses, atacavam constantemente o pequeno núcleo de povoamento no planalto paulista, levando os seus moradores a uma “guerra” com as tribos valeparaibanas e dando início ao chamado bandeirismo de apresamento, iniciado por João Ramalho. Os paulistas, isolados no planalto, sem meios de comunicação com o porto de São Vicente, passaram a buscar no “sertão” a sua sobrevivência econômica. Os engenhos de açúcar do litoral necessitavam de braços para as lavouras de cana-de-açúcar e os paulistas embrenhavam-se pelos sertões do Rio Paraíba, atacando e aprisionando os índios. O Vale do Paraíba começou a ser uma das regiões mais devassadas pelas entradas e bandeiras de apresamento. Ainda hoje não temos elementos para situar corretamente a distribuição das tribos indígenas pela região valeparaibana, no quinhentismo e seiscentismo. Os documentos consultados (cartas jesuítas e atas de câmara) só se referem aos tamoios, tamujos, tamujas do Paraíba ou aos cõtrairos do Paraíba. Sabemos que os índios do Vale do Paraíba mantinham contatos e intercâmbio com os tamoios do litoral de Paraty e Ubatuba. A presença indígena na região valeparaibana é assinalada pela denominação das cidades (Jacareí, Caçapava, Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá), dos rios e ribeirões (Paraíba, Paraitinga, Paraibuna, Una, Piagui, Tiratingui, Buquira), das serras (Mantiqueira, Bocaina), dos bairros rurais (Itaguaçu, Itagaçaba, Pindaitiba, Tetequera), localidades (Coruputuba, Quiririm, Embaú), dos peixes (guaru, traíra, lambari, mandi, piaba, curimbatá, sagüiru, cará, piabinha), das cobras (urutu, jararacuçu, jararaca), dos animais (tatu, sagüi, jaguatirica, tamanduá, anta, capivara), das árvores (jacarandá, peroba, sibipiruna, sapucaia), das frutas (araçá, goiaba, araticum, jerivá, brejaúva, jataí, jabuticaba), dos pássaros (vira, curió, juriti, maitaca, corruíra), das aves (paturi, seriema, nambu, saracura). O índio ainda sobrevive na alimentação (cará, inhame, batata doce, milho), nas ervas medicinais, nos temperos, nos utensílios domésticos (rede, esteira, peneira, balaio, samburá), nos mitos e crendices (saci, iara, boitatá, curupira, caipora), na casa de pau-a-pique e sapé, nas armadilhas (covo, mundéu, arapuca), na maneira de ser, agir e pensar do homem rural valeparaibano, o caipira descendente dos primeiros povoadores portugueses e de mulheres indígenas.
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