Marcada por indagações existenciais, colocadas de forma elíptica, nos entrelugares e zonas limítrofes percorridas pelos seus personagens, a ficção de Mayrant Gallo tem nas entrelinhas a sua grande vocação. E é nos curtíssimos textos deste Nem mesmo os passarinhos tristes que elas se tornam mais eloqüentes.
Os mais de 100 minicontos deste livro consistem num apelo à imaginação dos leitores, convidados a ser co-autores das histórias aqui apenas entrevistas. Um apelo que se vale, em muitos casos, do registro poético para que seus dramas e cenas, ao fim da leitura, continuem ecoando em nossa sensibilidade.
Trecho
O OUTRO
Por distração ou descuido, parado na esquina, o homem perdeu um dos lados do rosto na carroceria de um caminhão. Mas não há infelicidade que não se desmanche, em parte ou em todo: a esposa, em casa, pensou que ele fosse outro e o levou direto pra cama.
Esta obra de Márcio Almeida, emérito escriba do nosso mundo paradoxal, dói como um canto lírico a soar num teatro vazio. Seus ecos não atingem o homem, mas esbofeteia o vazio deixado por ele. Usa todas as ferramentas forjadas na semiótica para trazer a humanidade de volta à sua real natureza.
Poucas palavras, mínimas e dilacerantes frases, quase versos, para um mundo que não mais tolera ser tocado. Minicontos no tempo do micro-chip, do micro-cérebro, do micro-homem. Este é um livro de resgate, mínimo e ofegante, como o nosso tempo.
Por João Bosco Ribeiro
Trecho
Lixeira do desperdício
“Morta com dois tiros num supermercado”, dizia a manchete do jornal. A violência da verdade é saber que a criança só queria matar a fome.
“Esse Gorj que promete ser breve sabe o que está fazendo. Corta onde tem que cortar, distribui os mínimos com cuidado, brinca com a piada e com a literatura. Autor de imaginação fértil, mostra que escrever pouco é até mais trabalhoso do que se arrastar pelas páginas.”
Por Marcelo Spalding
Trecho
Conciso: Fantasiou-se de político corrupto. Foram quatro noites e três dias de impunidades.
Irônico: O amor vem de nós. Por incrível que pareça, há quem nos compre.
Lírico: A voz não basta. É preciso saber o que dizem os olhos.
Neste livro de estreia, entre outros versos denunciantes, encontraremos poemas que nos lembram os concretistas, feitos de versos que se desenham em forma e conteúdo. Somam-se a esses, as belas construções poéticas e alguns deliciosos jogos de palavras Versos ricos em sutilezas semânticas, que colaboram para uma leitura ao mesmo tempo instigante, envolvente e inquietante.
Por Wilson Gorj
Trecho
Inconsciente negro
A dor de ser crioulo sarará?
Dessubstancialização
A oca, outrora oca
hoje é oca.
Nas páginas de seu primeiro livro Acontecência, Jurandir Rodrigues nos apresenta flagrantes líricos de acontecimentos e vivência. A voz peculiar do poeta nos conduz para compartilhar sua realidade consciente, transformada por meio de uma linguagem acessível, porém imaginativa.
Jurandir Rodrigues começa bem sua caminhada poética. Subjetividade, personalidade, sensibilidade, como também harmonia entre a força das palavras e das idéias, fazem de Acontecência um acontecimento.
Trecho
Sem sentido
Não se pode mais chorar
Não há espaço mais para o desabafo
Vivemos num tempo de homens sem sentido
Não se pode mais calar
Não há espaço mais para a calmaria
Vivemos num tempo de homens sem sentido
Não se pode mais ficar
Não há espaço mais para o cansaço
Vivemos num tempo de homens sem sentido
Em À medida dos Tempos, livro de estréia de Clebber Bianchi, percebe-se que no decorrer da obra o poeta amadurece seu canto, amplia suas impressões e expressões, suas visões e percepções de um tempo impossível de se aprisionar, mesmo depois de capturado pelo retrato fotográfico, restando ao olhar lírico apenas a nostalgia de um tempo tardio, mesmo que recente.
Clebber nos dá mostra do labor poético que preza a fenomenologia do olhar, olhar este que se volta para as coisas sem importância, coisas à toa e, por isso mesmo, são de grande valia e merecem ser recordadas.
Por Fabiano Fernandes Garcez
Trecho
À Medida dos tempos
Vivo sempre sem saber
quanto tempo durará a simplicidade do vento.
As horas descarregam sobre os ombros dos homens
todo seu peso sem media a encurvá-los.
Somos como raízes no solo, que,
mesmo arrancadas,
as marcas, nem a medida das horas apagam.
Os fatos são narrativas
e conduzem tudo e sempre
a um começo,
a um meio,
a um fim…
De imediato,
restam-nos as reminiscências,
sem peso,
sem medida,
sem tempo.
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