Na velha moenda, enferrujada, que fica lá na casa de minha mãe, fixada num grosso mourão, num pequeno gramado, entre a casinha do poço e o pequeno paiol de ferramentas está a verdadeira saudade.
Depois de adulto, tudo o que fazemos vira recordação. A alma quando adulta tem dificuldade em sentir o cheiro das coisas. Saudade não existe por causa do tempo, pois mesmo antes do tempo chegar ela já está dentro da gente, encravada em nossa alma.
E assim, neste quarto de hotel, fico a moer saudade. Ouvindo com o coração o barulhinho gostoso de coisas de antigamente...
Jorge Souza é Químico em São José dos Campos, autor do livro Crônicas do Itapema.
Melhor do que moer cana é moer saudade. No quintal o pequeno canavial de cana-caiana, o facão de cabo preto, a lâmina enferrujada e o sol quente convidando a tomar um caldo de cana gelado adocicado com limão-cravo. Aquele limão, que de tão maduro, faz a gente pensar naquela coloração alaranjado - vivo de sol quase no finalzinho da tarde já com a sua metade comida pela distante montanha.
Hoje, deu em mim, vontade de moer saudade. O barulhinho gostoso da cana a ser esmagada pelos cilindros. Ah! Os respingos da cana a molhar o rosto. Que delicia: a gota viscosa caindo no rosto da gente e em seguida escorrendo, parando nos lábios sedentos pelo esforço de virar a manivela da moenda. O rugir das engrenagens e a espuma branca formando na superfície, no interior do caldeirão que, apoiado num caixote de madeira ou numa velha cadeira vai recebendo o suco a cair por uma bica improvisada, feita de uma folha de zinco ou a partir de um pedaço de lata cortada de algum produto enlatado.
As vezes abelhas mais ousadas pousam na borda do caldeirão ou na lateral fixa do cilindro e se lambuzam do precioso néctar. O gostoso é observar o voar destas abelhas. Elas voam preguiçosa, parece até que estão bêbadas ou sonolentas. Acho que sonolentas, pois segundo minha mãe, caldo de cana dá uma preguiça!
E assim, neste domingo, dentro deste quarto de hotel vou moendo saudade. Lá fora há sol, há mar, há praia, há vento, há palmeiras. Porém esta boniteza toda, jamais irá virar saudade, apenas recordação.
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