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Nº 34 | Julho/ agosto de 2010
Grafias

A poesia delicada de Zenilda Lua | Fernando Scarpel

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Posteriormente, vem com uma das figuras mais belas na poesia brasileira, é a do seguinte poema:

Lentes e Contato

A moça com olhar de noiva
Mirava-se na poça de água barrenta
E se perdoava pelo corpo mal feito.
Simulava razões e lisonjeios.
Depois, descia a ladeira,
Levando seus ramos de alegria e alecrins.

Esta figura da moça com olhar de noiva mirando-se na poça de água barrenta. Fico a imaginar quem é esta moça, o que é este olhar de noiva. E a poetisa mesmo me explicou: é um olhar cheio de desejo, porque a noiva deseja, acima de tudo, deseja um final feliz para sua vida. Ao pensar nesta moça cheia de desejo, tentando se encontrar na água barrenta, tentando achar o seu reflexo, e o que esta água barrenta senão o espelho do mundo onde ela não consegue se encontrar, sente-se totalmente sem o retorno do mundo, do que as pessoas pensam sobre ela. A água barrenta pode ser o mundo que não se preocupa com o indivíduo, apesar de dar tanto valor à individualidade. E então, esta moça se perdoa pelo corpo mal feito. Porque talvez a gente entenda que, aos olhos do mundo, devemos ser perfeitos para sermos felizes e esta moça vem, perdoa-se e prova a si mesma e ao mundo que ela não precisa desta perfeição de corpo e rosto ditada por regras absurdas, ela desce a ladeira, ou seja, ela enfrenta o mundo, e leva ramos de alegria e alecrins. Além de tudo, oferece uma alternativa de vida, uma alternativa baseada no perdão. Uma das características mais fortes da religiosidade do cristianismo, e, por mais inacreditável, tão esquecida, que é o perdão.

Zenilda consegue ser crítica e delicada com tanta facilidade e beleza. É uma poetisa nata, fantástica. Já comentei que ela trata os relacionamentos com muita importância, as relações mãe-filha, pai-filha, cônjuges, amigos, são a própria vida, um belo exemplo, é a homenagem ao pai, que poderia ser a homenagem a todos os pais do mundo, de uma beleza única.

Quimera 77

Destilada a seiva
E a memória latejando no peito:
Pai, Benção!
Pai, reza comigo!
Pai, apaga a luz!
E aquela voz de sítio molhado
Chegava crua num assobio singelo:
_ To indo, Fia!

Destilar a seiva, outra bela figura para dizer tantas coisas como por exemplo, ter vivido a vida, terminar a lida (o seringueiro destila a seiva no trabalho), reconciliar-se após uma briga, encerrar os afazeres e estar com o tempo livre, ou seja, quando o pai está à disposição, a filha pede a benção, uma reza, apagar a luz, percebe-se que chegou a hora de dormir, reconciliar-se com o mundo e se recolher com a ajuda do pai. Também se pode entender que há três tempos aí, o passado, o nascimento ou início: "Pai, Benção", o presente, a vivência ou o meio, "Pai, reza comigo", e o futuro, a morte, o final: "Pai, apaga a luz". E este pai, com voz de sítio molhado pode ser o próprio Deus ou um simples pai, em sua voz que chega num assobio singelo. Todos os pais dizem: To indo, Fia! Todos os pais atendem aos pedidos das suas filhas. Um belo poema, sem dúvida. Tão simples e tão rico!

Zenilda é poetisa rara, concisa e publicou uma pequena obra prima, uma jóia para ser lida, relida e divulgada, uma jóia para ser usada por todos. Um livro que merece fazer parte de leituras e releituras deste tempo da literatura brasileira.

Zenilda Lua publicou o livro "Alfazema", uma pequena obra-prima literária, onde a poetisa faz uma poesia intimista e delicada em busca da profundidade da alma. Ao sentir a fragmentação do coração e da vida, sofre com isso em cada poema, onde traz um pouco de um sentimento, seja a desilusão, a solidão, a alegria.

A poesia de Zenilda Lua fala sempre para a pessoa que escuta como uma conversa íntima entre pessoas amigas. Ela não explica o mundo mas insere-se nele com medo, insegura, porque seus valores são outros. Ela é uma poetisa dos sentimentos ocultos nas figuras de linguagem inesperadas que anunciam uma poesia diferenciada e inovadora, carregada de sensibilidade. Uma poesia do olhar feminino sobre o mundo, um olhar refinado.

Suas palavras soam cheias de um ritmo do sussurro, raras são as vezes em que o poema soa para gritar, no entanto, quando a sua indignação é grande e a gota d’água transborda, ela manifesta sua raiva com precisão.

Ao falar dos sentimentos, ela revela os dramas pessoais e familiares como se cada poema contasse o resumo da vida de uma personagem, uma situação limite onde o sentimento se revela com toda a sua força. No fundo, é um resumo de sua própria vida, disso depreendemos, mas ela o faz como se não fosse, afinal, o poeta é um fingidor, já nos ensinou o grande poeta português, Fernando Pessoa.

Vamos, aos poucos, relacionando cada poema com a nossa própria vida e sentindo na própria pele a emoção como, por exemplo, nos momentos em que abandonamos tudo por uma paixão avassaladora, quando choramos de saudade, quando lutamos ou fizemos alguma loucura por amor.

Então, vemos uma mulher se revelando, mesmo que ela não conte a sua vida, não diga a sua rotina. Não sabemos se vai ao supermercado ou acompanha a filha à escola, se trabalha ou vai ao cinema, não sabemos seu cotidiano a que todos nos submetemos e que destrói o nosso coração, ainda assim, ela se revela totalmente ao falar do cotidiano do coração, sofrendo, todo dia, uma gama enorme de sentimentos, relacionando-os em visões simples e delicadas, toques, sussurros, revelando todos os seus sentimentos, expondo-se.

No entanto, faz o contrário das mulheres em busca de fama e sucesso fácil que expõem seus corpos e sua rotina para a mídia, porque Zenilda expõe seu coração, o íntimo, em busca dos valores muito mais nobres e eternos: amor, felicidade, paz. Ao fazer isso, ela vai fundo em sua luta contra o consumismo e a efemeridade das relações humanas, ela afirma a sua opção pelo ser. De certa forma, esta atitude é uma denúncia, um grito contra a mecanização das pessoas, uma manifestação tão delicada que não percebemos o quanto mergulhamos junto com ela. E nós precisamos mergulhar nos sentimentos para emergir fortes e enfrentar com sabedoria o mundo que diz que a felicidade está no dinheiro e na fama.

E me pergunto porque é tão difícil para a sociedade industrial perceber que a felicidade está nos relacionamentos humanos?

E, falando ao interlocutor de forma muito intimista, usando e abusando desta técnica, toca mais fundo na alma, revelando os sentimentos com muita força, por exemplo, quando sente saudade de sua mãe distante, mas é uma saudade que mais parece um nascimento quando ela diz:

Maria das Neves

No décimo terceiro dia
do oitavo mês, a saudade acordou mais cedo, Mãe!
E me cortou inteira
como a chuva corta o tempo

Como se a gestação da saudade correspondesse a gestação de uma criança, como se a filha já sentisse saudade antes de nascer e a mãe, e esta, antes de parir, já sentisse a mesma saudade pela filha, e isto é uma chuva que corta tanto a mãe quanto a filha. Este corte também pode ser o nascimento onde ocorre o corte do cordão umbilical. Interessante a presença da água que, em primeira análise é o berço da vida. Reforçando a idéia de nascer. É belo demais e difícil entender como para ela parece tão fácil ser tão concisa em um único sentimento.

E ela sente a transformação da sociedade tranqüila num espaço perigoso, dentro da família, que se estende ao país ou à própria sociedade brasileira, revela todos os cuidados das mães pelos filhos, e da família sem proteção. A falsa busca pela paz que acreditamos encontrar apenas nos fechando em nossas casas e em nossos mundos, quando sabemos, que a paz só é possível se todos se abrirem para o mundo, conhecerem-se e buscarem soluções em conjunto. Dentro do contexto de crítica ao isolacionismo, que pode ser da família ou de um país, temos o seguinte poema que mostra bem o medo tomando conta do mundo:

Ultra Sonografia Globalizada sem poema

Filha, entra!
Tranca o portão e a porta
Não fale com estranho
Não aumente o volume do som
Deixa o celular ligado
Filha, toma cuidado!
Estamos à deriva!
Não temos segurança ou indenização.
Procuramos (sem garantia) a paz
Que, enlameada, respira ofegante
Por entre urânio e flores virtuais.

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