Lembra dos passarinhos na gaiola, que o irmão coleciona. O canto triste. E um deles, coitado, morreu de fome. O irmão se esqueceu de alimentá-lo. A tia abre a sacola, mostra as revistas e os jornais. Falam tão baixo que a menina só consegue ouvir algumas palavras. Perigoso... estamos por um fio... rezem por nós... O motorista liga o rádio do carro. A música alta não a deixa ouvir mais nada. O que está acontecendo? A tia e a freira rezam uma ave-maria. Ainda bem que não é um terço. A tia agradece, pega a mão da menina. Entram no carro. A menina nem vê mais a estrada, o caminho de volta. Estamos por um fio! A tia explica ao motorista: vim pedir para as irmãs enclausuradas rezarem por nós. Por causa do perigo da terceira guerra mundial. Da bomba atômica. O motorista: li ontem no jornal que estamos sobre um barril de pólvora. A menina arrisca: tia, o que é enclausurada? São freirinhas que vivem lá dentro e não podem sair. Escolhem viver somente em oração, sem contato com o mundo. As orações delas são mais fortes que as nossas. A menina encosta no banco, esquece de vez a janela. Então, o mundo vai acabar. Uma bomba vai explodir tudo. E só quem pode nos salvar do fim do mundo são elas. As que abandonaram o mundo. Por que elas iriam querer salvá-lo? Nem sabem como é nadar no rio, ouvir a avó contar uma história, andar na mesma bicicleta que o pai. Nem sabem mais o gosto do sorvete tomado escondido: sorvete não pode, dá dor de garganta! Vira-se para a tia: mas, tia, o mundo para elas já não acabou? A tia sorri, acaricia de leve seus cabelos: tem coisas que você só vai entender quando crescer. Nem quando crescer. O passeio sem graça, agora. Chegam defronte à casa, a tia paga, descem do carro. Estamos por um fio! A mãe a recebe: vá lavar as mãos, o almoço está pronto. Por que precisa lavar as mãos se o mundo vai acabar? A mãe coloca o feijão cheiroso na tigela funda. As mãos lavadas, a menina senta-se à mesa. Por que fizeram almoço se o mundo vai acabar? O prato arrumado: arroz, feijão. O cheiro adocicado do quibebe desperta sua fome. A mãe tira do forno um grande peixe assado. A avó se oferece: deixa que a vó tira os espinhos pra você, nega. É perigoso engasgar. Os dedos grossos da avó, insensíveis ao calor, debulham a carne branca. A menina olha, fascinada. Os pequenos pedaços de peixe na borda do prato. Começa a comer. A carne do peixe, limpa, dissolve-se, saborosa, no céu da boca. Come, sem medo, a carne que a avó desfia. O mundo não vai acabar. Minha vó é mais forte que a bomba atômica.
Eliana Maciel é graduada em Letras e professora de Língua Portuguesa.
A menina está contente. Vai passear com a tia. De carro. A tia a toma pela mão. Caminham até o ponto de táxi, debaixo do viaduto. A tia carrega uma sacola. Dentro, jornais e revistas. A menina sente o cheiro dos cavalos que ficam ali, grudados nas carroças, esperando trabalho. O cheiro ácido da urina machuca suas narinas. A tia cumprimenta um dos motoristas, combina a corrida. O motorista abre a porta, a menina e a tia entram. Não é sempre que anda de carro. Os pais nunca tiveram, nem ninguém da família próxima. A mãe dizia que o pai não podia dirigir. Só enxerga de uma vista. A menina sempre estranhou. Nunca percebeu nada de errado nos olhos do pai. O banco macio, o barulho das portas se fechando, do motor do carro. O cheiro da urina se dissolvendo no vento da manhã. A menina olha pela janela: as casas, a sua casa, a esquina, a rua conhecida. Tudo rápido. Andar de carro parece ver televisão. Só que é colorido, não preto-e-branco. O motorista pergunta para a tia quem são os pais da menina. A tia conta. O motorista: fui eu que levei o irmãozinho dela, doente, para São Paulo. E depois trouxe de volta, morto, coitadinho, no colo da mãe. A menina conhece essa história. A mãe às vezes conta... e sempre chora. O motorista: a coisa mais triste que já vi. O anjinho morto e as três mulheres chorando, de São Paulo até aqui. A menina quer parar de se alegrar, quer pensar no irmãozinho morto. Mas, já faz tanto tempo... Foi bem antes do seu nascimento. E é tão gostoso passear de carro! Volta os olhos: a rua larga, a pracinha, pessoas andando, um casal. Serão casados? Uma criança chorando. Por quê? Um rapaz transportando tijolo num peruzinho. Nem ouve o que a tia e o motorista conversam. Nem sabem aonde vão. Pegam um caminho desconhecido. Uns solavancos: a estrada é de terra. Uma curva pra esquerda e o carro passa por um portão grande, de ferro, antigo, feio. Onde estão? O carro para, a tia pede ao motorista que aguarde. A menina sai do carro e olha em torno. Um lugar redondo. Parece uma pracinha. Um grande prédio, cheio de janelas. Parece que há uma igrejinha ali. Muitas árvores e um grande silêncio. Que lugar abandonado! O jardim precisa de água, está seco. Será que vão à missa? Tomara que não. Sabe que é pecado, mas não aguenta muito ficar parada na missa. Nem repetir sempre as mesmas palavras, lidas no folheto cheirando a jornal. A tia a toma pela mão. Entram numa sala quase escura. Cheiro de mofo e cera de vela. Ao fundo, uma parede de madeira, cheia de buraquinhos. Como uma grade. Será uma cadeia? O que foram fazer ali? A tia aponta uma poltrona e diz pra ela se sentar. Aproxima-se da grade e aperta a campainha que soa alto, pra dentro do prédio. Segundos depois, ouvem passos lentos, arrastados. Uma figura surge atrás da grade. É homem ou mulher? A tia se aproxima e começam uma conversa em voz muito baixa. A menina consegue ver: é uma freirinha! Gosta das freiras. Passam pela rua da sua casa, indo e vindo do colégio. As roupas pretas e brancas, longas, mesmo no calor. O véu, o terço amarrado à cintura. Sempre se aproxima delas e pede a bênção. Elas gostam, sorriem pra menina. E saem andando, sempre em bando, sempre felizes. Revoada. Mas, por que essa aqui está presa? Por que parece triste?
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