Deve-se considerar que as informações disponíveis são parcas e que muitas outras devem ser geradas. Há dados a produzir no sentido de aumentar a lucidez.
A mesmice das conclusões de “frases feitas” não traz as respostas de que precisaremos para atender as demandas que o futuro imporá, por isso é inevitável discutir os rumos do turismo em Aparecida-SP para não sermos surpreendidos pelo que virá.
Os primeiros registros sistemáticos sobre o movimento anual de peregrinos em Aparecida datam de 1968.
No ano anterior, o Papa Paulo VI presenteou a Rainha e Padroeira do Brasil com a Rosa de Ouro por ocasião dos 250 anos do encontro de sua imagem nas águas do rio Paraíba do Sul.
Cientes da importância de conhecer e, em alguma medida, organizar o fluxo de romeiros, os missionários redentoristas cuidaram de quantificar o movimento de peregrinos aos finais de semana.
Através de uma técnica de contagem própria – que ainda permanece – ônibus e automóveis eram computados e tinham seus totais multiplicados pela capacidade física máxima de cada veículo. Ônibus eram multiplicados por 40 e automóveis multiplicados por 5. Por este cálculo sumário estimava-se – e estima-se – a população flutuante de Aparecida. Num primeiro momento, aos finais de semana e feriados, e, mais recentemente, também durante a semana.
As contagens efetuadas pelo Santuário Nacional, há mais de 40 anos, é a única fonte disponível. Não há contraponto. Não há possibilidade de emparelhar os resultados com outras bases de dados, como também não estão disponíveis estudos estatísticos mais aprofundados.
As breves análises aqui empreendidas são, portanto, inteiramente baseadas nas séries temporais permitidas pelas informações disponibilizadas pelo Santuário Nacional de Aparecida.
Tais séries foram organizadas em quatro grandes conjuntos de dados referentes:
As estatísticas, desde que estabelecidas por instrumentos confiáveis e com a honestidade intelectual que compete a todo pesquisador, são fundamentais para a compreensão da realidade social, histórica e econômica de qualquer grupamento humano. Os dados, uma vez coletados, organizados e analisados, permitem construir um quadro diagnóstico que mostra os aspectos relevantes e desprezíveis de uma dada situação conjuntural, ordem estrutural ou evolução temporal.
O caso da cidade de Aparecida-SP é extremamente singular. Incrustada na parte paulista do vale formado pelas serras do Mar e da Mantiqueira e que liga as duas maiores metrópoles do Brasil, Aparecida se organiza em função da peregrinação religiosa de centenas de milhares de devotos que, principalmente aos finais de semana, dirigem-se para a cidade-sede do Santuário Nacional.
Os números chegam a impressionar. Segundo os dados coligidos pelo Santuário Nacional de Aparecida, em 2009, computados os dias de semana, o número de visitantes ultrapassou a casa dos dez milhões de pessoas. Por si só, esta cifra justifica uma reflexão profunda acerca do que significa, tornando inevitável a busca por respostas a questões diretamente ligadas ao cotidiano da cidade, a maneira como se prepara para receber o turista-romeiro, os tipos de relações sociais, econômicas e políticas que estabelecem e as expectativas que alimentam.
E mais: é de fundamental interesse delinear o perfil deste turista para que a cidade possa melhor adequar-se às características daquele que, religiosamente, a visita, bem como pensar em um modelo de desenvolvimento que inclua a possibilidade de atender visitantes de perfis diferenciados daqueles que tradicionalmente, ao longo de gerações, a cidade recebe.
Com este propósito, são indispensáveis algumas indagações, tais como: como se distribuem os visitantes por faixa etária, sexo, grau de escolaridade, nível de renda, profissão etc? De que regiões e cidades do país ou do exterior eles vêm? Com que frequência visitam a cidade? Qual a visão que os turistas tem da cidade quanto a estrutura de recepção, sistema viário, atendimento em estabelecimentos comerciais, qualidade dos produtos oferecidos etc?
Estar de posse destas informações e de inúmeras outras exige que se instaure e se execute um levantamento censitário, um Censo Turístico talvez, com o foco centrado em informações úteis ao Poder Público, à sociedade civil e à administração do Santuário Nacional para que, isolada ou conjuntamente, delineiem ações visando a um desenvolvimento capaz de atender aos interesses momentâneos, mas sem deixar de assegurar a sustentabilidade econômica do município e arredores, via turismo religioso, para os anos vindouros.
Este Caderno Especial tem por finalidade fornecer uma primeira tentativa de desenhar o mapa temporal da movimentação de romeiros que alimentou a dinâmica econômica de Aparecida nos últimos quarenta anos, buscando, através de gráficos, tabelas e dados históricos, fornecer ao público interessado informações que permitam constituir uma nova forma de perceber a cidade.
Para tanto, os gráficos não devem ser vistos como simples ilustrações, mas lidos como sínteses de uma evolução sujeita a fatores que extrapolam o âmbito local.
É um equívoco querer explicar Aparecida apenas a partir dela mesma. E os dados mostram o quanto a cidade é permeável ao movimento mais global da economia e da política brasileiras. Isto faz dela um sensível e instantâneo termômetro dos efeitos das políticas econômicas sobre o turismo religioso no Brasil, geralmente acessível às camadas menos favorecidas da sociedade. Daí a necessidade de estar sempre atento ao contexto e às bases que sustentam a economia nacional.
Então, o que resta fazer? Associar as informações e planejar as ações. Não há mais espaço para o amadorismo, para o despreparo, para a decisão pautada apenas na intuição e na experiência. É preciso planejamento consciencioso para o qual a informação tem papel insubstituível. Planejar é sempre tentativa de antecipação a partir de tendências que apenas uma visão ao longo do tempo permite. São as tendências que permitem discutir o futuro sem ingenuidade.
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