A multiplicação dos estudos sobre a memória coletiva permitiu compreender melhor a complexidade de seu funcionamento e tornou possível uma abordagem crítica. O falso dilema da escolha a ser feita entre o pólo de uma história baseada em seu contrato de verdade e o de uma memória alimentada pela fidelidade se transforma hoje, momento de verdadeira transição historiográfica, em conjunção alimentada por múltiplas fidelidades capazes de resistir à verdade exprimida pelos trabalhos de uma nova história social da memória.
Além disso, o autor salienta que é possível problematizar tal fato e contexto histórico partindo da memória pela história e também fazendo o caminho inverso. Para ele, certas lembranças só podem ser conservadas quando são incluídas na consciência coletiva.
Esse deslocamento do olhar histórico corresponde exatamente a uma mudança historiográfica atual, segundo a qual a tradição só vale como tradicionalidade na medida em que afeta o presente. A distância temporal não é mais uma desvantagem para uma apropriação das diversas estratificações de sentido de acontecimentos passados transformados em acontecimentos supersignificados.
Desse modo, a memória apresenta várias faces, nuances que tomam voz e rosto através de seus protagonistas, transmitindo suas impressões de geração em geração. Em seu trabalho, Paul Ricoeur também destaca através da análise dos fenômenos mnemônicos as impressões da memória ao longo do tempo, privilegiando o que ele chama de lugares da memória: "o passado reconhecido tende a se fazer valer como passado percebido".
Débora Maria Nogueira Corbage é Mestre em História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
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Este artigo aborda a história da escola Complementar de Guaratinguetá relacionada à memória sobre seus alunos nas primeiras décadas do século XX. Fundamenta-se na relação entre a memória que grupos sociais criaram e sedimentaram sobre os primeiros alunos da Escola Complementar de Guaratinguetá e a história dessa escola na vida da cidade em processo de mudanças sociais e culturais.
O interesse pelo tema surgiu exatamente, como moradora de Guaratinguetá, da importância atribuída ainda nos dias atuais a essa escola. O prédio da escola, atualmente com outra titulação e atendendo a um público escolar diferenciado, é um marco da memória para a cidade. Uma parcela da sociedade de Guaratinguetá preserva em acervos uma memória sobre seus alunos e professores, atribuindo à escola um papel fundamental na constituição das elites locais. A memória da Escola Complementar está assim associada a setores que a consideram como “lugar” da manutenção e preservação de grupos sociais que compunham a elite econômica e social de uma cidade que passava por transformações no início do século XX, com o declínio econômico no setor cafeeiro, base da produção da região e responsável que era para a composição de grupos sociais privilegiados no decorrer do Império cuja base da mão de obra era escrava. O trabalho livre, a chegada de imigrantes, a transformação das antigas fazendas, a diversificação da produção, além das mudanças tecnológicas que forneciam novas formas de organização e de função urbana afetavam a sociedade incluindo o novo sentido da educação escolar na configuração social e nas relações de poder político e cultural.
Desta forma, para dar inicio à investigação sobre a Escola Complementar de Guaratinguetá e seus alunos, é fundamental tecer considerações acerca da memória para que possamos introduzir no que diz respeito à memória coletiva do grupo social em questão juntamente com a memória escolar do início do período republicano onde a questão da formação docente estava sendo gerada através de todo um projeto que girava em torno desta escola sem deixar de levar em conta o legado que esse período deixou na memória de um determinado grupo social.
Muitas são as atribuições da historiografia com relação à memória e também são muitas essas mesmas atribuições da memória feitas por um determinado grupo social. Para François Dosse, podemos perceber como a memória coletiva é construída por determinado grupo e se enraíza através dos tempos criando fatos e personagens quase indeléveis e difíceis de serem compreendidos.
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