Portanto, a democracia está antes ligada a valores que a eleições. Não que os valores dispensem as eleições, mas as precedem. Isto significa que uma vez decididos os valores, os políticos tornam-se mera expressão deles. Antes de elegermos pessoas, elegemos valores.
Os políticos, num sistema que preserva as eleições diretas e corretas, apenas materializam as aspirações dos segmentos que se fazem majoritários. Se comungam com a corrupção – aberta ou veladamente – dificilmente escolhem alguém que a combata; se rechaçam o preconceito, jamais votam em quem os defenda; se têm tendências classistas ou étnicas, o voto é concedido a quem representa este senso de pertencimento; se desejam, de algum modo, as benesses do poder, submetem-se – e submetem-nos – ao jogo de trocas que ele exige, donde a compra de votos, as promessas de emprego e de inclusão em programas sociais e os acordos escusos com financiadores de campanhas derivarem como epifenômenos.
De qualquer modo, quando o complexo processo eleitoral degringola numa simplificada barganha de favores por votos, instaura-se a lógica da tirania e o cidadão, severamente mutilado, dá lugar ao lacaio, o que permite dizer que, para a democracia, o pior político é aquele que oferece favores e o pior eleitor é aquele que os aceita.
As eleições aí estão. Um novo teste se apresenta. Desde o último pleito, como eleitores, fizemos a lição de casa? Se sim, há bons motivos para alimentar esperanças. Se não, o que podemos esperar? Os novos biônicos, autômatos desconectados dos legítimos problemas nacionais e encaixados nas rígidas estruturas partidárias, estão à espreita de nossos deslizes para que possam derrubar-nos através do canto harmonioso das agências publicitárias e seus escudeiros do marketing.
No Brasil, houve época em que políticos eram definidos à revelia do desejo popular. Eram nomeados. Eram biônicos. Eram esfoladuras à democracia.
Agora há eleições. Mas os arranhões não cicatrizaram. Os novos biônicos aí estão, representando interesses avessos aos valores democráticos, para continuar escalavrando o sistema com as afiadas garras do individualismo e do corporativismo.
Aliás, talvez seja este o maior desafio da democracia enquanto esforço da inteligência e da ação humanas orientado para a prevalência do interesse público na organização e regência da vida em sociedade: não privar indivíduos e grupos de suas aspirações desde que não conspirem pela falência dos fundamentos da ordem democrática.
E é no centro do conflito entre estas duas racionalidades – a privada e a pública – que se instala o dilema do atual quadro político brasileiro: como fazer para que os arautos do privativo não se assenhorem do aparelho de estado para conformá-lo aos propósitos dos grupos que representam?
Não é uma questão restrita às eleições – votar repetidas vezes não necessariamente induz à lucidez embora possa contribuir para isto –, mas de ordem pedagógica em uma de suas mais significativas acepções: formar moralmente cada indivíduo no sentido da autonomia que reconhece a importância dos valores coletivos como sustentáculo do principal colosso político construído pela civilização ocidental: a democracia.
Assim, educação política e política educacional estão inextricavelmente ligadas. É inadiável uma política educacional – não apenas nas escolas, ressalte-se – que contemple a educação política como parte da formação moral de cada indivíduo e, ao mesmo tempo, uma educação política a colocar valores que neutralizem os efeitos nocivos de qualquer tendência autocentrada que apresente riscos para a democracia.
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