É muita rica, extraordinariamente rica, formalmente, a poesia de Cassiano Ricardo (o poeta substituiu o verso pelo linossigno); rica de invenções formais, mas rica sobretudo e principalmente dessa seiva imponderável que enforma e aquece todos os seus malabarismos estruturais rítmicos e métricos, dando-lhes um conteúdo realmente poético, isto é, conteúdo criador, de grande, imensa seriedade.
Essa riqueza interior é que impede que sua poesia se dilua na gratuidade que enferma tanta produção de vanguarda e lhe confere o peso de uma mensagem (palavra anacrônica e esvaziada de atualidade, mas insubstituível). Pois, de fato, que personagem mais carregado de simbolismo, mais empapado de significação do que Jeremias, o profeta do Velho Testamento? Ele é a figura, a “dramatis persona” do livro de Cassiano, que é pleno de referências culturais, de sentido histórico.
O Jeremias moderno, de 25 anos, olho de vidro, homem do mundo da Astronáutica e da Cibernética, afasta-se de seu modelo bíblico num ponto essencial: não pode chorar, pois o mesmo mundo que está ameaçado pela máquina, de destruição total, tirou-lhe o dom das lágrimas. Vivendo no alvorecer da automação, “ócio dourado”, Jeremias chega a ter a sensação de que não é mais necessário a si mesmo, pois “a máquina reciocina por ele, caminha por ele, gesticula ou fala por ele, faz um poema por ele. A paisagem cósmica com os seus engenhos espaciais, as viagens às estrelas, o espetáculo das explosões atômicas, a teoria da informação, tudo isso, por sua vez, o enche de encantamento, mas também de medo”.
É por esse motivo que acredito ter razão quando afirmo que a poesia de Cassiano é uma poesia imersa nos acontecimentos do tempo presente, e ela será tanto mais legítima e verdadeira, quanto mais souber explicar o absurdo de nosso tempo. A imaginação do poeta está sempre se socorrendo de paralelos e de referências mitológicas para tornar mais eloqüente a sua elocução e mostrar o vazio do mundo moderno, despovoado de mitos.
Um seu personagem anterior, João torto, representava o homem deformado pela bomba atômica, as deformações de hoje substituindo as metamorfoses da fábula. Trata-se, evidentemente de uma reminiscência ovidiana. No livro atual, Jeremias perde o olho devido à patada que levou de um cavalo no comício de que participava: ao contrário da patada de Pégaso (o cavalo mitológico que fez nascer a fonte de Hipocrene), a patada do cavalo moderno fez estancar a fonte das lágrimas em Jeremias.
Do livro: A procura do número. São Paulo, IMESP, 1967, p. 121-126.
Para ler o texto completo, baixe a versão em pdf clicando na imagem abaixo.
| Este documento não pode ser reproduzido sem o consentimento expresso dos autores. A transgressão desta regra implicará em penalidades da lei. | (24Kb) |
Quando o assunto é crítica literária, Pindamonhangaba tem um nome do maior quilate a representá-la: José Geraldo Nogueira Moutinho.
Francisco de Assis Barbosa, da ABL, ombreou-o a grandes vultos da imprensa literária opinativa, tais como: Antonio Cândido, Adonias Filho, Afrânio Coutinho, Sérgio Milliet e Brito Broca.
O jornalismo de Nogueira Moutinho está voltado para o texto, não para o autor, o que faz dele “o mais completo analista de textos da imprensa brasileira que possuímos. Seus artigos na Folha de São Paulo, se couber uma comparação, são da categoria de um T. S. Eliot da fase áurea de Criterium.” (Francisco de Assis Barbosa na orelha do livro A Fonte e a Forma - 50 ensaios sobre literatura contemporânea).
Por mais de 15 anos, a partir de julho de 1961, assinou uma coluna literária nas edições dominicais da Folha de São Paulo sempre buscando aquilo que considerava ser a função ideal da crítica: a aproximação enquanto junção de conhecimento e intuição.
Nesta edição, apresentamos a crítica ao livro Jeremias Sem-Chorar, de Cassiano Ricardo, publicada em 28.06.1964.
Após haver-me demorado em algumas reflexões surgidas à leitura dos livros de Cecília Meireles e Augusto Frederico Schmidt, momentos de grande altura na obra desses poetas, textos enriquecedores da literatura à qual pertencem, desejo anotar algumas idéias originadas durante a tomada de contacto com o terceiro grande livro aparecido em 1964: Jeremias Sem-Chorar, de Cassiano Ricardo.
Ao lado de Cecília e de Schmidt, Cassiano prossegue a missão dos poetas: explicar-nos a realidade, a essência das coisas. Embora seu rumo seja em outra direção, embora sua vista se aplique ao deslinde de outros espetáculos, embora sua postura divirja da tomada diante dos acontecimentos por aqueles dois poetas, seus companheiros (ou quase) de geração, Cassiano, qualitativamente está em plano idêntico.
Se ao crítico fosse possível manipular com rigor matemático os dados que os três poetas ofertam, se lhe fosse dado reduzir a um termo único e comum a sua vária contribuição, certamente que ao fim dos seus cálculos iria ele descobrir alguma coisa semelhante a um campo unificado, no qual, reduzidas à sua expressão mais simples, as palavras dos três teriam o mesmo valor e o mesmo “pondus”, convergindo para o mesmo ponto, tendendo à verdade.
Com isso quero significar que as diferenças entre os poetas de qualidade são apenas superficiais e que isso a que damos o nome de estilo e de caracteres pessoais não é senão o signo aparente de uma realidade mais profunda e invisível, da diversidade de grau que os poetas atingem quando descem às regiões inferiores, “ad ínferos”, em busca e à cata da verdade. Schmidt e Cecília caminham para o intemporal e o incorpóreo; Cassiano está flanqueado pelo temporal e pelo corpóreo. Os primeiros abstraem o mundo presente; Cassiano se aplica na transfiguração do mundo presente. Sua visão pessoal da realidade é dirigida no sentido de explicar-nos “o mundo do terror e do encanto” que lhe (e também que nos) “obsta o pranto”.
Leia também: História da Corporação Musical “Aurora Aparecidense”
Alcelétrica Av. Padroeira do Brasil, 685 Aparecida/SP - (12)3104.1700 Av. J.K. de Oliveira, 890 Guaratinguetá/SP (12) 3128.6907 www.alceletrica.com.br |
Polimédica Avenida Padroeira do Brasil, 689 Vila Mariana Aparecida, SP Tel.: (12) 3105.1377 |