Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo, Cultrix, 1994, p. 216.
Cf. Nísia Trindade Lima, “Um médico sabidíssimo contra o Triatoma bacalaureatus: Monteiro Lobato e a campanha sanitarista da Primeira República”, p. 122. In: LUSTOSA, Isabel (org). Imprensa, história e literatura. Rio de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa, 2008.
O primeiro conto, título do livro, “Cidades mortas”, mostra bem a relação feita por Lobato entre o definhamento das cidades do Vale do Paraíba e a decadência econômica resultante do enfraquecimento da produção de café, que durante anos representou uma das maiores riquezas da região. O teor crítico aparece logo no segundo parágrafo do conto:
“A uberdade nativa do solo é o fator que o condiciona. Mal a uberdade se esvai, pela reiterada sucção de uma seiva não recomposta, como no velho mundo, pelo adubo, o desenvolvimento da zona esmorece, foge dela o capital – e com ele os homens fortes, aptos para o trabalho. E lentamente cai a tapera nas almas e nas coisas.” (Lobato, 2007, p.21)
A inspiração para certos contos de Cidades Mortas veio justamente da experiência de Lobato em Areias, quando foi promotor. O escritor, segundo seu biógrafo Edgard Cavalheiro em Monteiro Lobato: vida e obra, ficou chocado e perplexo com a decadência de uma cidade que, em 1854, produzira nada menos que 78% do café paulista, ao passo que, no momento da estadia de Lobato, não chegava a produzir nem 4%. Daí o tom melancólico – dir-se-ia até pessimista – do texto, em que o leitor é apresentado a
“umas tantas cidades moribundas [que] arrastam um viver decrépito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes.” (2007, p. 21)
Grandezas essas que podem, se quisermos fazer uma correlação com algo que ainda perdura, ser representadas pelas famosas fazendas dos senhores do café a se propagarem nos tempos áureos (na medida em que o café foi o ouro da região), muitas das quais hoje são pousadas e símbolos de um fausto período.
A visão desoladora do lugar, que não é nomeado, vai se acentuando a cada parágrafo, e as palavras escolhidas para descrever o panorama só reforçam essa impressão: “bolor râncido da velhice”, “casarões que lembram ossaturas de megatérios”, “salões vazios”, “casas sem janelas”, “candelabros (...) esverdecidos de azinhavre”. Tudo são vestígios, restos, esqueletos, carcaças. Como as caixas que guardamos em casa com nossas (boas) recordações. Parece que estamos adentrando uma cidade-fantasma, como nos filmes.
* Daniela Prado é doutoranda em Literatura pela Universidade de São Paulo.
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Tratar de Monteiro Lobato é um grande desafio. Quando se pensa em sua obra, normalmente vem à mente, num primeiro momento, o escritor de literatura infanto-juvenil, criador da Emília, da dona Benta, da Narizinho, do Pedrinho, da tia Nastácia, do Sítio do Pica-pau Amarelo. Personagens tornadas ainda mais célebres depois de difundidas numa série pela TV Globo nos anos 1970-1980 e, mais recentemente, numa nova versão do Sítio que chegou a ser adaptada aos tempos modernos, mostrando, por exemplo, uma dona Benta atualizada, usando computador e mandando e-mails.
A obra de Lobato, entretanto, é tão vasta quanto variada, e não se resume ao público infantil. Pelo contrário. Muitos de seus livros são de temática adulta, tendo surgido antes do sítio. Destaque para Urupês (1918), onde encontramos o famoso Jeca Tatu; Negrinha (1920); O presidente negro (1926), que pelo caráter visionário voltou à baila depois da eleição do presidente dos Estados Unidos, Barak Obama; A barca de Gleyre, reunião de correspondências trocadas durante mais de quarenta anos com Godofredo Rangel, amigo da época da faculdade em São Paulo. A obra infantil de Lobato só aparece mais tarde. Começou publicando histórias curtas – Narizinho Arrebitado em 1921, O Marquês de Rabicó em 1922 – , mas só em 1931 elas viriam a ser reunidas na série Reinações de Narizinho.
O desafio referido no início deste texto, no entanto, não se restringe apenas ao estudo da obra. A vida de Lobato está repleta de peripécias e acontecimentos que despertam nossa curiosidade, principalmente quando nos damos conta de que se interpenetram nos seus escritos. O autor era dotado de um espírito ativo, aventureiro, dinâmico, militante, empreendedor, engajado em questões nacionais. Lobato foi “um intelectual participante que empunhou a bandeira do progresso social e mental de nossa gente” (BOSI, 1994, p. 215). A compra da Revista do Brasil, em 1918, por exemplo, foi um marco importante não só para o desenvolvimento do mercado editorial brasileiro, mas deu impulso também para publicações de caráter cultural, ainda raras nesse período. O professor de Literatura Brasileira da USP, Alfredo Bosi, retrata Lobato como alguém que “encarnou o divulgador agressivo da Ciência, do progressismo, do ‘mundo moderno’, tendo sido um demolidor de tabus”. O envolvimento de Lobato com as questões nacionais espraiou-se pelas mais diversas áreas: saneamento, ferro, petróleo, reforma agrária. E o mais curioso: questões ainda presentes no cotidiano do povo brasileiro.
Antes de passarmos à obra a ser apresentada neste artigo, ou justamente como forma de introduzi-la, vale a pena resgatar alguns momentos de destaque da vida do escritor. José Renato Monteiro Lobato, que mais tarde se tornaria José Bento (por ter se apegado à bengala com as iniciais J.B.M.L. do avô, de onde veio o Bento), nasceu em Taubaté em 1882. Em 1897, vai para São Paulo estudar Direito, na Academia do Largo São Francisco. Em 1904, já formado, retorna a Taubaté. Assume, a partir de 1907, o cargo de Promotor Público em Areias, cidade que iria inspirar alguns dos contos do livro Cidades mortas, publicado só mais tarde, em 1919, quando já estava atuando no mercado editorial. E aqui chegamos ao nosso destino.
Cf. Tânia Regina de Luca, “Imprensa e mundo letrado paulista no início do século XX: o caso de Monteiro Lobato”, publicado em LUSTOSA, Isabel (org.). Imprensa, história e literatura. Rio de Janeiro, Edições Casa de Rui Barbosa, 2008, p. 189.
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