E o refresco doce e azedinho. O irmão: já está bom, vamos embora. Sopesa o saco, levanta-o com esforço, apoia no ombro. Pede: vai até a estradinha pra ver se não tem ninguém. Obedece. Sente atrás de si o olhar do irmão, pronto para sair. Chega à estrada. Olha pra esquerda. Nada. Tudo vazio e tranquilo, como quando vieram. Olha pra direita. Impossível! Abre mais os olhos. A madame e o capataz vindo, conversando, a poucos passos dela. O que fazer? Ela usa botas altas, pretas, por fora da calça. Um chicote na mão. Meu Deus! Parece os soldados que viu numa revista, que prenderam aqueles homens esqueléticos durante a guerra. O capataz enxerga a menina. Parece farejar. E a olha, feio, bravo. Cachorro buldogue. O coração aos pulos. Se voltar correndo, vão desconfiar. Se ficar parada, vão encontrar o irmão. E o pai desempregado, por causa dela. Vão perder a casa boa, a lareira na sala, a gata querida. Tudo por sua culpa. Olha o irmão que a observa, o saco pesando nos ombros. Sente um enjoo forte, um nó que sobe até a garganta. Não pode mais... As lágrimas começam a cair. Soluça. Madame e capataz se aproximam. O irmão tenta correr. Mas, com tanto peso! A menina chora, desconsolada, infeliz. Madame dá ordens ao capataz numa língua feia, parece que está limpando a garganta. A menina espera a chicotada. O capataz chama o irmão, fala pra ele descarregar tudo no pé da árvore. O irmão obedece, quieto. A menina sabe que ele está com raiva, muita raiva. As carambolas esparramadas, prontas para apodrecer. O capataz encosta o dedo no nariz do irmão e fala alto, muito alto. O irmão abaixa a cabeça, espera. Depois, passa pela menina, segura sua mão e vão embora. A menina limpa as lágrimas, sabe que o rosto está sujo. O irmão: por que teve que chorar? Por que não disfarçou? A menina não responde. Doi-lhe a garganta, o peito, parece que está com febre. O que é disfarçar? Chegam à casa. A menina entra correndo. Lava as mãos e o rosto no tanque de lavar roupas. A água fria lhe faz bem. As lágrimas ainda fáceis, basta lembrar-se da madame. Senta-se no degrau. O céu azul. Tudo quieto. Tenta fazer de conta que nada aconteceu. O cheiro das carambolas nas narinas. A vontade frustrada do suco refrescante. Sobretudo, o medo. De o pai ser demitido. Tudo minha culpa. O irmão chega, de novo. Senta-se do seu lado. Não se preocupe. Contei pro pai. Não vai acontecer nada. A madame não é mais tão brava quanto era. O coração se acalmando. O irmão põe as mãos nos bolsos da bermuda. De cada um, tira alguma coisa. Duas carambolas! Ele lhe oferece uma, cheirosa, perfeita. Salvei essas duas, eram as melhores. Ela a recebe e olha pro irmão, sorrindo. Os dois mordem as frutas. Mastigam as estrelas amarelas. Bem que as merecem.
Eliana Maciel é graduada em Letras e professora de Língua Portuguesa.
Pixuí, pixuí, pixuí... vem aqui, gatinha. A gata se aproxima da menina e sobe em seus joelhos. A menina acaricia seu pelo. Sente nas pernas as unhas finas do bicho. Lembra-se de quando viu a gata pela primeira vez. Mansa, o olhar amarelo. Ofereceu-lhe leite. A gata lambia e virava a cabeça pro lado. A menina percebeu: um furo próximo de sua boca. A única gata daquele jeito. A sua gata. Havia muitos gatos ali, onde foi morar há poucos meses. Era uma granja, numa cidade longe de onde nasceu. O pai arrumou um novo trabalho e tiveram que se mudar. Andaram muito de carro, com o caminhão de mudança sacolejando atrás. A menina se ajeita. Está sentada num degrau alto, no quintal de sua casa. Com os dedos no pelo da gata, observa. À sua frente, a pedra grande. Onde sua irmã, um dia, jogou um gatinho, quando viu um carrapato debaixo de seu pelo. Até hoje debocham dela. À esquerda, uma parte do lago grande, que fica no centro das casas. Lá embaixo, os galpões onde o pai trabalha, cuidando das galinhas. No dia anterior, o pai mostrou a ela um pintinho sem uma pata, e outro, com duas cabeças. Ambos mortos. A menina ficou impressionada. A natureza não era perfeita? Para além da pedra grande, a cerca... e as laranjeiras. Todas carregadas. Festival verde e amarelo. Em toda a volta da casa há árvores e frutas: jabuticabas, carambolas, amoras, goiabas... Eles não podem pegar nada. A madame não deixa, dizia o pai. A menina tem medo da madame. Todos têm. Só a viu uma vez, muito rápido. É estrangeira, de roupas esquisitas, de fala esquisita. E que prefere as frutas apodrecendo no pé da árvore que na casa dos empregados. O pai: estrangeiro é esquisito mesmo. Não está acostumado com a fartura do Brasil. E joga a fartura fora? Coração ruim, diria a avó. Tum! A porta de tela bate e surge o irmão, ao seu lado. Tira a franja loira da testa e sussurra: vamos pegar carambola? A gata salta do colo da menina, some atrás da casa. Não, não podemos. O irmão: sei onde tem uma árvore carregadinha, ninguém vai nos ver. A madame não está aqui, hoje. Mas, o pai falou... ele pode perder o emprego, se nos pegam. Ninguém vai nos ver. A menina sabe: a madame deixa o capataz tomando conta. Que é até pior que ela. Mas, é impossível resistir ao irmão. Sempre era. Ela se levanta e o segue. O irmão deve saber o que faz. É homem, é o mais velho dos filhos. Já é moço. Sente medo. Descem a ladeira defronte da casa, contornam o lago, andam por uma estradinha onde nunca foi. O sol quente e a caminhada a fazem suar. Por que é que sempre fazia o que o irmão queria? Por que não dizia ‘não’ e pronto? O irmão vai à frente, agora. Vira à direita, atrás de uns prédios abandonados. A caramboleira! Carregada, envergada, de frutas. A menina sente já o gosto doce e ácido da carambola. Os passarinhos brincam, satisfeitos com tanta comida. Dos passarinhos a madame não pode tirar o emprego. O irmão retira do bolso da bermuda um saco de plástico reforçado. Começa a pegar as carambolas. A menina o ajuda. É só encostar a mão nelas que se soltam dos galhos. Pedindo para serem colhidas. A menina sente o suor escorrer pela testa. Pensa no suco da carambola, que a mãe fará. Carambolas lavadas e cortadas. Estrelas amarelas sobre a pedra da pia. O barulho do liquidificador. A peneirinha sobre a jarra transparente. O açúcar, uns cubos de gelo. O copo.
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