Nº 32 | Março/ abril de 2010
Focus

Dilermando Reis (1916-1977): a vida do violinista na capital da República| Alan Rafael de Medeiros

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As atenções da população brasileira estavam voltadas para o rádio, e tal fator contribuiu para a aceitação do violonista como intérprete em caráter nacional junto ao público ouvinte.

Em 1936, um período de efervescência das rádios na busca por bons músicos, Dilermando Reis foi apresentado a Renato Murce (1900-1987, apresentador e um dos pioneiros do rádio, criador de diversos programas de sucesso da época), então diretor de programação musical na Rádio Transmissora na loja A Guitarra de Prata. Quando Renato ouviu o violonista executar a valsa Gotas de Lágrimas de Mozart Bicalho, convidou-o para integrar dois de seus novos programas, Alma do Sertão e Antigamente. Foi a partir desta interação com Murce que Dilermando iniciou seu caminho de êxitos radiofônicos e conseqüentemente o reconhecimento no meio musical. Atuou posteriormente em programas como Variedades Esso, um programa de violão-solo, e também no Programa Casé, que ia ao ar aos domingos, e desta maneira Dilermando se tornou um violonista reconhecido e bem pago no meio musical carioca.

Portanto, antes mesmo de iniciar sua extensa carreira discográfica como compositor em 1941, Dilermando Reis já atuava em diversos programas de rádio, além de com frequência convidado para acompanhar os principais cartazes da época (cantores de maior fama das emissoras de rádio).

Dilermando atuou nas emissoras cariocas em um período que vai de 1936 a 1969, atuando na Rádio Transmissora (de 1936 a 1940), transferindo-se posteriormente à Rádio Clube do Brasil (de 1940 a 1953), e por último na Rádio Nacional (de 1956 a 1969) a emissora mais valorizada na época.

Na Nacional, a carreira de Dilermando Reis foi consolidada, a emissora contribuiu para a valorização pessoal do músico, colocando-o no grupo de artistas consagrados que atingiram grande prestígio. Nesta emissora ele ganhou um programa de violão intitulado Sua Majestade, o Violão, apelido pelo qual ficou conhecido. Trazendo ao contexto atual, podemos comparar a exposição de um programa solo no rádio da época a um programa na tv aberta, mostrando, portanto, a versatilidade e aceitação da música e da imagem criada por Dilermando Reis.

A última atividade exercida por Dilermando Reis (e a que mais contribuiu para a disseminação de sua obra) foi a atuação nos estúdios para a gravação de LP’s com composições e interpretações suas, a partir do ano de 1941 na gravadora Continental (até 1943 conhecida como Colúmbia). O violonista iniciou sua carreira como compositor pela necessidade de ampliar o reduzido repertório violonístico popular da época. As peças mais interpretadas (Abismo de Rosas, Sons de Carrilhões, Gotas de Lágrimas) eram executadas por Dilermando Reis, e a partir do momento em que o músico passou a integrar diversos programas de rádio, tal necessidade fez-se premente. Além de compor obras para o violão ao longo da carreira, Dilermando fez arranjos e adaptações de obras vocais conhecidas da época, como Na baixa do Sapateiro, Carinhoso, Índia, músicas que vinham de encontro ao gosto popular emergente da Era do Rádio.

Dilermando Reis foi um compositor fértil, compôs e gravou 130 obras para violão, em 34 anos de trabalho como compositor, até o final da década de 1970, deixando ainda manuscritos de músicas não gravadas. Suas peças violonísticas o colocaram na confortável posição de melhor violonista popular brasileiro, devido à aceitação do público. A vasta obra de Dilermando transformou-se na representação do estilo e da sonoridade do nosso violão solo na Era do Rádio.

Interessante observar que Dilermando nunca assinou contrato oficial com a Gravadora Continental em seus 34 anos de trabalho. Em entrevista concedida ao Museu da Imagem e do Som em 1972, Dilermando afirmou que o contrato era “renovado automaticamente e de forma verbal’.

Em se tratando da discografia de um instrumentista solista, a quantidade normalmente não é fator determinante, Dilermando Reis porém, diferentemente da maior parte dos violonistas de seu tempo, ao atuar em estúdios de gravação de 1941 a 1975 (que significaram 34 anos de carreira dedicados à gravação de suas obras), transformou-se no violonista com maior número de discos lançados no Brasil, somando um total de 40 discos de 78 rotações e 24 LP’s. A vasta discografia colaborou para o êxito pessoal do instrumentista, assim como contribuiu para a aceitação do violão nas diversas camadas sociais brasileiras.

No próximo número direcionaremos nosso olhar para a contribuição de Dilermando Reis na consolidação de um estilo de composição violonística caracteristicamente brasileira, bem como avaliaremos o legado deixado por este violonista que se fez conhecido no Brasil e que é referência, ainda hoje, no repertório para violão brasileiro, sendo considerado um cânone nesse estilo.

Alan Rafael de Medeiros é violinista e regente. Licenciado em Música, é mestrando em Musicologia Histórica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Dando continuidade à série sobre a vida e obra do violonista e compositor Dilermando Reis (1916-1977), abordaremos neste momento a trajetória do músico a partir de sua chegada ao Rio de Janeiro, centro urbano brasileiro da época, analisando as atividades profissionais que contribuíram significativamente para a consolidação do violonista no cenário nacional (a saber: sua atuação como professor de violão, seu trabalho nas emissoras de rádio cariocas e a gravação de suas obras em LP’s). Dilermando Reis chegou à capital Rio de Janeiro em companhia de seu então professor Levino Albano da Conceição, em 1933.

Era comum a Levino retornar ao Rio de Janeiro após seus recitais, se hospedando muitas vezes no próprio Instituto Benjamim Constant, local no qual era conhecido por todos. Mas ao chegar à capital com Dilermando Reis, a primeira coisa feita por Levino foi procurar o violonista João Pernambuco (1883-1947). É possível que o intuito de tal visita fosse apresentar o jovem violonista a um dos ícones do violão popular no Rio de Janeiro, iniciando assim os primeiros contatos de Dilermando Reis com o meio violonístico da capital.

Levino deixou Dilermando hospedado em um hotel e pagou quinze dias de estadia, afirmando que voltaria para buscá-lo, o que não ocorreu. Procurando a ajuda de João Pernambuco, a única pessoa que conhecia nos menos de vinte dias na capital, Dilermando passou a dividir com ele as despesas de um quarto. Quanto a este episódio disse Dilermando: “ – Eu vendo que Levino não voltava, resolvi lutar sozinho com meu violão”. A necessidade financeira proporcionada pela separação da dupla que formava com seu professor deu início à carreira do violonista, ainda que inicialmente de maneira turbulenta. Sua primeira atividade profissional se deu através do ensino de violão.

As lojas de instrumento contratavam professores para aumentar a procura e o interesse dos clientes, visando à ampliação das vendas. Dilermando, em um período de dois anos atuou em uma loja na Rua Buenos Aires, integrando em seguida o quadro de professores da loja Ao Bandolim de Ouro. Pela qualidade do ensino de Dilermando Reis, o dono da loja destinava a ele a maior parte dos clientes que procuravam por um professor de violão. E por último o violonista lecionou naquela que era frequentada por grande parte dos músicos cariocas da época, a loja A guitarra de Prata.

As atividades profissionais do violonista se ampliaram a partir do ingresso na Rádio Transmissora em 1936, incrementando os rendimentos de Dilermando, que até então se mantinha com dificuldades, sabendo-se que grande parte de seus alunos eram marinheiros que apareciam na capital esporadicamente com os navios. Após os três anos tumultuosos, a musicalidade e versatilidade de Dilermando Reis começaram a render outros trabalhos em emissoras de rádio, melhorando desta maneira a condição financeira do violonista.

Ao longo da década de 1940 o violonista passou a ganhar prestígio e novos alunos, devido à ascensão de sua carreira nas emissoras de rádio, bem como através do processo de gravação de seus discos, que se iniciava em 1941. Lecionou aos mais diversos indivíduos da população pobre do Rio de Janeiro que frequentavam as lojas nas quais trabalhou até a considerada elite carioca. Personagens como a atriz Bibi Ferreira (1922) e o ministro da Fazenda do Governo de Juscelino Kubitschek, Sebastião Paes de Almeida (1912-1975) estudaram violão com Dilermando Reis. Maristela Kubitschek (1942), filha do então Presidente da República, ao estudar com Dilermando, marcaria um período positivo na carreira do violonista. A partir desta interação, Dilermando e Juscelino iniciariam um longo período de amizade, que acabaria por beneficiar a trajetória do violonista até o fim de sua vida.

Dos violonistas compositores que formou cita-se Nicanor Teixeira (1928), cujas obras violonísticas de caráter nacional demonstram a influência exercida por seu professor. Dilermando deixou de lecionar somente em 1960 (somando, portanto 26 anos de atuação como professor do instrumento), quando a ampliação de seus compromissos como intérprete e compositor na gravadora Continental, sua atuação no quadro de músicos da Rádio Nacional, bem como o novo cargo de Delegado Fiscal da Receita (oferecido pelo então presidente Juscelino Kubitschek, no intuito de possibilitar dedicação exclusiva de Dilermando à sua carreira de solista, com rendimentos assegurados pela nova profissão ofertada), acabaram por deixá-lo sem tempo para lecionar.

Sabe-se que Dilermando Reis organizou a primeira orquestra de violões do Brasil, cuja atuação se dava nos estúdios da Rádio Clube do Brasil e nos cassinos da Urca e do Icaraí no Rio de Janeiro. Com o fechamento do Cassino da Urca em 1942, Dilermando desfez a orquestra. Contava com 10 integrantes, dentre eles o também aluno de Dilermando Reis Osmar Abreu (pai dos concertistas brasileiros consagrados Sérgio e Eduardo Abreu).

Durante os vinte e seis anos de dedicação ao ensino do violão, Dilermando disseminou a linguagem dos pioneiros do instrumento: as técnicas da interpretação contidas na música violonística de características brasileiras. Contribuiu significativamente para a difusão e continuação do repertório dos violonistas-compositores do início do século XX, pois além das gravações que realizou, sua metodologia de ensino reafirmou aquelas nuances técnico-interpretativas.

A inserção de Dilermando Reis nas emissoras de rádio cariocas (iniciada efetivamente, como já foi apresentado, em 1936) foi outro fator que contribuiu para seu sucesso e reconhecimento enquanto músico, encontrando no rádio o espaço que para ele foi fundamental na divulgação de sua obra. Trabalhou em algumas emissoras cariocas, e foi nesse contato com o meio radiofônico que passou a ser conhecido da grande massa do povo, tendo em vista que se tratava do período de desenvolvimento e ampliação das emissoras e da profissionalização musical, resultantes das novas possibilidades deste poderoso meio de comunicação.

 
 
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