Influenciado pelo alcance dos grafites de Os gêmeos, Onesto e Binho (internacionalmente reconhecidos) e admirador das obras do alemão Daim, do inglês Bankys e Obey, Glauber vê no grafite um movimento artístico efetivado e ilimitado por apresentar três características basilares: é jovem, é autodidata e surge na periferia.
Quando indagado sobre o seu estilo, responde de pronto: “Passei por diferentes fases. Fiz letras simples, trow-up (letras gordinhas em duas cores, preenchidas e contornadas), wild-style, 3D style e hoje estou tentanto eliminar os contornos de meus trabalhos, explorando mais o jogo de luz e sombra, tom sobre tom e degradês. Ainda estou em formação e definindo um estilo. No momento, a palavra híbrido é a que melhor me define”.
A predileção pelas paisagens urbanas permaneceu no itinerário de Glauber. O que mudou foi a sua relação com o grafite: “Se antes pintava a esmo, durante a madrugada, agora quero um motivo para pintar. Se agora tenho demanda, não posso partir para uma pintura gratuita. Me considero um artista e luto para desmarginalizar o grafite. Por isso, não posso ser um vândalo na noite. Não quero ser julgado um marginal, apesar de não considerar a minha arte como tal.”
Para Glauber Motta, “um grafite sem motivação, sem razão e sem temática é ruim, mas piores são a cópia e a repetição [...] Só a inovação garante um bom grafite e, sem dúvida, a técnica contribui muito”.
Na tentativa de eliminar o traço, o artista dos muros e paredes tem buscado eliminar o traço e modernizar o seu trabalho dando a ele um toque mais realista. Vê nos moldes (ou estêncil) sua “grande sacada” para trabalhar uma gama mais vasta de cores. É o atual caminho de sua profissionalização.
E a cultura de rua?
Glauber acredita que há uma nova geração desempenhando este papel e aponta o jovem Fatos como um dos principais nomes do grafite valeparaibano.
Sobre seus próprios desígnios, não hesita: “Vou morrer fazendo isso. Não sei aonde vou chegar. Tenho muito o que aprender. Muita coisa ainda não experimentei nem vivenciei. Decidi que não quero ser um pintor de parede. O grafiteiro pode ir além da parede, mas tem que ser empreendedor”.
Enquanto o futuro não se confirma, Glauber Motta segue enchendo as fachadas de cores sem jamais se esquecer do título do CD de Luís Fernando da Costa Ribeiro, o Nando (ou ND), cuja capa é de sua autoria: Los hechos jamas si acaban.
Alexandre Marcos Lourenço Barbosa é organizador de vários livros e ganhador do Prêmio Eugênia Sereno, do Instituto de Estudos Valeparaibanos, nos anos de 2007 e 2008.
As origens do grafite, tal como o conhecemos, são eminentemente urbanas e marginais... seus motivos... sempre periféricos... e os temas... transitam num cotidiano repleto de fatos, valores e sentimentos nada etéreos das pessoas comuns. O grafite é um resgate do direito de expressar o olhar através da arte. Uma arte de rua... na rua... e nua... desprovida dos referenciais acadêmicos que sempre emolduraram a criatividade.
Como desejo de livre expressão nasce o grafitismo, um movimento cultural centrípeto cuja dinâmica instala o desconforto (ao menos no centro) promovido por uma contestação radical e aberta, ao mesmo tempo que subterrânea e subversiva.
O grafite é a própria estética do instante... da velocidade... e o writer é a expressão do arrítmico e do fugidio que a caracterizam. De silhueta fugaz a perambular pelas noites praticando contravenções, o grafiteiro fez evoluir sua arte e ganhou novos spots. Das ruas aos espaços institucionalizados, do proibido ao permitido, das paredes às telas, o grafite é hoje reconhecido como Arte, como Street Art.
Das metrópoles para o interior, a arte nascida nas ruas das megacidades não tardou a chegar e é neste contexto que ecoam os grafites de um guaratinguetaense promissor.
Glauber Motta, ou simplesmente GBR, é jovem como a sua arte e sua trajetória descreve o espaço da similaridade. Autodidata, como quase todo grafiteiro, ainda criança fez do desenho uma compulsão. Sua lembrança mais remota resgata a publicação de um desenho seu em seção especial de um jornal de Cosmópolis-SP.
Seu despertar para o grafite aconteceu, em 1994, quando, identificado com a pichação, passou a preencher o tempo (e os cadernos) com desenhos e “letrinhas”. Tempo depois, seus insistentes pedidos fizeram com que seu pai o levasse para conhecer uma loja especializada em artigos para grafite, na Galeria 24 de maio, em São Paulo. Retornou para cidade natal trazendo na bagagem materiais importados e um famoso vídeo europeu (Dirty hands destruction of Paris) e outro nacional (A invasão) que logo o fizeram conhecido entre os kings (grafiteiros experientes e reconhecidos) de Guaratinguetá: Dé, Marcelo Bob, Oliveira, Côco, Chico Bento, Alex Gênio e Xandi Retoques. Glauber os chama de “pioneiros”, tributa a eles um papel único na consolidação do grafite como arte na cidade, reconhece a importância do trabalho social e voluntário feito por Oliveira e refere-se ao amigo João Paulo (Jota) como o grande parceiro com quem fez dupla no DMC (Destruidores de Muro Crew) entre 2000 e 2005.
Em 2007, depois de uma temporada em São Paulo, conheceu a técnica do estêncil e incorporou-a de imediato. Desde então, vem experimentando novos suportes, materiais e técnicas sem abandonar o spray.
Das experimentações nasceram algumas telas inscritas no Salão de Artes Plásticas “Ernesto Quissak” – 2008. O reconhecimento da crítica e do público catapultam o trabalho e a motivação de Glauber, o que faz com que, no ano seguinte, matricule-se no curso de Educação Artística da Faculdade Tereza D’Ávila, em Lorena-SP, sendo o único aluno a dominar a técnica do grafite.
“Quando entrei para a faculdade, o mundo se abriu.
Comecei a conhecer novas técnicas e outros artistas de outras épocas. O grafiteiro precisa estudar e eu sou um exemplo de que os grafiteiros estão buscando aprender e se aperfeiçoar”, diz ele.
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