Há tempos preso no teu chão
Nasci, renasci, voltei aqui
Contar e cantar, desencantar-se
Sonhar e insoniar-se, neste lugar
Se eu fosse desse mundo
Talvez me chamassem de Raimundo
Rimando com tudo: satisfação
Vasta mesma é minha indignação
Alguém tem que atender a porta
A porta não existe, estamos sós
Será que Deus esqueceu de nós?
Ou nós esquecemos de Deus?
À ironia
Figura requintada
Expressão alterada
Senso de humor
Amor e linguagem
Casamento duradouro
Palavra d’ouro
Ser irônico é ser
Criativo
Criador e
Criatura
Ironia armadilha
Jogo arriscado
Olhar buscado
Jogar figuras em olhares planos
Implantar palavras em figuras sinuosas
Dizendo pensamentos opostos
Insinuando...
Amor à linguagem é viver a palavra
Viver é I-R-O-N-I-Z-A-R
CAPITAL:
CIDADE vertical
Solidão, devaneio?
Agitação:
CIDADE perdida,
HOMEM perdido
MULTIDÃO:
Multidões
Fim de semana:
Fuga
Festa
Família,
Fim
Volta!
Fim do tédio:
FACULDADE!
Armadilha
Palavra é
Lava que
Escorre e
Corre
Corrente
Gente
Semente
Imediata
Espelho
Céu cinza
Pré-disposto a ser azul
Azul suavidade
Quer deixar o cinza solene!
O cinza e o azul
Brigam no céu
Sentem insatisfação
Unem-se:
Branco escuro
Tem um tom azulado, pálido
Pálidos os seres sentem-se
Quando olham para o céu
Há solução?
Fins
Tempo impreciso na organização de ideias
Ideias do povo. O novo!
Novo é o último, valoroso. O moderno!
Homem modernoso!
Não valoriza o momento e o lento
Quer imediatez, inúmeras informações
De uma única vez
O passado está enterrado
O “progresso” prevaleceu
O homem do meu tempo esqueceu. Leu?
Está ansioso pela transformação
Formação? Ação?
Não valoriza o seu próprio eu
O homem do meu tempo
Não tem tempo. Lento? Leu?
Morreu Eu...eu...eu...
Velocidade
Vozes
Voam
Velozes
Vasculham
Vãos
Vasos
Voam em
Vidraças
Vidros vão
Vasos Vazios
Vácuos
Vomitando
Vozes
Velozes
Vastidão
Ilusão
Cantam os pássaros
Liberdade!
Reclamam os homens:
Solidão!
A vida é nada
É verdade
O tempo passa
Tudo é vão!
Estamos fartos da
Fugacidade!
Falta-nos
Satisfação!
A vida é breve
É verdade
A realidade é ilusão!
O poeta rima o tudo com o nada
O poeta tem fome de palavras
A poesia não encontra no papel
As letras que o artista imaginou no céu
O céu do poeta é dimensão incerta
Tem possibilidades, uma obra aberta
O artista vê na obra a imagem de um ser
Um ser inacabado
Difícil de compreender
O poeta está farto de rimas que trazem
Satisfação. Quer poemas, rimas não!
O poeta cria, a poesia vem
Dois segundos, a rima também
Tem medo de sentir o peso do que diz
Quer a rima na busca do feliz
Vê a realidade pela observação literal
Cria modos e maneiras de enxergar o banal
Labirinto
Perseguições na selva
Homens e pedras
Selva não é espaço
Seres entorpecidos plurais
A selva são segredos
Imensidão
Corpos: arquitetura visível
Nebulosas arquiteturas:
As almas!
As almas não se encontram
Mas os corpos...
Alucinações na pólis
Homens pedras e softwares
Romances via internet
É a massa anti-humana,
Máquina
Extra-terrestres invadem a
Selva
Caçadores da loucura: anestesiados
Imaginem as almas:
Cidades
Não imaginem catástrofes
Que sintam as almas!
Lamento
Momento
Lento
Não sinto
O vento
O vento passa
O sol me abraça
Sol eu sinto
O dia é lindo
Minto, minto.
É enterro
Todos choram
Oram, oram...
Momento de luto
Hora de calma
Alma, alma...
Fim da vida
Despedida
Ida,ida.....
Onde?
Garoa fina
Cai
Menina Fina
Corre na
Esquina
Quase não
Chove
A menina
Corre...
Olha...
Descobre que
A chuva cai
Do céu e que
Lá mora Deus
Onde mora a
Menina da
Esquina?
Chuva fina
Miragem
Menina
O poeta assassina sua musa
Chama ela de cadela
Não lhe traz inspiração
Musa Maria Regina era um tesão
Anos 70 foi porta-estandarte
Premiada rainha do carnaval
Hoje faz ponto na Av. Brasil
Mulata que sambava, arte nacional
Musa Maria conheceu um gringo
Viajou com ele pra outras bandas
Virou madame, do poeta esnobou
Agradece a deus o ouro que encontrou
Hoje o poeta sonha com a nova musa
Musa Maria Maria Musa
Reconheci a exigência da pedra
Seus disfarces e revelações
Suas obras, anseios, limitações
Observo a majestosa dimensão
Procuramos desvendá-la
A pedra-enigma, eu e pedra
Admiramos sua unidade
Capacidade de solidão
Eu e pedra: contemplação
Vive eternamente o ser
Em meio a tantos outros
Tantas pedras, infinitas
Insistem e resistem ao tempo
Nos caminhos dos homens têm
pedras que sofrem eternamente
Paulo José de Castro Andrade, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, autor da dissertação Memória, ficção e aforismos: o cronista Brito Broca em formação, é professor e revisor de textos.
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