I
SONHO ESTRANHO, o que tive essa noite. Nele, eu estava chorando, mas tanto, que por vezes soluçava: pranto convulsivo, desesperado. De repente, fui tomado por calafrios e contrações. Engulhos de vômito. E de fato, no sonho, cheguei mesmo a vomitar.
Ao alívio, seguiu-se o espanto. Diante dos meus olhos, não havia nenhuma papa nojenta ou sopa gástrica, e sim algo mais sólido, surpreendente. De minhas entranhas, eu havia expelido um recém-nascido.
O absurdo não parou por aí.
Enquanto eu chorava, o bebê foi crescendo até atingir a idade de uns quatro, cinco anos. O garoto pôs-se de pé. Ficamos cara a cara, haja vista que eu estava sentado. Envergonhado, parei de chorar.
Olhamos um para o outro. Suas mãos enxugaram-me as lágrimas, ao mesmo tempo em que me sorria. Um sorriso cheio de ternura e familiaridade – luminosa janela, através da qual eu enxergava a paisagem do passado.
Mais que uma janela, era um espelho.
No reflexo, o menino estava mais crescido. Tínhamos agora a mesma idade, o mesmo rosto. Sorríamos.
II
OUTRO SONHO. Nesse, eu caminhava a olhar para o céu, contemplando a noite estrelada. A olhar tanto para cima, obviamente descuidava-me do solo, e por isso mesmo tropeçava a toda hora. Um desses tropeços me pôs de frente a uma criança.
Não posso afirmar se era menino ou menina. Só sei que era bela e alegre.
– Por que olha tanto para o alto? – ela perguntou.
Apontei minha resposta: “As estrelas. São muito bonitas”.
A criança sorriu. Depois, sem eu pedir, deu-me a flor que trazia presa aos cabelos.
– Sim, ela concordou, realmente são lindas. Mas acredite: nenhuma delas é mais bela que esta flor.
Contemplei-a por um instante; realmente, uma bela flor. Cheguei-a mais perto, aspirei-lhe o perfume. Senti-me entorpecido. A voz da criança soava-me longínqua, sussurrante:
– Acorde. Desperte enquanto é tempo. Não sonhe tanto. Os sonhos são como as estrelas: brilham muito, mas costumam estar longe, muito longe. E a vida, a vida está mais para as flores; não ostentam o brilho das estrelas, mas têm perfume, e podem ser tocadas a qualquer hora. Olhe o mundo... Não é um belo jardim?
Acordei. O luar entrava no meu quarto. Levantei-me e fui direto à janela. Olhei para o céu: o espaço todo estrelado, belo como um jardim.
Não sei por quanto tempo fiquei admirando o cintilar das estrelas. Só sei que, depois dessa noite, nunca mais sonhei com a tal criança.
Wilson Gorj, Escritor, autor do livro Sem Contos Longos gorj@jornalolince.com.br, omuroeoutraspgs.blogspot.com
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