No primeiro livro de Homem de Mello publicado em 1858, Estudos Historicos Brasileiros, quando ele ainda era estudante do 5º ano da Academia, o Prólogo da obra denuncia a visão do autor, para quem "Historiar é julgar; é chamar ao tribunal da razão os crimes e as virtudes dos homens que se foram; reprehendel-os, ou louval-os segundo os eternos principios da justiça. Encarados pela sciencia, os fatos symbolisam a traducção dos grandes principios que actuam constantemente na vida exterior dos povos; revestidos d'esse caracter é que elles merecem a attenção do historiador." Homem de Mello funde as idéias do advogado e do historiador e os fatos são elementos de julgamento, trazendo à tona a suposta verdade absoluta, denunciada pelos aspectos da infalibilidade científica. A obra reflete o pensamento vigente no período: a ciência, e nesse caso a jurídica, apresenta-se como explicadora de toda e qualquer realidade cotidiana.
No livro, nota-se a preocupação de Homem de Mello com o papel desempenhado por Dom Pedro I no contexto formativo da ideologia de interpretação da história nacional no período. O momento, ou seja, o ato da Proclamação do "Independência ou morte", torna-se referência: "O dia 7 de setembro symbolisa em nosso fastos um periodo portentoso que faz por si só a gloria de uma geração inteira" Ou ainda: "No dia 7 de Setembro de 1822, nos campos do Ypiranga, consumou-se esse acto portentoso, que abrio uma nova era no horisonte de nossos destinos".
Um dado interessante desse primeiro livro de Homem de Mello é que, como Anexo dessa obra, publica-se uma relação de livros existentes, e de seu conhecimento, que comentam a História do país. O autor chama essa parte de "Notícias das principais obras relativas à História do Brasil", relacionando de forma pioneira a bibliografia conhecida sobre o assunto, mostrando uma nova vertente da construção historiográfica nacional, ou seja, a apresentação das fontes de consulta. Essa bibliografia é a primeira produzida na Província e baseia-se diretamente no acervo existente na Academia de Direito de São Paulo.
O Brasil, ao final da primeira metade do século XIX, ainda descobre-se territorialmente e bibliograficamente, e esse dado marca uma das faces da política administrativa do Império que tem na presença de um Imperador identificado diretamente como "amante das ciências", uma característica de sustentação ideológica fundamental para as idéias em preparação. A nação como território efetivamente constituído iria emergir das idéias arquitetadas para constituí-lo como tal. O território é o elemento máximo das idéias, espaço central no qual se materializa o sentido da vivência cotidiana, e é esse espaço que pode ser usado como um dos elementos síntese da interpretação histórica do período.
Nesse sentido, a construção cultural da história e da geografia arquitetadas pelo Barão Homem de Mello, associando-as às imagens fotográficas organizadas por ele, e presentes no álbum, Província de São Paulo, é um ponto importante para o entendimento do cotidiano do período.
Nesse sentido, a construção cultural da história e da geografia arquitetadas pelo Barão Homem de Mello, associando-as às imagens fotográficas organizadas por ele, e presentes no álbum, Província de São Paulo, é um ponto importante para o entendimento do cotidiano do período. O território é visitado e catalogado quando fotografado, fazendo parte de uma estrutura de análise cotidiana que insere o autor/organizador em um roteiro imaginário.
Francisco Inácio Marcondes Homem de Mello penetra em um cotidiano em transformação na Província de São Paulo. Sua trajetória de vida, pública ou não, demonstra essa modificação, pois acontece em um momento significativo da história do país, que passava de uma colônia recém liberta, em 1822, para um país em busca de uma identidade com o fim das crises institucionais existentes desde a época das Regências, na primeira metade do século XIX.
O Barão e outras histórias
A cidade de Pindamonhangaba, terra natal do político, torna-se importante na história ideológico-formativa do Império brasileiro.
Cidade de Taubaté: Vista tomada do Convento de S. Clara (1855). 22 cm x 18,5 cm. Fotografia Albuminada. In: MELLO, Francisco Inácio Homem de.(org.).Província de S. Paulo. [s.l. : s.n.]. (Acervo Obras Raras, Biblioteca Mário de Andrade – SP). (imagem recolhida por James Roberto Silva).
Cidade de Silveiras: Vista da pequena e pittoresca cidade de Silveiras – tomada do morro da chacara do M. Ferreira; Em 29 de Julho de 1867. 21 cm X 9,5 cm (parte ovalada da imagem). Fotografia Albuminada. In: MELLO, Francisco Inácio Homem de.(org.).Província de S. Paulo [s.l. : s.n.]. (Acervo Obras Raras: Biblioteca Mário de Andrade- SP). (imagem recolhida por James Roberto Silva).
Cidade do Bananal: MELLO, Francisco Inácio Homem de.(org.).Província de S. Paulo [s.l. : s.n.]. Cidade do Bananal. Fotografia Albuminada; sem data; 12,5 cm X 16,3 cm. (Acervo Obras Raras, Biblioteca Mário de Andrade – SP).(Imagem recolhida por James Roberto Silva).
Cidade de Pindamonhangaba (2): Vista tomada da margem direita do rio Parahyba. Sem Data; 16,5 cm x 21,5 cm. Fotografia Albuminada. In: MELLO, Francisco Inácio Homem de.(org.).Província de S. Paulo [s.l. : s.n.]. (Acervo Obras Raras: Biblioteca Mário de Andrade – SP). (imagem recolhida por James Roberto Silva).
1Doutor em História Social pela FFLCH-USP, Professor e Assessor Acadêmico da Universidade Anhembi Morumbi-SP; Este artigo foi produzido a partir do estudo: “Olhos do barão, boca do sertão: uma pequena história da fotografia e da cartografia no noroeste do território paulista (da segunda metade do século XIX ao início do século XX)”. Tese de Doutoramento defendida na FFLCH-USP sob orientação do Prof.Dr. Marcos Silva, em dezembro de 2004. E-mail: acavenaghi@gmail.com
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