Apesar de ser o maior exportador do Planeta, com 280 bilhões de dólares em 2007, a Alemanha está atualmente em recessão, o que significa que a economia não está crescendo, mas sim está diminuindo nos últimos seis meses. Num momento de recessão e num mercado de trabalho tão regulado como o alemão (berço do sindicalismo), criação de novos empregos é algo raro, e a mão de obra cada vez mais qualificada é cara para os empregadores.
Não é de hoje que praticamente todos os postos de gasolina na Alemanha não têm frentistas, e os próprios motoristas é que precisam descer do carro, aprender a usar a bomba de gasolina, abastecer seu carro, e caminhar até ao caixa para pagar a conta. Quase sempre nenhum funcionário do posto de gasolina fica do lado de fora da lojinha de conveniência, onde o caixa se encontra. Isto também acontece em alguns outros países da Europa, mas não de forma tão uniforme e acentuada como na Alemanha. Outro detalhe sobre automóveis e postos de gasolina é o seguinte: até hoje, depois de quase um ano em Munique, ainda não encontrei nenhum "lavador de carros" que não seja a própria máquina de lavar carros automática, nos próprios postos de gasolina. Além disso, nos postos sempre existe um ou mais aspiradores de pó de muita potência, em que você coloca moedas e pode limpar seu próprio carro internamente. A consequência é que não existem empregos de "frentista" ou "lavador de automóvel". Assim como já não existe, há muito tempo, a profissão de cobrador de ônibus ou segurança do metrô.
Mas o que acabamos de nos dar conta é que um outro tipo de profissão poderá no futuro deixar de existir. Recentemente pudemos experimentar um supermercado que possui caixas automáticos, ou seja, sem nenhum funcionário no caixa. Você, com seu carrinho de compras cheio, passa todos os produtos naquela máquina que lê os códigos de barra, produto por produto, depois a máquina lhe informa (áudio e vídeo) o valor da conta, e você passa seu cartão de crédito com senha e assina o recibo na própria máquina. É claro que espera-se que você não se esqueça de passar nenhum produto.
Nos casos acima, fica difícil imaginar a mesma coisa acontecendo no Brasil. Certamente as máquinas podem chegar em breve, mas teríamos disciplina e consciência suficiente para tais situações? Qual seria a pena para aqueles que se esquecessem de pagar uma conta no caixa do posto de gasolina ou aquele que esquecesse de passar alguns produtos na máquina do supermercado? No transporte público, se você esquecer de pagar seu bilhete, você paga, se for flagrado sem bilhete, o valor de 40 Euros (aproximadamente R$ 100,00) no ato, ou então vai preso. Nem pensar em suborno. Não que isto não exista por aqui, mas talvez o valor do suborno neste caso seria algumas vezes o valor da multa.
E por que na Alemanha já não existem a profissão de "frentista" e a de "caixa de supermercado" começa a ser substituída por máquinas? Provavelmente, a cultura alemã não valoriza tanto aquele contato pessoal que nós brasileiros tanto valorizamos, seja do frentista limpando os para-brisas de seu automóvel, ou a do caixa do supermercado lhe perguntando se falta alguma coisa; isto aqui parece não fazer a menor falta, porém além do fator cultural, existe um outro fator que é o econômico. Na Alemanha de hoje, principalmente em Munique, pouquíssimos cidadãos alemães aceitam ou se sujeitam a trabalhar em qualquer tipo de trabalho por um salário mínimo que valha a pena sair de casa. Muitos preferem ficar em casa recebendo o salário-desemprego, que normalmente não tem prazo para acabar e normalmente equivale a aproximadamente 60% de seu último salário.
Basta que você tenha trabalhado por mais de um ano num determinado emprego, e, é claro, não recuse nenhum emprego oferecido pelo governo. Um salário médio que valha a pena em Munique é algo próximo de 1.000 Euros (R$2.700,00).
Aqui em Munique, o mercado de trabalho é muito caro pra quem precisa contratar funcionários, pelo menos que sejam legalizados. Não é nem o famoso "custo trabalhista" que existe no Brasil, mas sim que qualquer trabalhador, que tenha visto de trabalho legalizado, simplesmente não sai de casa pra trabalhar por pouco. É melhor ficar em casa recebendo do governo. Estudantes e jovens a partir dos 16 anos, podem aceitar "mini-trabalhos" que são trabalhos oferecidos por salários mensais de até 400 Euros (R$ 1.000,00 aproximadamente). Normalmente por 400 Euros, as pessoas trabalham somente dois dias por semana. As pessoas podem ter mais que um "mini-trabalho".
Empregado ou Empregada Doméstica na Alemanha? Quase ninguém tem. Por menos de 1.000 Euros ninguém quer este emprego. Na Internet e nos jornais, se encontram muitos "mini-trabalhos" de 400 Euros mensais por dois dias semanais, ou trabalhos que variam de 5 a 15 Euros por hora.
Em principio a mão-de-obra na Alemanha é bastante qualificada. Por exemplo, para ser cabeleireiro ou cabeleireira não é preciso fazer faculdade, mas precisa estudar três anos para exercer a profissão. Também se estuda por três anos para se formar "cozinheiro". Nas farmácias e drogarias, é obrigatório sempre existir um farmacêutico e, no mínimo, um técnico em farmácia que deve ter estudado também pelo menos 3 anos para o serviço. É proibido um funcionário nas farmácias e drogarias que não tenha estudado para isso. E, é claro, cabeleireiros e atendentes de uma drogaria recebem muito bem pelo serviço que fazem.
Com tanta educação e cursos gratuitos disponíveis, a mão-de-obra fica super-especializada e, portanto, os trabalhos que exigem poucos estudos praticamente desaparecem, ou porque não existem trabalhadores, ou porque os custos ficam muito alto.
Isto não significa que trabalhos como, por exemplo, de faxineira ou babás sejam desvalorizados, muito pelo contrário, se existir pessoas que desejam fazer tais trabalhos, e estejam legalmente permitidos a atuar nestas profissões, os mesmos são muitíssimo bem remunerados e valorizados.
Nestes tempos de crise financeira mundial, certamente que esforços governamentais para gerar e manter empregos são muito bem-vindos, mas não se pode deixar de pensar um país a longo prazo, ou seja, para as próximas gerações, é certo que a qualificação da mão-de-obra através da educação e estudo de nível técnico é o melhor caminho para construir uma melhor qualidade de vida no futuro.
Francisco de Assis Menezes Reis é engenheiro e reside em Munique, na Alemanha
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