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Ano 3 | Nº 26 | Março/abril de 2009
Memória
Aos dezeoitano dia d mêes d outubro – do año d graça d humille e setecenptos i vinte i outo.

Eu, Pero de Albvgvergve, fornecedor da casa em Portugal de nacimento austero i provinceano, pero de mui graan fidalguia per merecimento, me ui per subito improvizo movido a virme aas terras del Brazil de Sancta Cruz.

E vime arribado em ua terra a que os comes se trahen per intrigas i per enganos, i õde qual mais merecedor si faz si boa he sua língua aa louas.

Ñon me fui been cá. Ñon me uen das origins lotuar a quem non been mereça, i como merecimento em estas terras seja não como hu vento, me danei.

Quando per querer atarme de molda ao douta terra de mias origens, fui detido i preseo per intrigas, safeime en embenharme aas obscuras terras do interior do Brazil.

E nen meo nome foi pronunciado mas en boas graças, i nem soube o mundo da coor dos olhos de Pero de Albuquerque. Enterreime para o mundo i soube Deos proverme de sabedoria para viver ignorado como hu perro. Y tendo dado per infaustas as procuras de meo cadáver, tiveram per teen que hu pobre ome morto a aquees dias se me tomasse a fidalguia de cargo i nome para a coua.

Teve entonces Luiz de Magalhaens, alto infamante que teen per caça a fortuna alhea, que tomar o cargo en vacancea.

Já a dez años que fiz-me per esquecerem i dorme been na empreitada. Mas como boa fama tão como a infama corre, se de desfazer o que está certo se trata, deram-se como per provavel mia presença en este recanto cá per dez años, aa luz de hu belo ceo i remando al Rio Parahiba.

Rio de calma postura, fiz-me bom pescador como os boms da terra. Como espasso cousa en grãn tempo lucrasse o cuidado, fui me per necessario aiunterse con Phelipe Pedroso, i con João Alves i con  Domingos Garcia.

E os lucros asinha se vieram a noos.

De pesca i solidão sobravam os reeis que quase me permitiram oluidar a vida da coorte.

Como provia Deos corressem as cousas, corriam.

Corrian ate que o engenho d’El Rei de Hades me lançasse aos olhos a loucura en forma de dona.

E tendo a dona quem lhe desse nome ha mais que o paterno, ficou como inproprio i prohibido meos olhos de ve-la.

E soube o mezmo destino que ma Deo, dar a verdade aos que migo pescavam.

Mas souberam manter fechada a boca, pois me estimavan de pescar i achar preços.

Mia presença cá sobre ameaçada hu dia per Fernão de Brido, que indo aa metrópole se fez sabedor de hu pregão antigo ode se mia en palavras a feição de Pero de Albuquerque.

De volta me fez menção de que sabia do segreedo i per conversas non houve como fazer fugir lhe a verdade.

Mas tão bon calado como couro soube Fernão seelo mia vida seguiu como antemiera.

E segue, a depeendeer de mi i de ua falsidade que me fiz ciente, pero si falo a verdade iran dizer a Don Fernão que lhe veio con maas intençõens a dona i que tive i me tenho con ela.

Sendo Don Fernão ome de valor i penacho duro, me fara per matar o per contar que me viu i fazer que prendan a migo per resto da vida.

De toda esa arteirice que falei, solo me resta fazer cruzes na boca i calar para senpre.

Mas como os enganos son muitos, escrevo para os posteros i quando eo já non mimo foor, que se cuide o destino de trazer a luz meo relatório. XX

A hu año passo per ea o conde de Assumar i se fez parar na vila perto, que o nome non decoro, i quis comer pexe.

Tudo se deu XX, quando.

Como os preços se alçassem con a dignidade do conde, nos puzemos a caminho do rio para pescar muito, pões a comitiva era mui grande.

No trabalho muito se riam a valer João Alves i Phelipe i mingo, i como eo non soubera a razon do rizo mais se rian.

Contaram me entonces que iriam fazer ua arte i que era para fazer como se jogasse a rede i tirasse un sancto.

Non been entendi a trama i nem qual seu merecimento como arte, ate o ponto de pediren mui gran segreedo.

Mas tive que esperar pela falsa i que non muito durou.

Mingo trazia ua velha sancta de terracota i con a cabeza quebrada, i jogo a no fundo da canoa onde se molhava con água do parahiba.

E pescamos per todo o dia i voltamos carregados de toda especie de pexe que nosso trabalho pode.

E dice entonces Phelipe que era para dizer que non ouveramos pescado nada i que principiamos por pescar quando tiramos a sancta do fundo do rio.

Non em que de mal pudesse aver en esta mentira, pero logo me dei con a verdade.

O pexe foi vendido a bon preço i voltamos aas casas de Itaguassu.

A estoria do facto correu como un raio i se falava que fora un milagre.

Se fizeran entonces rezas na casa de Phelipe i mingo, ode ora i ora ficava a sancta.

Fizeram entonces un meeo de acender mãs velas apagadas i unos donas i sinhás se gritavam qui foe un gran milagre. Vieran muitissima gente dos arredores i se diziam boas dos males, pero era a custa da fé.

E cá se querian ficar o otros para estar pertos da sancta. João i Phelipe i mingo eran donos das terras do morro i como se fossem sen valor se puzeram a venderlas. E muito se fizeram de lucrar con isto.

Como sabedor da verdade me ui no dever de falar i los ameali.

Maes men fizeram que ameaçar, pões fizeram me ver que contariam a Don Fernão qui eo lo carneava.

Me prezo muito a pele e o pescoço. Calei como un tumulo i solo Deos i eo sabemos a verdade maes que os treis. Já passo hu año i a fama da sancta corre hu vento e los enrico.

Por isso escrevo este relatorio para que hu dia saiban que Pero non he hu covarde mas que se calo per necessidade.

Que corran los años mas a verdade non se renova, poes si assi foe assi terá o tempo que velo sendo.

Eo, Pero de Albuquerque, assino o que se lee, tôo verdade como a luz me alumia, i con meo próprio sangue para que se aceite como tal.

Que non me acusen no ceo de ser amante de enganos i falsidade, poes ainda que tarde me faço valer como ome.



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