Ano 3 | Nº 26 | Março/abril de 2009
Grafias
Contos de efeito moral | Wilson Gorj

REALIZAÇÃO PESSOAL

Nem completara 30 anos e já era um dos mais bem-sucedidos empresários do ramo de informática.

A que se devia tal êxito?

Atribuía-o à sua impetuosidade e determinação.

Ora, justamente por conta desses atributos, tomou uma decisão, no mínimo, incomum: doar todos os seus milhões.

Disposto a começar do zero, investiria, agora, em outra área de atuação.

Foi assim que transferiu toda sua fortuna a instituições filantrópicas, ficando apenas com o suficiente para comprar um carrinho de lanche, com o qual tentaria viver da venda de x-burgueres e hot dogs.

Em pouco tempo, porém, contratou funcionários e multiplicou os tais carrinhos. Abriu restaurantes. Criou e ampliou uma franquia especializada em fast food.  Por incrível que pareça, só foram necessários cinco anos para que ele chegasse à condição de maior empresário deste setor.

Novamente, impetuoso e determinado, tomou a mesma decisão: doou sua riqueza e escolheu outra profissão para começar tudo de novo. O desafio, agora, seria ainda maior.  Tentaria a profissão de pedreiro.

Tanto se empenhou e trabalhou, tanto aprendeu e ousou que, num prazo de poucos anos, conseguira tornar-se um dos grandes empresários da construção civil.

Desta vez também não foi diferente. Repetiu o mesmo esquema.

E foi assim que passou da profissão de motorista a dono de umas das mais conceituadas transportadoras do país; de mecânico de automóvel a sócio de uma das montadoras de veículos mais ricas do mundo.

A última doação milionária fez movido por algo que vinha crescendo em seu íntimo. Completara 60 anos e desejava consagrar-se poeta. 

Reuniu alguns versos e publicou seu primeiro livro.

Depois, seguiram mais três volumes de poemas, os quais venderam tanto quanto o de estréia. Ou seja, quase nada, um verdadeiro fiasco editorial. Ele, que sempre convivera com o sucesso e a riqueza, experimentava agora a pobreza e o fracasso.

Viveu assim até os 68 anos, idade em que a Morte veio buscá-lo. Levava com ela um homem feliz e realizado.

SECURA

Torneira aberta, a água jorrando. O homem escova os dentes. De repente, a torneira engasga, tosse algumas gotas e, por fim, um suspiro seco.

Para certificar-se da falta da água, o homem aciona a descarga da privada – por sinal, também seca.

A boca ainda cheia de espuma dentrífica, o homem vai à cozinha e abre a torneira da pia, alimentada pela água da caixa. Mesmo resultado: nada sai.

Tal secura lhe provoca sede, tremenda sede.

Limpando a boca na manga da camisa, apanha um copo e o põe debaixo do filtro de barro. E – triste constatação – nenhuma gota!

A sede se intensifica, converte-se em desespero. Água... Água! Onde encontrar água?!

Sai de casa, constata que faz um sol de lascar. Nas calçadas, árvores esturricadas, desfolhadas. As ruas estão desertas. Não há nenhum sinal de vida. Sequer venta. Tudo estático. E quente, muito quente.

O homem, então, escuta um borbulhar distante. De imediato, vem-lhe à lembrança a imagem redentora: a fonte pública! Água!!

Corre em direção à praça.

Lá, porém, percebe o próprio delírio: a fonte está tão seca quanto a sua garganta.

Em vão tenta chorar. Não há lágrimas. Seus olhos também são duas fontes que secaram.

Wilson Gorj
Escritor, autor do livro Sem Contos Longos

gorj@jornalolince.com.br
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