Viva o Brasil
Onde o ano inteiro
É primeiro de abril
Millôr Fernandes
E cruzam-se as linhas
No fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.
Guilherme de Almeida
Silêncio:
cigarras escutam
o canto das rochas
Matsuo Bashô
Acabou a farra
formigas mascam
restos da cigarra
Paulo Leminski
E um vaga-lume
lanterneiro que riscou
um psiu de luz
Guimarães Rosa
Hoje não me alegram
as amendoeiras do horto.
Me lembro de ti.
Jorge Luis Borges
Na poça de lama
como no divino céu,
também passa a lua.
Afrânio Peixoto
Virada do morro:
Ipê e seu grito amarelo
perpendicular.
Eolo Yberê Libera
Verão de mar brilhante
e o dia marcando passo
na maré vazante
Winston
Noite fria, escura,
no asfalto negro da rua
late o cão vadio.
Fanny Dupré
Mar não tem desenho
o vento não deixa
o tamanho...
Guimarães Rosa
Agora é inverno
e no mundo uma só cor;
o som do vento.
Matsuo Bashô
Cada haikai
uma nova peça
num quebra-cabeça sem fim
George Swede
Todos dormem.
Eu nado na noite que
entra pela janela.
Robert Melançon
O canteiro assiste:
a antúrio, falso perjúrio,
pões o dedo em riste.
Flora Figueiredo
Primavera
- até a flor do algodão
quer ser amarela
Wilson Bueno
A cigarra anuncia
o incêndio de uma rosa
vermelhíssima
Dalton Trevisan
Lá vai o mendigo,
Céu e Terra o estão vestindo:
roupagens de verão!
Kikaku
Num atalho da montanha
Sorrindo
uma violeta
Matsuo Bashô
Sobre a laje fria
diz adeus à primavera
uma rosa murcha.
Fanny Dupré
No parque vazio
duas árvores abraçam-se
em prantos de chuva
Eugénia Tabosa
E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino.
Tuas mãos nas minhas.
Guilherme de Almeida
Nuvens inquietas
sobre o lago
zen.
Yeda Prates Bernis
longa conversa
um grilo termina
o outro começa
Ricardo Silvestrin
as nuvens, meu irmão,
são leviandades
da criação
Há colcha mais dura
que a lousa
da sepultura?
Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.
Com que habilidade
Você estraga
Qualquer felicidade!
Nos dias quotidianos
É que se passam
Os anos.
O desenvolvimento cerebral
Nunca se compara
Ao abdominal.
Não é segredo.
Somos feitos de pó, vaidade,
E muito medo.
No falecimento
Lenço grande demais
Pro sentimento.
Eremita, me afundo
No deserto, pra ser
O centro do mundo.
Esnobar
É exigir café fervendo
E deixar esfriar.
Aniversário é uma festa
Pra te lembrar
Do que resta.
Olha,
Entre um pingo e outro
A chuva não molha.
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