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Ano 3 | Nº 26 | Março/abril de 2009
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Reinventando a roda: o trem-bala no Vale do Paraíba | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

A decisão do governo brasileiro de implantar uma linha de trem de alta velocidade ligando os dois mais populosos centros urbanos do país, São Paulo e Rio de Janeiro, literalmente coloca em primeiro plano uma questão fundamental: manter as rodas sobre os trilhos ou reinventá-las?

Não é trato metafórico daquilo que por milênios considerou-se superfluidade. Trata-se, na verdade, de decidir pela abolição ou não da roda, o que não é uma decisão simples.

Com roda sobre trilhos, a primeira geração de trens-bala apresenta algumas limitações técnicas superadas pela tecnologia maglev (levitação magnética) desenvolvida por alemães e japoneses e disponível no Brasil a partir dos estudos realizados pela Coppe (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia) da UFRJ desde meados de 1990.

Os estudos realizados pela Coppe-UFRJ acrescentam a tecnologia de supercondutores às duas já existentes: a eletromagnética, criação alemã, utilizada em Xangai, desde 2003, ligando o Aeroporto Internacional ao centro da cidade; e a eletromagnética, desenvolvimento japonês que atingiu a marca recorde de velocidade superando 580 km/h.

A tecnologia desenvolvida no Brasil “só foi possível com o surgimento das pastilhas cerâmicas supercondutoras de alta temperatura crítica e dos super-ímãs comerciais [...] Sua grande vantagem é a redução de custo, uma vez que não exige controle eletrônico da levitação, que ocorre naturalmente”, informou o pesquisador Eduardo Gonçalves David, em artigo assinado por Nilder Costa, em dezembro de 2007.

O maglev-cobra é defendido pelo pesquisador como a alternativa tecnológica, econômica, social e ambiental mais adequada ao projeto que mudará a fisionomia valeparaibana.

Em seu livro O FUTURO DAS ESTRADAS DE FERRO NO BRASIL (Editora Portfolium), título homônimo ao publicado em 1859 por Cristiano Benedito Otoni (Patrono das Ferrovias no Brasil), Dr. Eduardo David discute, entre outros temas, a instalação de Trens de Alta Velocidade (TAV) no Vale do Paraíba. Eduardo David é engenheiro civil, mestre e doutor em engenharia de transportes pela COPPE/UFRJ e pós-doutor em Levitação Magnética no Instituto Leibniz, em Dresden, Alemanha.

Questionador, o livro “instiga o leitor a repensar as ferrovias e trilhar o futuro, evitando que se cometam os erros do passado, quando interesses políticos e empresariais menores foram capazes de atrasar o desenvolvimento do transporte ferroviário em um país de dimensões continentais com o Brasil”.


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Didaticamente e interessado em se fazer entender pelo leitor leigo, o autor assim conclui a segunda parte de seu livro (p. 104):

“Preparando a reflexão para o Futuro das Estradas de Ferro no Brasil, é preciso notar que o TAV atual, como todo seu propalado avanço tecnológico, nada mais é do que o aperfeiçoamento da velha tecnologia roda-trilho. Tal como a máquina de datilografia, que de mecânica foi evoluindo, de simplesmente elétrica para no final de sua vida dispor de esferas de tipo intercambiáveis. No entanto, o editor de texto no computador pessoal e impressora doméstica a jato de tinta ou laser a tornaram peças de museu.

Diante de novas opções tecnológicas, não tem sentido se contentar com o que brevemente vai ser descartado. O Brasil não precisa ser um mero mercado consumidor, importador de tecnologia defasada, como aconteceu na implantação da indústria automobilística por JK, quando tem a grande oportunidade de dar um salto tecnológico e colocar-se na vanguarda. É preciso quebrar paradigma”.

Para o Vale do Paraíba, o pesquisador propõe seis estações intermediárias para atender pólos populacionais e econômicos sem gerar atrasos visto que o Maglev atinge a velocidade de 300 quilômetros horários em 5 km. Incluídas entre as estações-shopping sugeridas estariam Aparecida-Guaratinguetá, Taubaté-Pindamonhangaba e São José dos Campos-Jacareí.

Uma vez realidade, o Brasil será o primeiro país das Américas a possuir um trem-bala, e, a cada quinze minutos, a partir de 2015 (data que já começa a ficar improvável), um TAV, com mais de 800 passageiros e a mais de 300 km/h, rasgará o Vale unindo, em 85 minutos, os 403 quilômetros que separam a Estação da Luz, em São Paulo, da Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

A Lei n. 11.297, de 9 de maio de 2007, em seu artigo 9, autoriza a construção de ferrovias destinadas à operação de trens de alta velocidade e outorga ao Ministério dos Transportes os trabalhos de viabilização, coordenação e regulamentação. Resta saber que critérios serão imperativos na decisão a ser adotada.

Nesta edição, O Lince traz, na seção Ágora, uma contribuição ao debate através de artigo enviado pelos pesquisadores doutores Richard M. Stephan e Eduardo G. David, respectivamente coordenador e gerente executivo do Projeto Maglev-Cobra da Coppe/UFRJ.



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