É praticamente impossível pensar na obra brasileira para violão solo sem levar em consideração a representatividade que exerceu o violonista e compositor guaratinguetaense Dilermando Reis. Como integrante de um grupo de precursores na criação de uma linguagem violonística de caráter nacional, Dilermando influenciou toda a geração subsequente de violonistas através de sua extensa obra para o instrumento. Se pensarmos que a divulgação do violão no Brasil da década de 1960 esteve vinculada ao movimento da Bossa Nova e à popularidade da obra e da pessoa de Dilermando Reis, entendemos quão significativa foi sua contribuição na afirmação deste instrumento.
Dilermando dos Santos Reis nasceu em 22 de setembro de 1916 em Guaratinguetá, no período de maior desenvolvimento demográfico, econômico e cultural desta cidade, impulsionado pela sua localização no Vale do Paraíba (centro do desenvolvimento cafeeiro nacional).
O pai de Dilermando, Francisco dos Santos Reis (1877-1954) conhecido na época como Chico, era violonista amador e foi o primeiro professor do filho. Logo após a iniciação no aprendizado violonístico, o garoto foi encaminhado ao conceituado professor de violão local Lauro Santos, que dirigia um grupo carnavalesco do qual Dilermando fez parte. No período de seu aprendizado musical o jovem violonista teve ainda como professores de teoria os músicos Bomfiglio de Oliveira (1890-1940) e o maestro Benedito Cipolli (1896–1959). Cipolli era compositor e flautista, assim como conhecedor do violão, tendo reconhecido em Dilermando as qualidades necessárias para a construção de uma carreira musical promissora.
Dilermando abandonou a escola aos quinze anos de idade, pois a dedicação do adolescente à sua evolução musical passou a afetar seu desempenho nos estudos. Nesse período, sua interpretação musical começou a se destacar pela clareza e particularidades interpretativas, de modo que nesse período era considerado o melhor violonista de Guaratinguetá. Este reconhecimento está ligado também à divulgação feita por seu pai que mostrava o filho violonista à vizinhança e levava-o às noites de serestas em Guaratinguetá, uma vez que devido à precariedade de meios para a divulgação dos acontecimentos importantes que ocorriam, característica das localidades periféricas em relação aos grandes centros urbanos da época, a fama pessoal era alcançada através da atuação em eventos realizados nas cidades.
Foi justamente nesse ambiente de divulgação das qualidades musicais do jovem Dilermando Reis como violonista em Guaratinguetá que ele foi apresentado ao concertista nacionalmente conhecido Levino Albano da Conceição (1895-1955), que se encontrava na cidade para a realização de recitais.
Dilermando iniciou sua vida profissional e consequentemente o caminho para seu êxito como violonista solista no Brasil a partir desta interação com Levino, o professor mais significativo de Dilermando, que contribuiu significativamente para o desenvolvimento das qualidades violonísticas do jovem músico em formação.
Sabendo-se que tanto o repertório incorporado quanto a técnica adotada por Dilermando Reis ao longo de sua carreira violonística são oriundos de um período anterior ao seu desenvolvimento musical, abro aqui parênteses proposital e oportuno, com o intuito de discorrer sobre os violonistas antecessores de Dilermando, responsáveis pela criação e desenvolvimento desta corrente que foi adotada e disseminada pelo violonista guaratinguetaense.
As primeiras tentativas de elevar o violão à categoria de instrumento sério no início do século XX não foram bem sucedidas, tamanha era a associação deste à boemia.
Alan Rafael de Medeiros, violonista e regente, licenciado em Música pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), aluno do Programa de Pós-Graduação em Música - Mestrado, linha de Pesquisa - Musicologia histórica; realiza as mais recentes pesquisas (iniciadas em 2006) sobre a trajetória e a obra do violonista e compositor Dilermando Reis.
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