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Ano 3 | Nº 30 | Novembro/ dezembro de 2009
Memória
Cora Coralina no Vale do Paraíba | Rita Elisa Seda1

A máscara lírica Aninha é um resgate da infância vilaboense de Anica, Anoca, ou seja, de Anna Lins dos Guimarães Peixoto – Cora Coralina. Onde ela traduz em poesia suas reminiscências lúdicas, religiosas, normas de educação e estórias.  A semente Aninha foi gerada, germinada e cresceu em Vila Boa de Goyaz, capital da província. Ao sair do estado, rumo ao sul, foi mãe, esposa, avó, jornalista, contista, cronista, poeta, política, religiosa, ambientalista e comerciante. Depois de uma sua odisséia pelo estado de São Paulo retornou para suas raízes.

Há muito de Cora Coralina no estado de São Paulo, nas cidades onde morou: Jaboticabal, São Paulo, Penápolis e Andradina ela deixou a marca coralineana de suas idéias, em palavras orais e escritas.  Foi paulista por devoção e tanto amou o estado que durante a revolução de 1932 deu sua aliança de ouro em prol da causa. Uma aliança que há tanto almejava, que há pouco tempo havia conseguido e tão logo trocou-a por uma simples aliança de metal menos nobre que o ouro, mas uma aliança mais nobre em sentimentos pátrios.  Sim, Cora Coralina era paulista de coração. Sua bisavó Bueno tinha o sotaque dos “polistas”, como ela mesma citou:

“Minha bisavó contava, não por ela mesma que isso é revelho, de ouvir contar a outra sua bisavó. Vovó Bueno, com sua fala arrastada de ‘polista’, nora de Anhanguera, aquela mesma que na velhice, viuvez e pobreza, teve de repor com seus lavrados e de suas filhas, certa arroba de ouro, pedida pelo velho bandeirante e de cuja dádiva antecipada discordou do Rei de Portugal” 2.

Descendente do Bandeirante Anhanguera, Cora não negou a raça dos Buenos. Bartolomeu Bueno da Silva Filho, voltou depois de 40 anos para fundar Goyaz e Cora Coralina, depois de morar 45 anos no estado de São Paulo voltou para Villa Boa de Goyaz. A atração natural da Serra Dourada é um imã que atrai os que ali cascatearam na lavra. Mesmo que isso demorasse anos, voltavam. Cora Coralina deixou no estado de São Paulo, seus filhos, seu sítio, suas criações, suas plantações, seus amigos e vizinhos. Foi viver sozinha na Casa Velha da Ponte da Lapa, seu primeiro lar, mundo de Aninha.

“Hoje meus filhos moram no todos em São Paulo e eu aqui. Nem eu tenho vontade de ir para perto deles, nem tenho vontade de que venham para perto de mim. Porque acho bom assim. Não quero mais limitação na minha vida. Fui limitada na primeira infância, fui limitada de menina, fui limitada de adolescente, fui limitada de casada e não quero ser limitada depois de velha. Hoje não me sinto livro, me sinto liberta. Não quero mais limitação na minha vida. Não há nada que valha para mim a minha libertação” 3.

Em sua obra e vida há um entrelaçamento com o Vale do Paraíba. Logo no primeiro livro ela conta a historia do Prato Azul Pombinho. Uma “estória” contada pela Mãe Yayá, bisavó de Cora Coralina, sobre um aparelho de jantar que tinha sido encomendado de um senhor Cônego de Goiás para o casamento de seu sobrinho e, também, afilhado, que por sinal ia se casar com uma das filhas de Mãe Yayá. E, assim, um carro de boi de 15 juntas e 30 bois partiu em busca da encomenda. Junto iam seis escravos escolhidos a dedo e um feitor de confiança. Nessa longa jornada levavam mantimentos e ouro escondido dentro de um berrante (para alguma eventualidade). O carro de boi foi rechinando estrada fora, passou vilas, cidades, campos e sarobeiras. Atravessou o rio em balsa e seguindo trajeto atravessou Goiás, cortou o sertão de Minas, o planalto de São Paulo, foi receber o aparelho e mais sedas e xales da índia na cidade de Caçapava. Isso mesmo, aqui no Vale do Paraíba, onde era a “ponta dos trilhos da Dão Pedro Segundo – / ali por volta de 1860 e tantos. / Durou essa viagem, ir e voltar, / dezesseis meses e vinte e dois dias”. Enquanto isso, o casamento ficou suspenso, esperando a encomenda chegar. Cora Coralina faz uma ressalva numa das primeiras páginas do livro, diz que o livro não era de versos e nem de poesia... e sim, uma maneira diferente de contar velhas “estórias”.

Outro fato que alinhavou a vida de Cora Coralina ao Vale do Paraíba foi a publicação da crônica Idéias e Comemorações pelo jornal O Estado de São Paulo, em 03 de outubro de 1921. No artigo sugeriu a exibição de filmes retratando a cultura de todos os estados da Federação, o que, segundo ela, atrairia turistas e divulgaria as belezas do país. Ela dedicou essa crônica ‘ao dr.  Monteiro Lobato’. E, é claro, o ilustre escritor valeparaibano entrou em contato com Cora Coralina e convidou-a para enviar textos à Revista do Brasil. Mantiveram uma correspondência por pouco tempo. Lobato a elogiou e disse que já havia lido alguns artigos dela na Revista Feminina. “Aguardo as suas ordens e peço que disponha deste humilde criado e velho admirador. M. Lobato”, escreveu numa das cartas em 10 de janeiro de 1922.


(Clique na imagem para ampliar)

Casamento de Jacyntha Philomena, filha de Cora Coralina, com Flávio Salles. Na foto aparecem os noivos, os outros três filhos de Cora, sua irmã Vicência, os três netos, amigos e a poetisa de Goiás. Foto tirada em frente ao Hotel Central, em 24 de junho de 1938.

Outra passagem importante na vida de Cora Coralina e que é um registro histórico riquíssimo é o casamento de sua filha Jacyntha Philomena com Flávio Salles em Aparecida do Norte. Foi no dia 24 de junho de 1938. Há uma foto do acontecimento, onde aparecem os noivos, os outros três filhos de Cora Coralina, a Vicência (irmã dela), os três netos dela, os amigos e, é claro, a Cora Coralina. Um registro para a posteridade, fotografia feita em frente ao Hotel Central, perto da Igreja Matriz de Aparecida do Norte.

Reconhecida nacionalmente por causa de uma crônica escrita por Carlos Drummond de Andrade e publicada no Jornal do Brasil em 27 de dezembro de 1980, sob o titulo ‘Cora Coralina, de Goiás’, onde o poeta tece elogios à poeta que para ele é a pessoa mais importante de Goiás.  Difundiu em toda nação brasileira a procura pelos versos coralineanos. Muito requisitada com premiações e homenagens, a poeta viajou por muitos estados. Dentre os lugares que a homenagearam está a Câmara Municipal de Taubaté que em 1983 entregou a Cora Coralina o título Mulher Destaque. A poeta compareceu à cerimônia e foi elogiada pelos vereadores que compunham a sessão. Tiraram fotos, fizeram discursos, se emocionaram. Não há uma registro-ata desse acontecimento na Câmara Municipal de Taubaté, mas os que ali estiveram contam com carinho a emoção de ver a poeta Cora Coralina declamar ‘Estas mãos’.

“Olha para estas mãos
de mulher roceira,
esforçadas mãos cavouqueiras.

Pesadas, de falanges curtas,
sem trato e sem carinho.
Ossudas e grosseiras.

Mãos que jamais calçaram luvas.
Nunca para elas o brilho dos anéis.
Minha pequenina aliança.
Um dia o chamado heróico emocionante:
- Dei Ouro para o Bem de São Paulo”
4.

E, para o bem do Vale do Paraíba, Aninha desde sua infância escutava de sua bisavó Yayá ‘estórias’ ligadas ao Vale do Paraíba; dona Cora Brêtas por aqui passou testemunhando o casamento de sua filha; a cronista Cora foi amiga de Monteiro Lobato e a poeta Coralina foi Mulher Destaque para nosso Vale.  Um vale de ‘estórias’ tem aqui.

1 Rita Elisa Seda é cronista, romancista, poeta e jornalista. Pertence à Academia Valeparaibana de Letras e Artes – AVLA ; à União Brasileira de Escritores U.B.E do estado de São Paulo; escreve para vários jornais do Vale do Paraíba. Atualmente, em conjunto com Clovis Carvalho Britto escreveu a fotobiografia Cora Coralina: Raízes de Aninha, pela editora Idéias e Letras, em comemoração aos 120 anos de nascimento da poeta.

2 CORALINA, Cora. O tesouro da Casa Velha da Ponte, Editora Global, 4ª. Edição, 2001, p. 44.

3 In: BOTASSI, M. Cora Coralina conta um pouco de sua história, p.9.

4 CORALINA, Cora. Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Editora UFG. 2ª. Edição, 1979, p.33.



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