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Ano 3 | Nº 30 | Novembro/ dezembro de 2009
Grafias
A Epopéia Caipira em Valdomiro Silveira1 | Célia Regina da Silveira2

A preocupação em elaborar uma identidade étnico-cultural brasileira foi assumida com ardor pela intelectualidade nacional. Na tentativa de descobrir os problemas brasileiros e como solucioná-los, os intelectuais pautaram-se pelas teorias cientificistas européias, acomodando-as e adaptando-as à realidade do País. Deste modo, eles portaram-se como os lumes, ou seja, os verdadeiros representantes dos novos ideais, ao considerarem-se os únicos capazes de assegurar o futuro da nação brasileira.

No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, a discussão em torno da criação e da consolidação do Brasil como uma nação moderna deu-se no âmago dos debates da elite letrada. Isso estimulou o próprio desenvolvimento da produção cultural e científica, pois para se firmar como nação era necessário “vasculhar” a sua história. Os intelectuais do período buscaram freneticamente conhecer o País, destacando a sua composição étnico-cultural, suas tradições, suas características lingüísticas, religiosas, etc.

Esse processo levou a intelectualidade paulista a buscar para si uma representação do nacional, voltada para sua história e elaborando um passado glorioso. Numa primeira etapa, esta intelectualidade ressaltou o empreendimento bandeirante, acreditando ser ele o responsável pelo desbravamento e ocupação dos espaços longínquos da “civilização”. No momento seguinte, época de sua hegemonia econômica, com o desenvolvimento da lavoura cafeeira em terras desbravadas pelos bandeirantes, despertou-se o interesse pelo caipira paulista.

Na transição do século XIX para o século XX, era forte a busca da tradição paulista mediante os estudos sobre a História, a Geografia e a Antropologia da região, bem como o estímulo à criação de uma literatura local. O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, o Museu Paulista e a Academia Paulista de Letras representaram muito bem as instituições norteadoras desse projeto. Uma série de autores, vinculados ou não institucionalmente a estas agremiações, trouxeram à cena da literatura regional figuras do caboclo e/ou do caipira. Valdomiro Silveira foi um dos seus expoentes.

O autor nasceu em Cachoeira Paulista, em 1873. Viveu sua infância e juventude no interior do Estado de São Paulo, onde, aos 14 anos, já escrevia para os jornais de Casa Branca sobre assuntos políticos e literários. Sua primeira publicação foi o soneto A Estátua, num jornal local, o Bem Público. Mais tarde transferiu-se para São Paulo, diplomando-se em Direito pela faculdade do Largo de São Francisco no ano de 1895. Este deslocamento espacial parece ter sido importante para Valdomiro Silveira no tocante a sua construção ficcional. O distanciamento do mundo rural de sua infância despertou-lhe uma espécie de nostalgia, implicando uma maior sensibilidade diante daquela realidade.


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Em 1894, Valdomiro Silveira publicou o seu primeiro conto nitidamente regionalista, Rabicho, no Diário Popular de São Paulo. Apesar de seu primeiro livro, Os Caboclos, vir a público somente em 1920, a quase totalidade dos contos que compõem a sua obra foi escrita entre 1895 e 1896. Além de seu livro de estréia, publicou: Nas Serras e nas Furnas (1931), Mixuangos (1937) e obra póstuma Leréias: histórias contadas por elles mesmos (1945).

Além dos contos, Valdomiro Silveira publicou crônicas em diversos periódicos brasileiros, principalmente no jornal O Estado de São Paulo. Segundo sua filha, Júnia Silveira Gonçalves, ele também escreveu uma novela sertaneja, A Sina de Nhara, que não foi publicada, assim como dois outros livros de contos, Mucufos e Caçadores, e também uma coletânea de assuntos vários, Simplicidade.

1 Este texto é fruto da pesquisa realizada para a elaboração de minha dissertação de mestrado, financiada pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), defendida em 1997, com o título A epopéia caipira: Valdomiro Silveira e a literatura regionalista, na Universidade Estadual paulista, campus de Assis.

2 Doutora em História pela Universidade Estadual Paulista, campus de Assis. Professora da Universidade Estadual de Londrina – UEL – PR. E autora do livro Erudição e ciência: as procelas de Júlio Ribeiro (1845-1890). São Paulo: Editora UNESP, 2008.

Para ler o texto completo, baixe a versão em pdf clicando na imagem abaixo.

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