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Ano 3 | Nº 30 | Novembro/ dezembro de 2009
Grafias
Cabelo | Eliana Pereira Maciel

Vira, pediu a mãe. O pente desliza pelos fios do longo cabelo da menina. As mãos da mãe colocando-a de frente. O pente na franjinha. É melhor fechar os olhos. Pronto. Vá guardar o pente e calçar os sapatos. No quarto, duas camas de solteiro. A irmã está na escola. A meia branca com dois pompons pendentes, o sapato com uma fivela minúscula. Olha no espelho: uma menina de cinco anos sorri. O vestido cor-de-rosa que a mãe costurou. Tecido aflanelado, mangas compridas, corte godê. Gola redonda arrematada por um lacinho. A moldura: o cabelo. De lado para o espelho, o observa: loiro dourado, volumoso e liso, até quase a cintura, quando encaracola, suavemente. Sente-se bonita. Vai passear com a mãe. Alcança-a no corredor, segura sua mão. Saem, trancam o portão azul. Ansiosa, olha a calçada. Alívio. Nenhum vizinho por perto. Mamãe não vai parar para conversar. Caminham juntas. Com o pai é diferente: três passos, uma corridinha, três passos, uma corridinha - para acompanhar as passadas dele. A casa da Dona Alice, da Dona Hilda, da Dona Carminha, a rezadeira. Passa as pontas dos dedos pelas paredes. Gostoso. Sente as texturas, a temperatura, o relevo. A pracinha da Prefeitura onde brinca com as amigas. A Rua Feijó, o edifício alto que acabaram de construir. Olha para cima, sente uma leve vertigem. Segura com mais força a mão da mãe. Os dedos da outra mão de novo na parede, os olhos cerrados: parede que pinica... pedra lisa... grade fria... portão aberto. A mãe: tira a mão da parede empoeirada, vai se sujar! Obedece. Caminha com o pescoço enrijecido para sentir o balanço do cabelo nas costas... pra lá, pra cá. Sabe que é bonito. A mãe sempre reclamando do trabalho que é desembaraçar, do tempo gasto. A tia tem paciência, desembaraça-o devagar, para não machucar. Tem tempo, não tem filho, diz a mãe. Outra praça. A Matriz, onde vai beijar o Senhor Morto. É estranho. Demoram-se na fila, beijam todos uma fita e ganham uma pequena moeda. Na caixa de madeira, a estátua descabelada desperta mais medo que piedade. Atrás da Matriz, a loja. Foto Benetti. A mãe conversa com um senhor. Um local escuro. Dois guarda-chuvas prateados. A câmera morta, quieta. Como o Senhor da Matriz. O banco. A mãe saca um pente e o desliza por seu cabelo. Ajeitam seu rosto e clic. De lado, clic. De frente, clic. Sorrindo, clic. A menina entendeu. Em breve, verá seu rosto nas fotografias. Seu cabelo cascateando pelas costas, belo belo. Feliz, assim se sente. A mãe a toma pela mão, de novo. Descem a ladeira. O vento arrepia suas pernas.

A praça, o Bar Pequeno. Descem a rua, outra loja. Cabeleireira. Barulho de secador, conversas de mulheres. Cheiro do líquido de permanente e de laquê. A mãe fará um penteado? Não. É a ela que a moça se dirige. Mostram-lhe a cadeira alta. Com certeza vão aparar as pontas, como mamãe faz em casa. Lembra-se bem: a tesoura de costura da mãe, o pente. Fica quieta, menina, senão vai ficar torto! O corte da franja. Os olhos fechados, o pente raspando sua testa e a tesoura gelada clec clec clec. Os pedacinhos de cabelo caindo sobre seu rosto. Neve deve ser assim. A moça começa a cortar. Corta, corta, corta. Não pode acreditar. A tesoura profissional, incansável, ceifa a cabeleira. No espelho, a realidade: cabelo de menino. Pelo espelho, busca os olhos da mãe. Vai ficar melhor, você vai ver. Você mesma vai poder pentear. Mais fácil cuidar. Deixa cabelo comprido para quando for moça. Acabou. Desce da cadeira. Em torno de seus pés, os cabelos todos, rodeando-a, desentendidos. A cabeleireira apanha uma mecha, enrola num papel e o entrega à mãe. Para guardar de lembrança. E para mim, o que há? Nada. Segura a mão da mãe. Quer chorar. As pipocas compradas, menos salgadas que as lágrimas. Voltam para casa. Nem se lembra de examinar as paredes. No pescoço, a sensação de vazio, de frio, de engano. Dias depois, mostram-lhe as fotografias. Não se reconhece nelas, nem no espelho. Até a estátua do Senhor Morto tem cabelos longos.

Eliana Maciel é graduada em Letras e professora de Língua Portuguesa



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