Vou lhe contar minha história
O senhor preste atenção
É um bocado simplória
Mas é cheia de emoção:
Eu vim lá do interior
Estudar na capital
Passei muito dissabor
Conheci o bem e o mal
Li da prosa e da poesia
Aprendi a escandir
Literatura é meu guia
Procuro sempre seguir
Rima rica e rima pobre
Não tenho talento não
Um dia ver se descobre
Qualé minha vocação
Quero muito ser alguém
O orgulho da família
Mas não tenho um vintém
Pra comprar nem uma bilha
Trago junto um embornal
Dentro dele pão e água
E de lembrança um missal
Para a mãe não deixo mágoa
Lá na roça eu era nada
(Inda menos na cidade)
Não faltava camarada
Pra me dar saciedade
A carroça era meu trono
Meu senhor o alazão
Por aqui perdi o tono
Meu banquete era feijão
Eu não sou de brincadeira
Nem mulher de vida fácil
Sou muito trabalhadeira
E não tenho jeito grácil
Já amei e fui amada
Quando o tempo era bonança
Já gostei e desgostada
Mas ainda sou criança
Minha mãe que me alumia
Pois meu pai me desertou
Acho grande cobardia
Pero agora sei quem sou
Meu rosário me acompanha
O silêncio me alivia
Muita gente acha estranha
Minha ausência de alegria
Sinto falta duma casa
Meu quintal e meu irmão
Só depois que criei asa
Fui largar a procissão
O senhor já percebeu
Pois que não sou de arriar
Se até cá sobreviveu
É que há de continuar
Apesar da pouca idade
Tenho história pra contar
Mas nem tudo é cor-de-rosa
Como é praxe de pensar.
Sei que carece uma rima
O senhor que não esquece
Felicidade era em cima
Por aqui termino a prece.
Daniela Prado, mestre e doutoranda em Literatura pela Universidade de São Paulo
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