“Em 1911, no carnavalesco mês de fevereiro, nascia numa fazenda do Município de Bananal, Estado de São Paulo, um cara que começou logo dando confusão”, escreveu Pedro Caetano a respeito de si mesmo no início de seu bem humorado livro autobiográfico. Referia-se à displicência matuta de seu pai, Durval Mendo Caetano, ao registrá-lo em cartório com data de 24 quando, em verdade, havia nascido no primeiro dia do mês, e à negligência do escrivão que registrou Walde ao invés de Waldyr como queria a sua mãe, Zelpha Schotts Caetano, como forma de homenagear parentes amigos.
Aos três anos foi com os pais para outra fazenda, “nos cafundós de Maricá, de onde, aos doze anos, se mandou para o Rio de Janeiro”, como ele mesmo registrou.
E foi na antiga Capital Federal que estudou música tornando-se compositor. “Foi uma pedra que rolou” é o título da música que o projetou, lançada por Silvio Caldas, no Programa Casé, e gravado seis anos depois pela dupla Joel e Gaúcho. Mas o primeiro sucesso foi “Caprichos do Destino”, uma valsa composta com Claudionor Cruz, seu grande parceiro de composição, e gravada em 1938 na voz de Orlando Silva. Daí em diante, foram mais de trezentas músicas gravadas. A maioria com o “eterno” parceiro Claudionor e com o “gigante musical” Alcyr Pires Vermelho. Mas Pedro Caetano também compôs com Pixinguinha, José Maria de Abreu, Luiz Reis, Saint Clair Sena, Walfrido Silva, Wilson Batista e outros.
Suas marchinhas de carnaval, valsas, sambas, sambas-choro e choros receberam interpretações primorosas de Vicente Celestino, Cyro Monteiro, Francisco Alves, Orlando Silva, Nuno Roland, Carlos Galhardo, Altemar Dutra, João Petra de Barros, Dalva de Oliveira, Dircinha Batista, Jorge Veiga, Aracy de Almeida, Linda Batista, Elizeth Cardoso, Célia, Elis Regina e muitos mais.
Convidado pela TV Cultura de São Paulo, gravou o programa Ensaio, em 17 de dezembro de 1973. Dois anos depois, gravou na RCA Victor o seu único disco cantando suas composições de maior sucesso. Fato raro, visto que ele próprio entendia que compositores não eram, necessariamente, cantores: “Atualmente quase todos os compositores são cantores. Alguns são bons, outros são suportáveis mas a maior parte é de se colocar naquele lugar e puxar a cordinha... oh! Tipos sem vergonha! Mas isto é a maldita ambição, a ganância de ficar com todos os direitos... direito autoral, direito artístico e até o direito de encher a paciência da gente, pela sua incapacidade de autocrítica, sua despudorada coragem, seu descaramento! No meu tempo pouquíssimos compositores cantavam. Havia mais respeito aos pobres dos ouvintes, mais dignidade. Quando se fazia uma música, pensava-se no cantor que deveria interpretá-la. Não se agredia, não se impingia, não se impunha como os infelizes de hoje, que Deus não os perdoe e o diabo os carregue para cantar no inferno!”
De suas composições de sucesso, algumas andam vivas na memória dos que tiveram o prazer e a oportunidade de ouvi-las: Engomadinho (1942), Disse-me-disse (1944), Eu brinco ou Com pandeiro ou sem pandeiro (1944), O que se leva dessa vida (1946), Maria Madalena dos Anzóis Pereira (1946), Onde estão os tamborins (1947) e É com esse que eu vou (1948).
O resgate de parte do extenso repertório de Pedro Caetano tem sido recuperado em vozes como as de Zélia Duncam, Leila Pinheiro, Verônica Ferriani, Karla Sabah e Sandy e Pedro Mariano.
Em 1984, por ocasião do cinquentenário de vida artística do compositor, a Funarte do Rio patrocinou o show É com esse que eu vou produzido por Ricardo Cravo Albin e estrelado por Marlene e pelo grupo Céu da Boca.
Foram 30 apresentações entre Rio e São Paulo e mais 20 no Centro-Oeste do Brasil. “O melhor momento da minha vida de compositor” registrou Pedro Caetano em seu Meio século de Música Popular Brasileira – o que fiz, o que vi, livro com prefácio de José Ramos Tinhorão e reeditado, quatro anos mais tarde, com o acréscimo de um apêndice de pouco mais de trinta páginas.
E foi no Rio de Janeiro que o vigoroso fio de sua vida rompeu-se, aos 81 anos, em 27 de julho de 1992, deixando uma clarividência: o que se leva dessa vida é aquilo que nela realizamos, e Pedro Caetano operou uma bela obra musical construída junto a um grande círculo de amigos. Isto é o que ele deixa e o que ele leva.
Fonte: Meio século de Música Popular Brasileira – O que fiz, o que vi. Pedro Caetano, 1984, Rio de Janeiro, Editora Pallas. Autobiografia relançada e aumentada em 1988. Prefácio de José Ramos Tinhorão.
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