No dia 10 de janeiro de 1909, ainda no alvorecer do século XX, o Vale do Paraíba embala aquele que seria um dos maiores músicos de sua história, o filho do maestro Benedito Pereira dos Santos, o conhecido Mestre Alves, e de Dona Benedita Alta de Toledo: Elpídio dos Santos.
Sua musicalidade aflora cedo, ainda menino, e o pai, percebendo-lhe o talento, o introduz na teoria e prática musicais. O menino-jovem aprende rápido e logo começa a dominar vários instrumentos de corda e sopro, além de arriscar algumas composições. Aos dezesseis anos tocava na orquestra do cinema mudo e na banda musical de sua cidade – Banda Santa Cecília –, ambas formadas e regidas por seu pai.
Seu aprimoramento como músico aconteceu pari passu a funções e profissões várias: foi tipógrafo, cambista de chalé, escriturário de cartório e, por fim, funcionário do Banco do Vale do Paraíba, instituição na qual permaneceria ao longo de mais de vinte anos. E foi justamente em razão desse emprego que, recém-casado com Cinira (1950), passou a residir na capital paulista.
Tal mudança representaria o zéfiro de popa em sua carreira. Logo depois de chegar a São Paulo, em 1952, é gravada a sua primeira canção nas vozes da dupla Souza e Monteiro: “A Cruz de Ferro”, uma parceria com Anacleto Rosas Júnior. Isto foi um estímulo para que o compositor luiziense buscasse os estudos no Conservatório Paulista de Canto Orfeônico, na ocasião dirigido pelo exigente professor e maestro João Baptista Julião. Também concluiu o Curso de Aperfeiçoamento Musical em violão, no Instituto Musical de São Paulo.
Uma vez habilitado para a docência musical, foi professor no Ginásio Sete de Setembro e no SESC de São Paulo, além de ministrar aulas particulares. Ainda assim, apesar de muito trabalho, encontrava tempo para compor e freqüentar os bastidores das rádios Record e Bandeirantes em busca daqueles que pudessem contribuir na divulgação de suas músicas.
Em 1955, outra gravação pela Todamérica, desta vez com a dupla Cascatinha e Inhana. O estrondo do sucesso de “Despertar do Sertão”, primeira música brasileira a ser tocada na BBC de Londres, valeu ao compositor a presença de seu nome em jornais e revistas de grande circulação. O jornal “Última Hora” de 7 de julho de 1955, por exemplo, refere-se ao “número que vem obtendo boa vendagem em nossa praça, principalmente entre os discófilos do interior”. A Gazeta Mercantil de 24 de junho do mesmo ano comenta as composições de Elpídio dos Santos como “magníficos trabalhos” e o mesmo jornal traz em edição anterior, de 10 de junho, a seguinte análise do colunista Wadeco Fonseca: “Elpídio dos Santos é um batalhador, um idealista e um verdadeiro fanático pela música popular brasileira. Suas inspirações vêm sempre de motivos que estão no gosto do público ouvinte.
Suas composições são sempre acolhidas não somente pelos editores como também pelos intérpretes...”
Mas, apesar da crítica favorável, é no final na década de 1950 que a carreira deste compositor apaixonado pelo violão, membro da Ordem do Músicos do Brasil e da União Brasileira de Compositores, experimenta uma ascensão meteórica graças ao cinema e a um velho amigo: Amácio Mazzaropi.
Elpídio e Mazzaropi se conheceram, anos antes, na histórica São Luiz do Paraitinga, e construíram uma amizade tão sólida que quando o ator taubateano montou a sua própria companhia cinematográfica, a Produções Amácio Mazzaropi (PAM FILMES), tratou logo de encarregar o parceiro das trilhas sonoras de suas películas. São cerca de vinte e cinco composições de Elpídio gravadas na voz de Mazzaropi, além das trilhas sonoras de seus filmes.
Com seu inseparável violão, Elpídio dos Santos chegou a fazer ponta no filme “A carrocinha” e em alguns outros poucos filmes da PAM.
Na década de 1960, Elpídio retornou a sua terra natal e, a convite, lecionou Canto Orfeônico em algumas escolas da cidade e na Escola de Música e Artes Plásticas de Taubaté. Ao mesmo tempo, atuou como regente do Coral de São Luiz do Paraitinga.
E foi nessa condição de mestre e regente que permaneceu até falecer, subitamente, em 03 de setembro de 1970, deixando mais de 2000 composições musicais, boa parte delas preservada e catalogada pela família.
As músicas de Elpídio dos Santos já fizeram parte de trilhas sonoras de novelas na TV Globo (Cabocla e Rei do Gado), TV Manchete/SBT (Pantanal) e TV Band (Meu Pé de Laranja Lima) e foram gravadas por mais de 50 cantores consagrados. Irmãs Galvão, Dircinha Costa, Elza Laranjeira, Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana, Titulares do Ritmo, Duo Brasil Moreno, Trio Iatapoã, Trio Paulistano são apenas alguns nomes que gravaram por selos respeitáveis como Califórnia, Chantecler, Continental, Copacabana, Guanabara, Polidor, RCA Vitor, RGE e Todamérica.
Em interpretações mais recentes, Fafá de Belém, Sérgio Reis, Almir Sater, Pena Branca e Xavantinho, Vanusa, Renato Teixeira, Mato Grosso e Matias e muitos outros emprestaram seus talentos ao compositor de valsas, choros, sambas, marchas-rancho e músicas caipiras que jamais abandonou suas raízes valeparaibanas.
Fonte: Alma de Artista – Elpídio dos Santos. Cadernos Culturais do Vale do Paraíba. Dulce Schmidt Romeiro Guimarães e Aparecida Branco Silva. Fundação Nacional do Tropeirismo, Prefeitura de São Luiz do Paraitinga e Centro Educacional Objetivo.
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