Quando a educação autêntica se degenera em doutrina, avassala a liberdade e impede a criatividade, pilares fundamentais para a constituição de nossa humanidade. Arte é liberdade exercitada, assim como ética e política. Na ausência do ato livre, resta a degradação da disciplina infundada em desajuste com os valores de proa que devem inspirar a formação de novas gerações. Em Arte, a técnica é fundamental, mas a criação é sobrepujante.
A trajetória artística de Márcio Carneiro não é retilínea e sem percalços, se é que alguma exista. Mas o que merece relevo no itinerário deste taubateano, filho de José Roberto Carneiro e Maria Neusa Nunes Carneiro, nascido no trigésimo dia do primeiro mês de 1976, é a interrupção abrupta de um início promissor, motivada pela distorção guiada por uma pseudomaestria de um doutrinador que julgou prematuramente.
Num misto de contentamento e pesar, o artista rememora sua primeira experiência como aprendiz, aos nove anos, em conceituada escola de artes de sua cidade: “Foi de minha professora de História, que me achava talentoso, a iniciativa de matricular-me na Fêgo Camargo. Lá, fui colocado em uma sala cheia de esculturas de gesso e o professor me pediu para que as reproduzisse em desenho. Fiz isto com certa rapidez, em tempo significativamente menor que a média dos alunos.
Então, o professor solicitou que eu repetisse os desenhos, ao que atendi prontamente apesar de achar que a qualidade da primeira tentativa era boa e suficiente. Ao terminar, o professor, sem maiores explicações, determinou que fizesse os mesmos desenhos pela terceira vez. Sem entender, segui as orientações.
Depois de fazer a mesma atividade pela terceira vez, o professor concluiu que eu não tinha talento. Aquilo me chocou. Abandonei a escola, passei a estudar por conta própria e, durante anos, fiquei com medo de mostrar o meu trabalho. Tinha medo da crítica”.
Tempo depois, aos 17 anos, Márcio Carneiro conheceu Anelise, sua atual esposa que, em certa ocasião, vendo um desenho seu, tornou-se sua maior incentivadora. Foi ela quem o resgatou, levando-o ao atelier onde fazia curso de pintura, presenteando-o com uma maleta de tintas e pincéis e estimulando-o constantemente a retomar seus estudos.
Em seu reinício, passou a fazer aulas com Edena Spazziani, em cujo atelier permaneceu, como aprendiz e ajudante, por quatro anos. Ali aprendeu pintura à óleo, acrílica e espatulado, técnica na qual a professora era exímia. Foi de Spazziani que acatou a sugestão para seguir a pintura acadêmica com ênfase na anatomia humana.
Nesta mesma época, aceitou um convite para estudar em São Paulo. Retornou a Taubaté e, sem perder a ânsia por aprender, estudou com vários professores até que, aos 21 anos, foi surpreendido por Edena Spazziani.
Chamado ao atelier da artista, foi duplamente presenteado: recebeu o atelier completo da respeitada mestra e a indicação do nome de Anna Grimaldi Cortazzio, discípula do pintor acadêmico Edmundo Migliaccio, como a pessoa que poderia ajudá-lo em seu aperfeiçoamento como artista.
Não perdeu tempo e, desde então, há doze anos, compartilha, com manifesta expressão de contentamento, do conhecimento e da sabedoria da pintora.
Desde 2005, “depois de aprender, aprender, aprender,...”, Márcio Carneiro busca uma linguagem própria que parece ter encontrado nas técnicas acadêmicas associadas aos compósitos temáticos que associam anatomia humana, simbolismos psicanalíticos, história e cultura regionais.
Suas telas expressam um rico cabedal técnico que resulta em uma plástica primorosa. Aliás, esta é a expressão maior de uma concepção de arte que nega com veemência a produção em série. Para Márcio Carneiro, a verdadeira arte resume-se em “estudo, cuidado e amor”. Como ele mesmo assevera: “Arte não é linha de produção [...] Até mesmo pintar o retrato da casa de uma pessoa exige energia. É o gosto e o cuidado com a arte o que a perpetua. Este cuidado, a maioria dos artistas não tem. O fazer por fazer, só porque precisa de grana, não é arte.”
Ao realçar o estudo como condição para a arte, o artista taubateano não fala apenas de domínio técnico como recurso para bem pintar, mas sim de um necessário “contato com a realidade para a exploração artística de um tema. É preciso retratar do natural mesmo quando se busca a alma de uma situação. O universo é feito de energia e é a energia do artista posta na tela o que perpetuará a obra”, diz ele.
“Certa vez”, continua, “resolvi pintar um anjo de acordo com uma interpretação budista. No momento de pintar as asas, decidi por retratá-las como asas de ganso. No sítio da família, onde meu pai criava gansos, passamos horas para chegar a um resultado. Meu pai segurando um ganso com as asas abertas e eu a pintá-las.”
Se para Márcio Carneiro a natureza é energia, em sua arte, o retrato é símbolo. Se o seu academicismo se expressa na técnica, o tema é simbolismo puro. Physis e Psiquê unidas por Eros. Seria a linguagem buscada pelo artista uma síntese de irreconciliáveis diferenças entre o academicismo e o simbolismo?
Por ora, vale o deleite de um mergulho profundo na alma deste inspirado valeparaibano autor de cerca de 200 quadros de incomparável plástica.
Alexandre Marcos Barbosa Lourenço, professor de Filosofia e autor do livro Contando a Arte de Gilberto Gomes, Editora Noovha America.
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