Quem, de maneira desavisada, se depara com o semblante tranquilo de Douglas Costa, não percebe que por trás das ações comedidas e do falar cadenciado há um espírito cuja pulsação rebenta em originalidade. Aliás, este é o grande mote de sua arte: conduzir novos olhares sob o prisma do rigor técnico.
A técnica e o contexto são, para ele, elementos indispensáveis para a constituição de um diálogo entre o artista e o observador. A técnica, enquanto condição de composição inicial de um sentido ao que se enuncia e o contexto como fundamento da interlocução compreendida como interpretação. Para Douglas Costa, sem um mínimo de conhecimento de contexto, sem rudimentos de cultura, é impossível ler seus quadros dado o caráter hermético de sua produção. “Só quem tiver olhos verá. É preciso procurar o oculto presente nas imagens, decifrar os símbolos”, diz ele.
Nascido em Taubaté, SP, em 26/01/1977, Douglas de Campos Costa realizou seus primeiros estudos artísticos em sua terra natal, na Escola Fêgo Camargo, entre treze e dezessete anos de idade. Deste período de iniciação recorda com carinho de Lenita Freire, professora de História da Arte “... sempre presente e que tinha, realmente, prazer em ensinar o aluno”. No mais, tributa o seu aprendizado ao esforço individual: “Nada do que eu faço hoje veio como fruto da escola. É resultado de pesquisas e pesquisas pessoais. [...] Na escola, ouvi muitas bobagens que viravam verdades. Até mesmo professores de artes apresentavam conceitos distorcidos e eu pertencia a uma pequena parte de alunos que ponderava se o professor falava com fundamento.
Discordava de muita coisa. Mas quem reclama tem que fazer melhor, por isso voltei-me para o estudo, afinal, mesmo a desconstrução exige um saber-fazer”.
E foi a busca deste savoir-faire que colocou Douglas diante de “gigantes do passado”, conforme sua nominação, tais como os holandeses Rembrandt e Veermer, o francês Ingrès e o espanhol Velásquez. Deles extrai e atualiza os valores estéticos e os conceitos. Desta atualização nasce uma arte que “traz o desenho acadêmico numa linguagem contemporânea, com um excesso de cor impressionista num desenho acadêmico não-tradicional. Hoje, é possível pintar uma natureza morta ou uma figura humana numa nova ótica, com uma roupagem mais moderna. Por exemplo, posso pintar uma flor com um close no miolo [...] Minhas telas trazem a influência da história e de elementos de fantasia. O que chamo de fantástico é algo entre o mítico, o natural e a fantasia”.
Na presença dos elementos colossais das telas de Douglas, é impossível não se impressionar. “Você pode até não gostar, mas não fica sem olhar”, o artista observa. Parece que a magnitude dos temas exige o gigantismo dos quadros. “Telas grandes tem a ver com o colossal. Em minhas pinturas, tamanho é documento. Aprecio fazer tudo no superlativo. Gosto dos quadros grandes. O apelo é diferente”, conclui.
Diante de imagens fantásticas e grandiosas, o apelo é para “uma pausa temporal para ficar imerso, em absoluto, na obra que se observa”.
Desde 1995, Douglas ensina pintura. Primeiro, atuando em ateliers particulares de Taubaté e desde 2000 como professor em seu próprio atelier: o Acrópolis. Sua experiência como aluno de artes foi decisiva na definição de sua postura docente, daí sua advertência: “Enquanto alunos somos subestimados em termos de pontos de vista, em nossa capacidade produtiva. Ora, o diferente não é o errado, é apenas uma nova observação. Por isso, tento passar aos alunos aquilo que não tive na escola”.
Meticuloso, Douglas equipara expressão estética e rigor técnico, fazendo nascer desta combinação a sua predileção pelo autodidatismo. Artista plástico exigente consigo mesmo, também o é com os demais. É severo com a negligência de pessoas que, sem o crivo da análise de si mesmas, se autodenominam artistas: “Taubaté é coalhada de pessoas assim”, diz ele em tom de reproche.
Aos críticos que o censuram, entre outras coisas, de limitação criativa e megalomania, responde: “Faço meu trabalho para mim mesmo. Toda arte é uma expressão do artista para o próprio artista. O artista é o primeiro, em absoluto, a agradar a si mesmo”.
Douglas, desde 1990, participa de exposições, mostras e salões de arte em sua cidade natal e em algumas outras do Vale do Paraíba, mas foi a partir de 2005, ao participar da II Convenção Nacional Tolkien (Hobbitcon), na cidade de Santo André-SP, que o seu nome ganhou projeção nacional e internacional, ao menos entre os participantes e simpatizantes desta comunidade que aprecia a literatura de J. R. R. Tolkien, professor da Universidade de Oxford, filólogo e autor dos livros “O Hobbit, O Senhor dos Anéis” e “Silmarillion”. No encontro de Santo André, a arte de Douglas foi escolhida para representar o Brasil na Convenção Internacional da Tolkien Society ocorrida na Aston University, em Birmingham, Inglaterra.
Quadros expostos em “eventos bombásticos”, têm, para o artista, um aspecto significativamente positivo, pois eventos desta magnitude “permitem levar o conceito de Arte a um outro público que, normalmente, não frequenta Museus e Galerias”.
Questionado sobre as fases de sua produção e evolução como artista, Douglas diz serem as circunstâncias os primeiros condicionantes de seu trabalho. Se há etapas, são condições que as ditam.
Uma invariável, entretanto, há. Os procedimentos adotados no ato de pintar “beiram algo ritualístico-sacerdotal”. Retratos, paisagens, florais ou temas mitológicos/literários exigem, acima de tudo, a ativação dos elementos sensoriais, pois “na natureza estão 90% daquilo que a gente faz”.
Para ele, o ato de pintar exige um ritual que compreende:
Graduado em Computação Científica pela Universidade de Taubaté, Douglas propositadamente escolheu as ciências exatas para nelas encontrar a certeza de sua opção pelas artes. E assim foi. Mas o que verdadeiramente importa para ele é que cada um de nós assuma “a responsabilidade de tornar o mundo menos complicado do que é hoje. Neste mundo de informações não vejo ninguém mais culto. Ao contrário, quanto mais informações, mais burras as pessoas ficam. É o outro gume da faca. Ainda não saímos da Idade Média. Continuamos no mesmo anel de desenvolvimento visto que o desenvolvimento social e mental não acompanhou o desenvolvimento tecnológico da humanidade”.
E com este senso de pertencimento e responsabilidade pelo destino do gênero humano, convida cada um a contribuir, mesmo com o pouco que esteja ao alcance, para o aperfeiçoamento da espécie humana, o que não se dá na ausência da tradição e da criação culturais.
É como se o grande enigma da atualidade fosse o de decifrarmos a nós mesmos, compreender o que é ser homem. Disto depende o futuro humano, pois estamos diante de uma nova esfinge disposta a nos devorar.
Alexandre Marcos Lourenço Barbosa, professor de Filosofia e autor e organizador de vários livros.
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