Apesar de poucos estudos existirem a respeito das chácaras no século XIX, esse tipo de residência tornou-se bastante comum entre as classes dominantes brasileiras. Tendo como modelo as “granjas” portuguesas, esse novo estilo de moradia, resultante de um período próspero ocasionada pela riqueza do café, passou a representar sinônimo de luxo e status. Em Jacareí, não foi diferente.
Assim, em 2006, a Chácara Xavier, uma das poucas propriedades na cidade que ainda conservava características desse período, foi tomada como objeto de pesquisa como o primeiro sítio arqueológico histórico estudado do município.
As transformações no Vale do Paraíba cafeeiro. As fazendas de café e a cidade. As chácaras.
No século XIX, o Vale do Paraíba encontrava-se em grande processo de mudanças econômicas, políticas e sociais, graças ao café, como também à chegada de escravos africanos para trabalhos nas plantações. No final do século, o produto passou por sua maior crise na região. Famílias abandonaram ou venderam suas propriedades e cafezais transformando-as em pastagens.
As fazendas de café funcionavam como unidades de produção autônoma: eram formadas por sede, capela, senzalas, casa do administrador, engenho para beneficiamento do café, tulhas, paiol, etc. Próximas ao Rio de Janeiro, as primeiras unidades rurais foram construídas para o plantio do café, encontrando a melhor forma de organização do espaço. Ao nos distanciarmos da Corte, encontramos as pequenas fazendas já existentes, cujos fazendeiros procuraram manter as primitivas soluções de circulação e técnica construtiva. Aí, o café se deparou com a “taipa de pilão”.
Nesta fase, a arquitetura do Vale se desvinculou dos modelos portugueses manifestados através das técnicas construtivas, materiais de construção e estilos usuais na corte, buscando atender às novas mudanças sociais e econômicas. Tornou-se freqüente as residências com paredes externas grossas, pés direitos altos, paredes internas mais baixas, cobertura com telhas vãs, janelas e grade de respiração do porão, geralmente habitáveis ou usados como áreas de serviço.
Não havia abastecimento interno de água; roupas e louças eram lavadas fora, dejetos despejados no ribeirão próximo. Água para beber vinha da mina; para banho era aquecida em caldeirão e despejada em gamelas.
Os alimentos eram produzidos na área externa, tornando comum o uso de fogão da cozinha “suja” no quintal e a cozinha “limpa” ao lado da sala de jantar. A circulação, que tradicionalmente girava em torno da sala, adotou o esquema dividindo a moradia em três zonas: estar e receber, repousar e de serviço.
Além dos solares, foram construídos prédios, igrejas, edifícios públicos. Ruas foram abertas e calçadas. O comércio floresceu. Surgem preocupações com embelezamento das cidades, abastecimento de água e alimentos, problemas sanitários, saúde, higiene, iluminação elétrica, condução humana e de mercadorias, enfim, em melhorar a qualidade de vida da população.
Uma infinidade de novos produtos ingleses passou a fazer parte desse cotidiano, introduzindo uma nova maneira de morar e viver. Os aparelhos de iluminação artificial, por exemplo, mudaram os hábitos caseiros, abrindo “... as salas de jantar, as varandas às visitas – os jantares sociais tornaram-se moda a partir daí. Não só nas cidades, mas também nas fazendas” (LEMOS, 1989, p.45).
1 Chácara Xavier: um estudo de caso em Arqueologia Histórica. 2006. 205p. Dissertação (Mestrado em Arqueologia), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.
2 Claudia Moreira Queiroz, Arqueóloga da Fundação Cultural de Jacarehy
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