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Nº 30 | Novembro/ dezembro de 2009
Ágora
A intencionalidade no uso de drogas no Brasil | Cecília Regina Alves Lopes

Quando me dispus a escrever este artigo, busquei revelar minha total indignação com o que está ocorrendo com nossas crianças e jovens, quando desprovidos de proteção e cuidado estão à mercê dos piores bandidos que temos, os “traficantes”.

A falta de proteção e cuidado a que me refiro, não é a carência econômica, nem mesmo a ausência de pais responsáveis ou boas escolas, refiro-me à facilidade com que crianças e jovens são cooptados pelos criminosos, para inicialmente experimentar as drogas lícitas e depois as ilícitas.

Na prevenção ao uso de drogas há quem acredite que através da orientação nas escolas, as crianças e jovens estarão protegidos. Há aqueles que crêem que o exemplo e aconselhamento dos pais sejam suficientes. Uma parte considerável busca na religião um freio para a juventude.

Mas, nenhuma das alternativas isoladas tem obtido sucesso, nem todas juntas são suficientes para impedir que, a cada dia, novas vítimas sejam eficazmente alistadas no exército dos dependentes químicos.

Na rotina do judiciário, onde atuo como Assistente Social, todos os dias tenho que encarar a mais triste realidade, pais, mães, professores, empregadores etc. desesperados frente à situação de seus familiares, amigos, empregados, que são rotulados como “drogados” e que, em busca de solução, chegam ao judiciário como sendo a última porta.

Curiosamente, nas incontáveis entrevistas e atendimentos feitos, constato que todos conhecem a hierarquia do tráfico. Sabem quem é o traficante, quem é o intermediário, quem é o usuário. Questiono-me: Quem deveria saber e não sabe?

Se continuarmos buscando justificativas, sobre o porquê uma criança ou um jovem se tornou um dependente químico, nas questões miúdas, como: sua família, seu bairro, seu desinteresse pelo estudo etc., estaremos culpando as vítimas por serem vítimas.

Em nível micro, nenhum fator social é determinante para que um jovem se torne um dependente químico. O que parece ser a causa para um, no outro não é. Pais separados podem ter filhos dependentes químicos, assim como pais que vivem em perfeita harmonia. Pobres e ricos estão na mesma vala.

Procuro analisar o contexto buscando respostas para esse macro-fenômeno na estrutura político-social. A quem interessa essa situação?

É possível sair dessa encruzilhada? Ou devemos sentar e esperar que a situação do país mude, o tráfico de entorpecentes seja vencido, para só depois começar a pensar na possibilidade de se fazer algo pela juventude. A meu ver, se continuarmos inertes frente a essa problemática, não teremos nem juventude, nem futuro.

Fico perplexa ao observar que, além de não haver um trabalho sério de prevenção, de punição para os criminosos, o que mais aflige as famílias é a total falta de recursos, públicos e privados para o tratamento dos dependentes químicos.

Numerosos centros de recuperação, sem licença dos órgãos competentes para funcionar, aproveitam do desespero das famílias frente ao problema para ganhar dinheiro, muito dinheiro. Não dão garantia de nada. Só alimentam as esperanças.

Novamente me questiono: Além de não prevenir, não há como tratar. A quem interessa essa situação?

A dependência química é uma doença, e como tal deveria ser objeto de intervenção estatal. Os doentes são cidadãos e têm direito ao tratamento. Mas isso não ocorre.

A intencionalidade a que me refiro no título deste trabalho é na realidade a conclusão a que chego, frente à problemática apontada. Se há intenção em manter alienada e desequilibrada a juventude brasileira, é porque existem pessoas que têm vantagens com isso, e essas pessoas talvez não sejam apenas os traficantes.
A quem interessa essa situação?

Cecília Regina Alves Lopes, Assistente Social e Mestre em Direitos Sociais e Cidadania

Também: A Pátria de Antonio de Sant'Anna Galvão

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