As pessoas que gostam de beber colecionam muitas garrafas de bebidas finas, esperando que o tempo traga para os líquidos ali guardados, um melhor sabor.
A garrafa diferente que me motiva a escrever, não guarda líquido algum e tem, ao longo do tempo, mostrado sua utilidade. É a garrafa lacrada jogada nas águas do mar.
Aparentemente parece frágil, mas uma garrafa bem lacrada é um dos objetos de melhores condições de navegabilidade do mundo. Bóia com segurança em furacões capazes de afundar navios enormes. Na maioria de suas aplicações práticas, visto que o vidro é bem consistente, já foi constatada a presença de muitas garrafas de cerveja em navio afundado há 250 anos. A cerveja estava horrível, mas as dezoito garrafas estavam como novas.
A velocidade de uma garrafa à matroca varia de acordo com o vento e as correntes marítimas. Em um lugar sossegado, talvez não se movimente mais do que uma milha por mês. Se for conduzida pela Corrente do Golfo, poderá alcançar até a velocidade de 100 milhas por dia.
Ninguém, entretanto, poderá dizer com segurança, em que direção seguirá uma garrafa.
Quanto a mais longa viagem já feita por uma garrafa, os técnicos discutem o assunto com certo entusiasmo.
Uma valorosa garrafa foi apelidada de “Navio Fantasma”, provavelmente ficou no mar há mais tempo. Uma expedição científica jogou-a no mar em 1929 no sul do Oceano Índico com uma mensagem no seu interior que facilmente se lia sem ser preciso quebrar a garrafa. Nela se pedia a quem encontrasse a garrafa que comunicasse onde e quando fora encontrada e que lançasse de novo no mar, sem abrir.
Essa garrafa viajou por diversos mares, 16.800 milhas náuticas durante quase seis anos, com uma média de 6,5 milhas por dia.
A aplicação mais útil das garrafas marítimas, tem sido descobrir as correntes marítimas, para que os navios possam evitar as correntes contrárias e se beneficiar com aquelas que lhe são favoráveis.
Após a Primeira Guerra Mundial, os estudos feitos por meio de garrafas, ajudou a evitar que milhares de minas lançadas pelos contendores nas águas que banham a Europa pudessem explodir. Por meio de garrafas lançadas ao mar, puderam muitos entusiastas de oceanografia evitar que, depois do Armistício explodissem navios, assinalando as correntes das ondas onde, provavelmente, seriam encontradas minas.
O mesmo sistema foi usado depois da Segunda Guerra Mundial e estendida ao Pacífico.
Para os pescadores, o conhecimento exato das correntes marítimas é de um valor extraordinário, ajudando a aumentar o resultado das pescarias, com informações preciosas.
Através de séculos, as garrafas marítimas têm transportado uma variedade imensa de mensagens. A mais romântica delas, credito a Ache Wihning, jovem marujo sueco que se achava a bordo de um navio em alto mar, que lançou no oceano uma garrafa lacrada contendo um bilhete solicitando que qualquer moça bonita que a encontrasse lhe escrevesse.
Dois anos mais tarde, um pescador a apanhou nas costas na Sicília e, de brincadeira, entregou à sua bonita filha Paolina. Ainda de brincadeira, Paolina escreveu uma carta a Wihning. A correspondência tornou-se mais carinhosa e sem muita demora Wihning resolveu visitar a Sicília. Então, conheceram-se melhor, casaram-se e foram muito felizes.
Essa garrafa diferente gerou um lar e edificou uma honrada família.
Eis aí um belo capítulo da velha e eficiente história dos serviços prestados pela humanidade pelas garrafas à deriva.
In: Novas Crônicas de um professor, 1997, livro em xerocópia 60 p., p. 51-2.
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