Sempre tive pela imprensa uma admiração especial. Ela alimenta o nosso saber e nos coloca a par de tudo que se passa no mundo.
Fazer um jornal ousado, noticioso, correto, defensor da verdade e amigo do povo é uma tarefa semelhante a do alpinista em escalar o Monte Everest.
Não é fácil e torna-se um verdadeiro desafio. Muitos homens aceitaram esse desafio com amor e destemor.
José Clemente Paz foi um deles. O primeiro número de seu jornal, aparecido em 1869, arvorou desde logo os princípios que lhe guiariam os passos: Verdade; Honra; Liberdade; Progresso; Civilização.
Não é simplesmente um jornal, mas uma instituição a quem incumbe como dever sagrado fazer tudo o que esteja em suas forças para ajudar o povo.
Se um indivíduo está doente, poderá ser tratado no consultório do jornal – e sem pagar coisa alguma.
Se precisa de tratar ou consertar os dentes, aí estão para atendê-los gratuitamente os dentistas da empresa.
Contará, do mesmo modo, com os advogados do jornal para dar-lhe o devido conselho e defendê-lo se lhe faltarem recursos.
Não se suponha que haja em tudo isso qualquer espírito de propaganda visando o aumento da circulação. Toda gente é ali bem vinda, compre ou não o jornal.
Se se trata de um lavrador, o jornal está pronto a analisar-lhe o terreno, ou a dizer-lhe o que deve fazer para curar um animal doente. Se aparecer um jovem com vocação musical, o conservatória da empresa lhe dará ensino grátis. Mantém ainda uma biblioteca pública, uma sala de conferências virtualmente franqueada a qualquer grupo que dela deseja servir-se, e um laboratório à disposição do comércio, para análise dos produtos.
Ajudou muitos imigrantes e se ofereceu para servir-lhe de endereço postal. Foi o jornal que mais notícias trouxe para os colonos referindo-se às regiões de onde tinham vindo. Cativou entre eles uma amizade muito grande o que trouxe para o jornal inúmeros anunciantes.
As seções de anúncios do jornal converteram-se então, mais e mais, no verdadeiro mercado para compra e vendas de toda natureza, e onde empregadores e candidatos e empregos se encontravam, uns com os outros, satisfazendo-se reciprocamente.
Milhares de anúncios tornaram o jornal um dos mais prósperos do mundo.
Vou falar da integridade deste jornal citando um fato. O jornal publicou um artigo censurando uma grande companhia. No dia seguinte, apresentou-se um representante da firma com uma réplica para ser inserta na seção de anúncios, onde ocuparia duas páginas.
A gerência recusou a publicação dizendo amavelmente: “Se os senhores desejam replicar, preparem um comunicado e nós o publicaremos na parte editorial respectiva”.
Esse jornal é muito escrupuloso e seu noticiário tem título discreto, de pequena dimensão. Nem os divórcios, nem os suicídios são registrados em suas colunas. Até mesmo caso de homicídio tem sido noticiário como morte em “condições anormais”.
O mesmo escrúpulo se manifesta no departamento de publicidade, onde certa vez hesitou em aceitar um anúncio de Wriglew, por antipatia pela idéia de introduzir nesse país o uso do chiclete.
Quando o autor da seção humorística ilustrada deste órgão da imprensa, Don Fulgêncio, emprestou o personagem de suas gravuras para figurar no reclame de uma dada marca de café, a direção não só rejeitou o anúncio com suprimiu a referida seção, não obstante a popularidade de que a mesma gozava. Imagine se um jornal dos Estados Unidos eliminasse Superman ou Blondie por semelhante razão.
A atitude do jornal para com os seus empregados não é só benévola, é patriarcal.
Escrevi tanto sobre esse órgão de imprensa sem lhe declarar o nome. Faço agora e o faço reiterando-lhe a minha grande admiração.
Esse grande jornal chama-se La Prensa e é editado em Buenos Aires.
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