Em 1989, sob a pena artística e literária do notável Tom Maia, o Museu Frei Galvão publicava mais uma de suas breves e indispensáveis monografias (nome dado aos pequenos textos alusivos à história - personagens, lugares e fatos - e ao folclore de nossa região).
Aliás, à guisa de inconformação, é incompreensível por que os poderes públicos, até hoje, não apoiaram financeiramente a transformação deste rico material em livro. Ou melhor, a compreensão é até possível, a admissão é que não.
Retornando ao que nos move, desta vez, a alusão monográfica era ao Mercado Municipal de Guaratinguetá, lembrado em seu ano centenário na pesquisa cunhada com o n. 93 da coleção história.
Nela, com exímia capacidade de síntese e elaborada concatenação de idéias, o autor expõe, a partir de pesquisa empreendida nas atas da Câmara Municipal da cidade e em outros documentos, como foi o processo de transformação das feiras livres no mercado tal qual hoje é conhecido, demonstrando que não faltou empenho e arrojo do legislativo na busca por alternativas financeiras que viabilizassem o projeto até a sua conclusão. E é ali que se lê:
“Lançando as bases de uma grande construção, a Câmara Municipal atendeu aos movimentos de progresso e de riqueza deste importantíssimo município. Construções como esta refletem a pujança e a prosperidade dos grandes centros de produção”, pronunciou-se o vereador, Dr. Ernesto de Castro, por ocasião da inauguração do prédio do Mercado Municipal de Guaratinguetá, no dia 7 de setembro de 1889, próximo do apagar das luzes do período imperial brasileiro.
A construção iniciada em 5 de abril de 1888 foi concluída em 31 de julho do ano seguinte. Quis a história que no primeiro dia de julho de 1957, quase sete décadas depois, um grande incêndio reduzisse às cinzas um dos mais significativos símbolos do espírito altivo e empreendedor do povo guaratinguetaense.
Em poucas horas, o fogo consumiu o que havia. Em edição de 7 de dezembro de 1958, o jornal Correio Paulista traz o artigo Um drama de longos capítulos assinado por Ciro dos Santos que assim relata o ocorrido:
“Num resto de tempo, as chamas envolveram o prédio, estalando as cumieiras secas pelos anos, invadindo as casas separadas e pondo por terra a multidão de telhas.
Incêndio.
Pavor.
Destruição.
Tudo ficou em brasas, depois em cinzas e por fim um monte de ruínas deixou aos olhos curiosos. Isso foi em julho de 1957, quando o mercado da cidade fazia-se em gigantesco incêndio, apavorando todos, deixando em lágrimas sentidas a multidão de homens que perdiam tudo, até os centavos poucos que ganhavam no dia azarado.
Foi o mercado, as economias e o patrimônio valioso da cidade”.
A presença do pequeno carro-pipa da Aeronáutica evidenciava a quase completa falta de estrutura para lidar com problemas daquela magnitude. Restava observar as labaredas e os lamentos. Em dois tempos (talvez as únicas chapas tiradas), o fotógrafo – parece, pelo ângulo, ser o mesmo – registrou o furo de reportagem em nossa memória visual.
Hoje, prestes a completar 120 anos, o Mercado Municipal, remodelado em 1971, é um recanto glamouroso, um ancião que sempre aviva as recônditas lembranças de pessoas, sonhos e fatos. Cicerone afável, é a porta de entrada ao universo cultural simples, gentil e acolhedor de Guaratinguetá.
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