A definição de um nome para o pleito segue as regras para uma unificação das diversas correntes dentro de uma mesma agremiação, tendo como referencia um objetivo. A vitória do partido na eleição em disputa. Apesar de ter os dissidentes paulistas um outro candidato, o trabalho de bastidores feito por Campos Sales, buscava um apoio maciço em torno do nome de Rodrigues Alves. Para isso, despachou rumo aos principais centros políticos do país um emissário com o objetivo de construir uma aliança em torno do nome do Conselheiro, mesmo que para isso, fosse necessário ofuscar algumas lideranças locais e outros pretendentes a vaga de candidato do Partido Republicano.
Outro ponto que merece destaque é a utilização de comícios. Por diversas vezes Rodrigues Alves viajou para locais importantes dentro do cenário político/eleitoral, como foi o caso de Santos, a região do Vale do Paraíba, com destino ao Rio de Janeiro ou para o interior do Estado de São Paulo. Os diretórios regionais do Partido Republicano que estavam empenhados na eleição do Conselheiro organizavam encontros com a população local, onde esta podia ouvir do próprio candidato os objetivos e propostas de seu governo. Por diversas vezes este expediente foi utilizado e certamente produziu grandes efeitos.
Assim como os diretórios locais ficavam incumbidos de reunir o povo para as preleções do candidato, os mesmos proporcionavam reuniões periódicas para um fortalecimento da campanha. Personalidades importantes e influentes da época compareciam às reuniões para dar o apoio ao candidato Republicano, mesmo que não estivesse filiado ao partido, mas que, no entanto, estivesse ligado à causa Republicana.
Outra missão dos diretórios locais era a busca do apoio da imprensa Republicana. Estes jornais categoricamente se declaravam em favor da candidatura de Rodrigues Alves. Nos diversos jornais espalhados pelo território nacional as matérias publicadas em busca do apoio ao candidato Republicano, incitavam aos eleitores a comparecerem às urnas para que a eleição tivesse êxito. Se não bastassem os diretórios locais, certamente os mais diversos jornais, cuja ligação com a causa Republicana estava consumada, não cansavam de apoiar diariamente o candidato.
As viagens feitas pelo candidato cujo objetivo era a inauguração de alguma obra específica, também proporcionava momentos de exposição da campanha. Todos os discursos voltados para a inauguração de obras que o candidato implementou como Presidente de São Paulo ( cargo que hoje corresponderia ao de Governador), carregavam um conteúdo que extrapolava aquele momento único. O tema eleição era certamente abordado, já que é comum candidatos que ainda não tivessem se desincompatibilizado do cargo, utilizarem a estrutura que comanda para implementar sua campanha. Dessa forma, o uso da estrutura do Estado como arma na campanha eleitoral é explicito. Na história do Brasil existem muitos exemplos do uso deliberado da “máquina’ para fazer seu sucessor ou para conseguir um segundo mandato. Certamente em 1902 não fugiu-se à regra. Rodrigues Alves foi Presidente do Estado de São Paulo, saindo apenas momentos antes do pleito de 1902. Como em outros Estados, São Paulo mostrava uma dissidência disposta a perturbar a candidatura de Rodrigues Alves. Na presidência estava Campos Sales. Este era entusiasta e defensor da candidatura de Rodrigues Alves. Mesmo antes de se concretizar o referendo das urnas, os homens de confiança de Prudente de Moraes já estavam despachados por todo o território nacional uma busca de apoios pelo nome do Conselheiro. Nenhum esforço foi poupado.
As congratulações recebidas pelo já eleito Rodrigues Alves sugerem uma ligação com a conhecida boca-a-boca. De alguma maneira as pessoas que se empenham em mostrar seu apreço ao Presidente eleito, estavam expressando que durante a campanha estabeleceram uma posição de apoio firme ao então candidato. Neste sentido, é perfeitamente entendido que estas personalidades trabalharam, em maior ou menor grau, num empenho no dia a dia da campanha do Conselheiro Rodrigues Alves. Só desta forma justificaria sua assinatura num manifesto em congratulações ao novo Presidente.
Um ponto extremamente relevante dentro de uma campanha eleitoral é o eleitorado. Esse grupo é o alvo principal de uma campanha. Pode-se medir a amplitude uma estratégia em função da necessidade de conseguir levar a mensagem do candidato até o eleitor.
Especificamente na campanha de 1902, deve-se levar em consideração o universo de eleitores. Para isso, é importante ter a dimensão do grupo que efetivamente estava habilitado para comparecer às urnas e depositar o voto. No contexto da eleição para o quatriênio 1902-1906, uma maioria esmagadora da população brasileira estava excluída do processo eleitoral. Isso não significou que a tarefa tenha sido mais simples.
A imprensa constituía o principal veículo de difusão da época. Em todo o território nacional era possível, pelo menos para os cidadãos mais abastados e letrados, ter acesso aos periódicos. A nação estava recentemente com o Regime Republicano e era natural encontrar neste cenário uma divisão entre as várias correntes ideológicas, como os Monarquistas, os Republicanos e Dissidentes.
Nos jornais de cunho Monarquistas, como o Estado de São Paulo, o assunto eleição presidencial praticamente era ignorado. Poucas vezes o tema foi abordado e mesmo assim, sempre procurava minimizar a importância o acontecimento. Os jornais que se opunham à indicação de Rodrigues Alves para o cargo de Presidente da Republica, mas que apoiavam os chamados dissidentes, sempre davam com destaque o tema eleição presidencial enfocando os candidatos da dissidência. É o caso do Jornal do Brasil e o Correio. Estes periódicos, no entanto, estavam engajados na causa Republicana e mesmo na posição de dissidentes, salientavam a importância do comparecimento dos eleitores às urnas na data prevista. Era importante a consolidação do novo regime.
Os jornais que também nasceram sob a bandeira Republicana e apoiavam a candidatura de Rodrigues Alves, não se cansavam de convocar os eleitores e propagavam os ideais republicanos. Neste grupo estão A Tribuna do Norte, O Correio Paulistano, Jornal de Taubaté e O Diário Popular. Nestes periódicos, o assunto eleição presidencial e o candidato apoiado pelo governo central eram destaques freqüentes. Nesta projeção, é plausível entender que o mesmo acontecia em todo o território nacional. È claro que o centro político e econômico do Brasil estava resumido ao conhecido eixo Rio-São Paulo, que juntamente com Minas Gerais, tinham praticamente a totalidade do colégio eleitoral do período.
Portanto, os jornais e no Discurso-Programa de governo, trabalhado por Rodrigues Alves no jantar de 23 de outubro de 1901, constituiriam-se no norte que tomou o tom da campanha como discurso ideológico. Nos periódicos, cada qual seguia sua doutrina e abria espaço como lhes convinham. Temas como a problemática da economia e da situação política vivida pela nação eram abordados e colocados como questões que deveriam ser resolvidas pela próxima gestão. No Discurso-Programa, os assuntos que estavam na pauta de discussão da jovem Republica eram abordados de maneira clara e obstinada pelo candidato. Se nos jornais as questões econômicas e políticas estavam nas primeiras paginas, no discurso-programa não foi diferente. Rodrigues Alves sabiamente abordou pontos como estes, mostrando conhecimento sobre as dificuldades que passavam as esferas administrativas do país. Elementos como continuidade do trabalho feito por Campos Sales na economia, na administração do Estado e na afirmação do Regime Republicano, além de uma marca própria no seu governo foram sistematicamente colocados para que não houvessem dúvidas quanto da tendência de seu futuro mandado, uma vez que o candidato em sua carreira política, migrou do campo monarquista para o republicano. Era considerado um adesista.
Nos bastidores da sucessão, deve-se realçar o trabalho desenvolvido por Campos Sales. Seu controle sobre as manobras para a indicação de Rodrigues Alves foi notável. Conseguiu neutralizar diversos nomes que se consideravam herdeiros naturais ao cargo. Eram apóstolos da causa republicana, e mesmo assim, Campos Sales, levou adiante seu desejo de trabalhar com Rodrigues Alves, já que ele via neste nome, uma continuidade nos trabalhos realizados na presidência.
Para tanto, despachou pessoas ligadas diretamente aos seus propósitos para todo o território nacional na busca de apoio para sua empreitada, garantindo apoio político.
Mesmo com todas as manobras realizadas pelo executivo, a contra-propaganda existiu em muitos estados brasileiros. Os dois principais, São Paulo e Rio de Janeiro, os órgãos do Partido Republicano, trabalharam como dissidentes. Eram facções que buscavam outros nomes para o pleito de primeiro de março. Na província Paulista o nome apoiado pelos chamados dissidentes era Ubaldino do A Fontoura e no Rio foi Quintino Bocaiúva. Neste jogo de informações e contra-informações, situação e oposição utilizaram a imprensa, que tinha posicionamento claro no apoio aos candidatos, para acusações mutuas durante a campanha. As dificuldades infligidas pela dissidência parecem não terem causado maiores efeitos na campanha de Rodrigues Alves, já que os atores que compareceram às urnas no dia primeiro de março de 1902, estavam interessados efetivamente no processo eleitoral. O destino de todo um contexto político/econômico estava em jogo. Naquele efervescente momento histórico as peças estavam atuando de maneira contundente, ora para manter seus privilégios, ora para atuar na busca de uma mudança estrutural.
A campanha empreendida para levar Rodrigues Alves ao cargo máximo da Republica se mostrou eficiente. De pouco adiantou a oposição de grupos dissidentes ou monarquistas. O escrutino final dos votos expôs um resultado esmagador. Rodrigues Alves foi eleito com 592 mil e 39 votos, enquanto Afonso Pena, seu concorrente principal, conseguiu 288 mil, 285 votos. O Conselheiro Rodrigues Alves foi o Presidente mais votado até o ano de 1926, quando Washington Luis ultrapassou sua marca, mas ficando abaixo de 100 mil votos.
Neste trabalho buscou-se resgatar, sob a ótica da propaganda política, um período histórico de nosso país. Quando se fala em propaganda eleitoral, vem em nossa mente todo um aparato tecnológico da atualidade, que nos bombardeia com mensagens através de mídia eletrônica e impressa. No entanto, a propaganda já era feita desde os tempos remotos. Nem é preciso citar a retórica Aristotélica. Mesmo num Brasil de 1902, era necessário um empreendimento propagandista para atingir o objetivo de eleger o candidato oficial. Neste sentido, deve-se observar o limite que o contexto permitia desenvolver enquanto propaganda.
Ainda assim, é relevante salientar os contra-tempos que é fazer pesquisa neste país. Quando é necessário mergulhar em documentos antigos, depara-se com o pouco trato dos materiais antigo. Muitos dos acervos disponíveis são coleções particulares que foram doadas aos museus e arquivos. Outros tantos, ainda permanecem em poder de particulares. Sem falar dos documentos que já foram destruídos por não haver uma conservação adequada. Ainda assim, o trabalho de pesquisa deve continuar incessantemente para se construir uma base sólida, onde uma nova geração construirá um outro degrau.
Celso Antonio Meneguetti é mestre em Comunicação (UNIMEP) e Coordenador de Rádio e TV da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas e Comunicação da UNIVAP.
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