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Ano 3 | Nº 28 | Julho/agosto de 2009
Grafias
A Ponte do Elvira | Jorge Souza

O rio Paraíba corre preguiçoso. Quando chega ali embaixo da ponte do Elvira ele se modifica. Suas águas transformam-se em redemoinhos, corredeiras. Para logo em seguida acalmar novamente e seguir o seu caminho para o oceano.

Neste final de manhã de domingo ela chegou ali na ponte, agora de grades recentemente pintadas de amarela. Vestia uma blusa de malha, calça jeans e tenis branco com detalhes rosa. Havia também na sua blusa detalhes rosa para combinar com o seu tênis.

Debruçada na grade com o olhar perdido, os seus pensamentos estavam distante. Não ouvia e muito menos via os automóveis a cruzar a ponte. Algumas pessoas passavam por ela. Em alguns momentos, discretamente, brotavam lágrimas dos seus olhos os quais ela as enxugava com as costas das suas mãos.

O seu pensamento estava em casa. Ela mora ali perto, no bairro do São João. De manhã fora com a mãe e o seu irmãozinho à feira. Compraram verduras, frutas, legumes. Antes de retornar para casa comeram pastel.

Quando chegaram em casa o seu pai já não estava mais lá. Elas guardaram a verdura na geladeira e as frutas na fruteira localizada num cantinho da pia próximo ao filtro d’água.

Quase todo domingo era assim: seu pai saía cedo, ia para o bar e depois voltava embriagado. Naquele dia não foi diferente. Primeiro o barulho no portão, a batida forte ao fechá-lo, o passo desordenado pelo corredor, o ruído das mãos ou das costas a apoiarem no muro do pequeno corredor. A tensão tomando conta de todos no interior da casa. Logo ele surge na porta da cozinha, encostando-se no batente. Resmungando palavrões começou implicando com sua mãe. Ela de costas a fazer o almoço, calada ouvia os insultos sem nada responder. Súbito o seu pai avançou agredindo com um soco a cabeça de sua mãe.

Desnorteada ela agarrou o menorzinho trancando-se no quarto.

Ela, a filha mais velha, adolescente ainda, rápida, atravessou a cozinha. Correndo, saiu para a rua sem rumo. Ainda no portãozinho ouviu o choro abafado do menino e os palavrões do seu pai.

O feirante da barraca em frente a sua calçada ao ver a menina atravessar por ele teve o seu coração machucado - sabia o que estava ocorrendo dentro da casa.

A sua mágoa, misturada com ódio era tanta que não via as pessoas no meio da feira, não ouvia os berros dos feirantes. Desceu a rua em direção a Dijave. Quando ali chegou atravessou a rua em direção à calçada da Drogaquinze.

Continuando pela calçada, passou pelo Clube Elvira, indo parar ali na ponte onde estava agora a relembrar da cena. Via no rebuliço das águas lá embaixo o desespero do seu irmãozinho, o seu choro contido. A rosto resignado da mãe. Por que o seu pai é assim? Por que a vida é assim?

Súbito, uma lágrima escapou-lhe do rosto. O raio de sol a fez brilhar como uma estrela cadente. Então ela recordou: era noite de São João na casa de sua avó. Ela ainda era criança, seu pai a segurava no colo quando uma estrela cadente cruzou o céu.”Filha toda vez que você ver uma estrela cadente faça um pedido que ele se realizará”

Vendo a sua lágrima agora imitando uma estrela cadente ela fez um pedido: “Estrelinha em forma de lágrimas, antes de meu pai perder o seu emprego a vida lá em casa era um rio, corria calmo, transbordando felicidade. Por favor, ajude ele a arrumar um trabalho...”

Contato: jorge.p.souza@hotmail.com


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