O piso quadriculado da calçada. Não posso pisar no preto, só no branco. A menina saiu de casa há dez minutos. Tem uns oito anos. Está alegre. Nem sabe como a mãe a deixou ir. Pisar só no branco. Seu destino é a pracinha, ao lado da igreja. Na mão, a sacola de mercado. De lona verde desbotada. Lá dentro, dois pratos fundos emborcados, amarrados por um pano de prato alvejado. Para conservar o calor do almoço do pai. Ele trabalha numa granja entre as duas cidades, esta e a próxima, aonde a menina nem nunca foi. Mas tem boa memória, sabe o que deve fazer: a pracinha, a chegada do ônibus. Onze e meia. Onze e meia. Muda a sacola de mão. Acenará ao motorista, o pai lhe mostrara como. O ônibus parado, a porta que será aberta, o dinheiro. Apalpa o bolso da calça azul. Entregará a quantia exata ao motorista e dirá aonde quer ir. Um pequeno percurso e o motorista: é aqui. Ela descerá. Esqueceu-se do piso. Pisa brancas e pretas. Deverá andar um pouco: estrada de terra. Conhece o local de tanto ouvir seu pai contar. O encontro com o pai, seu sorriso e o almoço quente, conservado entre os dois pratos. A sensação de poder nutri-lo. Depois, observará seu trabalho: a ração, a água, a limpeza. Os dois voltarão para casa de bicicleta. Ela sentada no esquadro, sentindo em suas costas a respiração do pai no esforço das pedaladas, o cuidado: não encoste o pé na roda! Pelo menos hoje ele terá um almoço quente.
Chega à pracinha. Desequilibra-se no piso de pedras arredondadas. É aqui que tenho que ficar. Senta-se no banco sem encosto, o coração acelerado. Não está acostumada a distanciar-se de casa. Acho que nunca andei de ônibus. Vai e volta da escola a pé, as amigas passando pelas casas umas das outras. Vai à casa da avó e à casa da tia, no centro da cidade, para além da praça. Foi lá que assistiu à partida – em sua casa não havia televisão. Quando voltava, mãos dadas com os pais, não entendeu a festa na praça: buzinas, fogos, música, gritaria: Brasil tricampeão! Assustou-se.
Olha a curva... nada. De novo... nada. De novo... um ônibus! É maior do que imaginou. O coração mais acelerado. No letreiro, o nome da cidade vizinha. Levanta-se, acena. O motorista viu! Diminui a velocidade, encosta no meio-fio. É muito maior que imaginei! Onde está a porta? Onde? Procura. Não encontra. Quem sabe fica do outro lado? Dá a volta. Não, a porta não ficaria na rua. De novo na calçada, a tempo de ver a porta se fechar e o carro marrom se afastar, numa nuvem de diesel e angústia. Na mão, a sacola pesa. Retorna ao banco, senta-se. O que fazer? O que fazer? Quando o próximo ônibus? Voltar para casa? A mãe nervosa, a zombaria dos irmãos... e o pai sem almoço, preocupado com ela. Não há telefone em casa. A mãe às vezes usa o telefone dos vizinhos, somente em emergências. Percebe-se que não gostam. Nem sabe se há telefone onde o pai trabalha. As lágrimas descem resolutas, volumosas. Limpa-as com as mãos, as mãos na blusa de florezinhas que a mãe costurou. Por que não esperei? O dinheiro no bolso, inútil. O almoço, inútil. Chora triste, vencida.
Atravessa a pracinha um moço. Tem a cara conhecida. Mora na sua rua, numa casa nova. Família numerosa: nove ou dez filhos. Ele a vê, pára, senta-se do seu lado. Pergunta. Ela conta, entre soluços e engasgos. Ele oferece o lenço, ela limpa as lágrimas, quase em vão. Espere um pouco, menina. Sai. Ela não saberia mesmo o que fazer, além de ficar. O pai deveria ter levado o almoço de manhã, como sempre fazia. Deveria comê-lo frio, como todos os dias. Quis ajudar e não fui capaz.
Encosta um carro à sua frente. Um táxi. O moço lá dentro a encoraja: venha, vou levá-la. O almoço do pai! Nem tudo está perdido. Entra no carro, senta-se, a sacola na perna, pode sentir o calor do prato. As lágrimas estancadas, um quase-sorriso. Onde o pai trabalha? Saem da cidade, o moço orienta o motorista. A pequena estrada de terra. O carro levanta poeira: é julho, mês de férias. Adentram a granja. A menina vê o pai trabalhando, a camisa suada. Ele enxerga o carro, observa os passageiros, franze a testa, desentendido. Ela sorri e acena: o tesouro nas mãos. O carro pára: ela desce, agarra a mão do pai: pronto, novamente segura. Pai e moço conversam, apertos de mãos, agradecimentos, despedida. Vitoriosa, espera o elogio. O pai: o almoço de hoje saiu caro. Alguma coisa errada. Ver o pai almoçar não foi tão bom.
Causei prejuízo aos poucos recursos da família. Passou a tarde distraída, vendo o pai trabalhar.
Mergulhou as mãos no tanque e sentiu a água fria, quase gelada. Ajudou o pai a encher as vasilhas de água, a distribuir a ração. No coração, o desconserto. Vão para a casa de bicicleta. O cuidado do pai, as pedaladas fortes, os solavancos da estrada. As nádegas e pernas amortecidas. Quase tudo no seu lugar. Quase.
A cozinha da pequena casa. Cheiro de café passando pelo coador de pano. A mãe lava louças. À mesa, a menina veste e desveste a bonequinha de papel. Roupa de inverno, agora: calça, botas, casaco, gorro. O pai chega, assoviando. Serve-se de café na caneca de louça. Senta-se. Fora conversar com o moço, saldar a dívida do táxi. Ele se recusou a falar o valor, não quis cobrar nada. Fizera por ter visto a menina chorando. Tem uma filha também, bem pequena. Não adianta insistir, aceite pela nossa amizade. Saboreia o café. A fumaça por sobre a caneca. Colher tlin tlin no fundo. Ainda há gente boa nesse mundo! Sorri e a olha. A menina veste trajes de banho na boneca: maiô, chapéu, chinelos. O olhar do pai é mais forte. Ele a chama. Deixa a boneca e sobe nos seus joelhos. A lembrança da voz da tia: está muito grande para ficar no colo do pai! Nem liga. Afunda a cabeça em seu peito. Aspira: café, leve suor, desodorante, sabonete. O cheiro do pai. Ele brinca com seus cachos loiros. O desconcerto indo embora. Quase toda a culpa. Quase.
Eliana Maciel é professora de Língua Portuguesa e supervisora de ensino do estado de São Paulo.
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